Revista ECO•21

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Editorial

Edição 108
Novembro 2005
 
Capa: Colhereiro, ave típica do Pantanal. Aquarela de Jorge Eduardo.
   
  A marcha da sensatez
  Marcos Sá Corrêa
   
  O Bioma Pantanal é a maior planície alagável do mundo
  Alcides Faria / Rafaela Nicola
   
  Pantanal: um paraíso seriamente ameaçado
  Carlos Padovani / Rob H. G. Jongman
   
  Perigos do samba de uma nota só
  Luiz Eduardo Cheida
   
  Rodovia BR-163: o perigo de asfaltar a Amazônia
  Tica Minami
   
  As perguntas sobre as Mudanças Climáticas
  Williams Pinto Marques Ferreira
   
  Ecologia urbana
  Felipe A. P. L. Costa
   
  Uma visão moderna da construção sustentável
  Márcio Augusto Araújo
   
  Os supermercados e o cartel global de alimentos
  Hilary Mertaugh
   
  Lançado o primeiro satélite construído por estudantes
  René Capriles
   
  Itaipu recebe prêmio pelo Programa Água Boa
  Gilmar Piolla
   
  Compostagem transforma resíduos em adubo orgânico
  Eduardo Pinho Rodrigues
   
  Os bilhões contidos no lixo
  Olimpio Araújo Junior
   
  A reintrodução de animais silvestres nos seus hábitats
  Jaqueline B. Ramos
   
  Impactos de espécies exóticas em água doce
  Márcia Tait
   
  O ensino de temas relativos ao meio ambiente na PUC-Rio
  Denise Pini Rosalem da Fonseca
   
  Suframa e Biodiversidade
  Leila Ronize
   
O guardador das águas
 
Do corpo queimado de Francelmo nasceu um novo Brasil obstinado em germinar novas vozes, mais fortes e mais vivas do que a própria morte. Para apagar esse fogo do corpo queimado de Francisco Ancelmo Gomes de Barros, todas as águas do Pantanal não foram, nem serão suficientes. Com seu gesto, parafraseando Manoel de Barros, “choveu futuro”. Ao atravessar um dos seus tão conhecidos corixos pela mão de um Caronte pantaneiro, ele inundou o Brasil de um fervor que somente um herói morto pode gerar dando um significado à sua própria morte para que outros pudessem sobreviver. Manuel de Barros, ainda, diria que Francelmo era um “guardador de águas”. “ Os grandes mortos são imortais, não morrem nunca” escreveu Nicolas Guillén, outro poeta, falando de um dos inúmeros sacrificados pela violência. A um morto não se pode exigir silêncio, ele brada das profundezas do insondável a sua mensagem cotidiana, ultrapassando os limites do tempo e das gerações. Cabe à sociedade interpretar esse grito. O herói popular morre de universo, numa frenética harmonia, disse ainda outro poeta, César Vallejo. Apesar de “Anselmo” significar “estar protegido por Deus” ele, o Ancelmo pantaneiro, ao ser esquecido por Ele, transformou-se no “passado obscuro dessas águas”, ainda parafraseando Barros. Essa morte traz duras lembranças, a do Chico Mendes, claro, que fora abatido entre as seringas acreanas; a do Dionísio Ribeiro que, ao defender os palmitos da Mata Atlântica fluminense, também tombou no estendal da água. Chico e Dionísio morreram a chumbo, Francelmo a álcool inflamado. Ó absconsos ardores! se diz no “Guardador das Águas”, e nunca foi tão verdadeira essa acertiva para definir o sacrifício extremo como catalisador de ações e de mensagens emblemáticas para continuar a luta pela defesa do espaço natural. A lista de nomes ambientalistas ameaçados de morte é longa, começando por Mário Moscatelli, o guardião dos manguezais; Miriam Prochnow, a madrinha dos afetados pelas barragens das hidroelétricas; Ivan de Marchi, o botânico cuidador de bromélias; Maurício Melato Barth, que recebeu nas pernas o impacto de várias balas ao defender uma praia catarinense; Norberto Hess, que teve os braços quebrados ao fotografar na Bahia o corte ilegal de madeira; Rodrigo Agostinho, também amante das bromélias de Bauru; Lisiane Becker e Rogério Mongelos, pesquisadores de Unidades de Conservação no Rio Grande do Sul, também receberam o ultimato por conferir o grau de desmatamento realizado numa RPPN e muitos outros nomes que poderiam preencher folhas e folhas, não de árvores, mas de papel, de papel feito de celulose. Dias aziagos em que a celebração é a morte. A morte universal, já que o mundo também lembra nestes dias o décimo aniversário do ambientalista Ken Saro-Wiwa, assassinado por sua luta contra a exploração de petróleo pela Shell na Nigéria. Tristes dias infaustos, estes em que temos que concordar com Manuel de Barros: “Uburus se ajoelham pra ele”.
Gaia Viverá!
Lúcia Chayb e René Capriles







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