Revista ECO•21

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Editorial

Edição 269
Abril 2019
 

Capa: "Mudanças climáticas", escultura do artista italiano Lorenzo Quinn feita para a Bienal de Veneza de 2017 no Grande Canal de Veneza. Foto: Kris Munro

   
  Brasil, mudanças climáticas e Alice no País das Maravilhas
  Carlos Nobre
   
  A política ambiental brasileira vive um momento grave
  José Carlos Carvalho
   
  A Destruição da Gestão Ambiental Federal e os ataques aos servidores
  ASCEMA Nacional
   
  Dia Internacional da Diversidade Biológica 2019
  Cristiana Pasca Palmer
   
  O Acordo de Escazú: uma conquista ambiental para a América Latina
  Alicia Bárcena
   
  O poder moral dos jovens desafia o poder corporativo e a crise climática
  Ralph Nader
   
  Se o nosso planeta tem um futuro é graças a Greta Thunberg
  Natasha Hakimi Zapata
   
  Plataforma da ONU para mapear áreas de preservação ambiental completa 60 anos
  Emily Neville
   
  Mudanças do clima e o setor privado
  Rodolfo Sirol e Luiz Carlos Xavier
   
  O Presidente do Chile, Sebastián Piñera, lança a COP-25 em Santiago
  Rudá Capriles
   
  Cúpula das Cidades pede abordagem integrada para infraestrutura urbana
  Tara Ayuk
   
  ONU alerta contra impactos ambientais da dessalinização para fornecimento de água doce
  Flora Pereira
   
  CETESB: 10 anos do Centro Regional sobre Poluentes Orgânicos Persistentes
  Adriano Nogueira
   
  Imazon divulga dados do desmatamento na Amazônia em fevereiro de 2019
  Stefânia Costa
   
  Em nome de que enterramos nossos rios?
  Maria Paula Fernandes
   
  Economia circular a favor da conservação do solo
  Mariana Franceschinelli
   
  E o vento levou (e leva) os microplásticos
  Andrea Thompson
   
  O colapso global de insetos deve acelerar
  Aleksandar Rankovic
   
  Uma praga submarina está destruindo uma das principais espécies oceânicas
  Alex Fox
   
  Os animais podem prever o tempo?
  Ragnvald Moberg
   
  O caminho para um sistema energético 100% renovável até 2050
  Doreen Rietentiet
   
  O segredo financeiro por trás da Revolução Energética Verde da Alemanha
  Ellen Brown
   
  Por que as promessas verdes não criarão as florestas naturais que precisamos
  Fred Pearce
   
  Estamos em uma situação de emergência planetária
  Herton Escobar
   
Eventos extremos acontecem na política e no clima
 

Cientistas climáticos focados no aquecimento dos polos revelaram que tanto o Continente Antártico quanto o Ártico estão aquecendo muito mais rápido do que previsto e que as temperaturas do ar acima do normal estão gerando, e continuarão a gerar, maciçamente, impactos negativos em todo o mundo. Eles afirmam que as descobertas significam problemas para o Planeta todo se manifestando com grandes incêndios, inundações extraordinárias, furacões com ventos mais de 180 km/hora. Estes eventos extremos estão acontecendo cada vez mais frequentemente tanto nos países ricos quanto nos menos desenvolvidos. Mas, no caso do Brasil, esses eventos extremos também contaminaram a política. Mudanças radicais estão acontecendo de forma vertiginosa no Ministério do Meio Ambiente que hoje registra um processo planejado de desconstrução de uma arquitetura baseada na preservação iniciada no Governo Geisel, em 1973, com o biólogo Paulo Nogueira Neto e continuada pelos Ministros que o sucederam. Em 1º de Janeiro deste ano, graças ao voto anti-PT aconteceu o advento de Jair Messias Bolsonaro e com ele a nomeação de Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente.. Salles é um advogado e político diretamente ligado ao agronegócio; teve problemas judicias na sua controvertida passagem pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo durante o Governo Alckmin. Hoje, à frente do MMA, segue a mesma linha, defende desmatadores, mineradoras e garimpeiros. Segundo o IMAZON, o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) detectou um aumento de 384 km² de desmatamento na Amazônia Legal entre Agosto de 2018 e Março de 2019 em relação ao período anterior. O número representa um aumento de 24% na destruição das florestas. A maioria (58%) ocorreu em áreas privadas ou em diversos estágios de posse. Ricardo Salles nunca tinha posto os pés na Amazônia e quando se tornou Ministro quis começar visitando uma plantação ilegal de soja dentro da Terra Indígena Utiariti, no Mato Grosso. Sete meses antes da visita, ocorrida em Fevereiro, o IBAMA foi para lá por um motivo totalmente diferente. Eles embargaram 22 mil hectares de plantação de soja transgênica. De acordo com a legislação nacional é ilegal cultivar OGMs dentro de áreas protegidas. A plantação também estava em desacordo com a Constituição, que proíbe que qualquer pessoa, exceto indígenas, trabalhe em terras demarcadas como TI. Bolsonaro quer legalizar tudo isso. Membros do governo defendem que as Terras Indígenas deveriam ser abertas a agricultores e mineradores. São eventos extremos que o Brasil da Era Bolsonaro está gerando para alterar de forma radical a morfologia do movimento ambiental brasileiro. Essa visão destrutiva das leis que protegem o meio ambiente tem a sua origem no Governo Trump quando nomeou para chefe da EPA, a agência ambiental dos EUA, o negacionista Scott Pruitt o advogado e lobista que desmantelou a sólida legislação ambiental do país. Tanto Pruitt quanto Trump cancelaram as leis que protegiam famosos parques nacionais, as reservas naturais permitindo a exploração de petróleo num santuário do mar do Alasca, além de incentivar o uso de agrotóxicos proibidos pela FDA, a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA. Esses exemplos foram seguidos, no Brasil, tanto pelo MMA quanto pelo Ministério da Agricultura. Segundo John Scales Avery, químico quântico da Universidade de Copenhague “o problema central que o mundo enfrenta em seus esforços para evitar uma mudança climática catastrófica é o contraste das escalas de tempo. No entanto, o IPCC, em seu relatório de Outubro de 2018, usou uma linguagem forte o suficiente para acordar, pelo menos, parte do público: os jovens, cujo futuro está em jogo”. E acrescenta: “As ações urgentes necessárias para evitar uma mudança climática catastrófica implicam mudanças no estilo de vida, mas não nos tornaremos necessariamente menos felizes. Nós gostamos de ficar em engarrafamentos? Ainda podemos ser felizes quando o uso de automóveis (exceto quando absolutamente necessário) for substituído por bicicletas e transporte público”. Clima e justiça social obrigatoriamente devem ser abordados simultaneamente. Hoje existem bons exemplos, como os dos países escandinavos que, com suas políticas de energia renovável, demonstram que a emergência climática pode ser enfrentada ao mesmo tempo em que se reduz a desigualdade econômica e se fornecem segurança social, assistência médica e educação gratuitas. O aumento das greves escolares pelo clima e as passeatas de grupos de jovens, como o movimento Sunrise, demonstra que a nova geração está cada vez mais preocupada e participativa em relação à mudança climática. Os negacionistas do clima continuam a diminuir nos EUA, segundo pesquisas da Universidade de Yale, na medida em que os seus filhos os convencem sobre a gravidade da atual crise ambiental e demonstram preocupação com o mundo que receberão. Já no Brasil, a cegueira ambiental parece norma a ser seguida no MMA. Por isso tudo, escolhemos para capa desta edição, a simbólica instalação que Lorenzo Quinn fez no Grande Canal de Veneza.

Gaia Viverá!

Lúcia Chayb e René Capriles

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