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Os primeiros sinais de uma grave crise alimentar mundial já foram dados por diversos países. O Brasil também registra uma vertiginosa subida dos preços do trigo, do feijão, do leite e, nos dois últimos meses, do arroz. Os EUA já estão racionando o arroz e a Argentina, o trigo. Segundo o recente informe “Perspectivas das colheitas e da situação alimentar”, elaborado pela FAO, as previsões para este ano não são nada animadoras: a conta das importações aumentará pelo menos 56%. Para dar uma resposta a essa situação, a FAO lançou o programa “Iniciativa sobre o aumento dos preços dos alimentos” oferecendo ajuda técnica e de política pública aos países mais pobres e que estão sendo duramente afetados pela subida dos preços. O Programa Mundial de Alimentos também manifestou a sua preocupação, porque se seguir essa tendência, o universo de pessoas sem alimento aumentará em alguns milhões. Egito, Camarões, Indonésia, Haiti, Paquistão e Tailândia, entre outros, registraram manifestações que tiveram como resposta uma ação policial-militar. Hoje são 37 os países que sofrem uma severa crise alimentar. Henri Josserand, executivo do Sistema Mundial de Informação da FAO, esclareceu que “a despesa com alimentos nos países industrializados representa entre 10 e 20% do seu orçamento; já nos países em desenvolvimento ela pode chegar até 80%”. A FAO adverte ainda que as reservas mundiais de cereais atingirão, até o final de 2008, o seu nível mais baixo nos últimos 25 anos. Miguel Altieri, membro da Sociedade Científica Latino-Americana de Agroecologia afirma que “a agricultura mundial está numa encruzilhada. A economia global impõe demandas conflitantes sobre os 1,5 bilhão de hectares cultivados. Não só se pede à terra agrícola que produza alimento suficiente para uma população crescente, mas também que produza biocombustíveis, e que faça isso de um modo que seja saudável para o meio ambiente, preservando a biodiversidade e diminuindo a emissão de Gases de Efeito Estufa, e que, ainda, seja uma atividade economicamente viável para os agricultores”. Ao analisar a importância da questão da fome hoje, ela se revela de forma muito diferente da estudada por Josué de Castro na sua “Geografia da Fome”. Altieri afirma: “a crise que ameaça a segurança alimentar de milhões de pessoas é o resultado direto do modelo industrial de agricultura, que não só é perigosamente dependente de hidrocarbonetos, mas tem se tornado, ainda, a maior força antrópica modificadora da biosfera. As crescentes pressões sobre a área agrícola estão minando a capacidade da natureza de suprir as demandas da humanidade quanto a alimentos, fibras e energia. A tragédia é que a população humana depende dos serviços ecológicos (ciclos de água, polinizadores, solos férteis, clima local, etc.) que a agricultura intensiva continuamente empurra para além de seus limites”. Uma das respostas a essa realidade é o incentivo à agricultura familiar. Segundo Vicente Puhl, da FASE-MT, “o incremento nos agrocombustíveis ainda não é o problema, mas pode agravar a situação da escassez dos alimentos; o maior problema é que o negócio agroalimentar está nas mãos de 15 transnacionais, como a Bunge, Monsanto, Cargill e ADM, que tornam os agricultores dependentes”. Os movimentos de trabalhadores da terra organizados, da França, do Brasil ou da Índia, para citar alguns países, afirmam que a solução se encontra no fortalecimento da agricultura familiar. Altieri adverte que “a escala e urgência do desafio que a Humanidade enfrenta é sem precedentes e o que é preciso fazer é ambiental, social e politicamente possível”. Erradicar a fome mundial requer um investimento anual de R$ 150 bilhões; um valor pequeno se comparado com o orçamento militar do G8, que supera o trilhão de dólares anual. A crise alimentar é uma séria advertência. Medidas urgentes devem ser adotadas antes que a fome se transforme num desastre irreversível.
Gaia viverá!
René Capriles e Lúcia Chayb
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