Revista ECO•21

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Editorial

Edição 243
Fevereiro 2017
 

Capa: Açude do Cedro, no Ceará, com seu reservatório seco Foto: Hugo Fernandes Ferreira

   
  Ministro Sarney Filho define estratégias para 2017
  Lucas Tolentino
   
  Brasil inicia debates para o 8º Fórum Mundial da Água
  Claudia Dianni
   
  Rússia e EUA poderão ser parceiros na inação climática
  Neela Banerjee
   
  Negócios sustentáveis gerarão 380 milhões de empregos
  Clare Oh
   
  Matemática antropocênica na era Trump
  Nika Knight
   
  Um maciço iceberg está pronto para fratura na Antártida
  Alexandra Malloy
   
  Corais da Amazônia: as primeiras imagens de um novo mundo
  Thais Herrero
   
  Brasil tem 95% dos municípios vulneráveis às mudanças climáticas
  Júlio Ottoboni
   
  Segue o seco
  Alexandre Araújo Costa
   
  Dória, Alckmin, e as enchentes
  Álvaro Rodrigues dos Santos
   
  Ministério do Meio Ambiente destinará R$ 23 milhões para nascentes
  Renata Meliga
   
  BIOTA embasa norma para restauração ambiental em São Paulo
  Karina Toledo
   
  Melhora na coleta de esgoto, mas apenas 42% são tratados
  Nielmar de Oliveira
   
  Ação humana contamina áreas intocadas do fundo do mar
  Geoffrey Carr
   
  Lista Vermelha de peixes ameaçados entra em vigor
  Warner Bento Filho
   
  Política externa de empresas multinacionais?
  José Monserrat Filho
   
  O Rio Juruena está contaminado
  Dafne Spolti
   
  Gigantes do agronegócio: o risco das fusões para a agroecologia
  Alan Tygel
   
  Cidades dos sonhos
  Rosa Alegria
   
  Terras indígenas têm 80% da biodiversidade
  Baher Kamal
   
  Tribunal Penal Internacional reconhece ecocídio como crime contra a Humanidade
  Denise Griesinger
   
  Planeta doente, Terra cansada
  Marcus Eduardo de Oliveira
   
Um carnaval de monstros que roubam a floresta e poluem os rios
 

O samba-enredo de 2017 da Imperatriz Leopoldinense narra uma história titulada “Xingu - O Clamor Que Vem da Floresta”. Nos seus inspirados versos a natureza violentada se expressa em todo esplendor e manifesta seu protesto pelo envenenamento da floresta: “O paraíso fez aqui o seu lugar / Jardim sagrado, o caraíba descobriu / Sangra o coração do meu Brasil / O belo monstro rouba as terras dos seus filhos / Devora as matas e seca os rios / Tanta riqueza que a cobiça destruiu!” A Imperatriz fala não só de Belo Monte como da destruição promovida pelo agronegócio. Esse festivo protesto está de acordo com o rio cantado pela Portela que chamou seu samba-enredo “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar…”. Todo mundo lembra a morte do Rio Doce. Um verso do samba da Portela diz: “Vem beber dessa fonte / Onde nascem poemas em mananciais”. E mais na frente se ouve: “Cantam pastoras e lavadeiras pra esquecer a dor / Tristeza foi embora, a correnteza levou / Já não dá mais pra voltar / Deixa o pranto curar / Vai inspiração, voa em liberdade / Pelas curvas da saudade”. Ambas as escolas falam de um mundo destruído pela ambição. Mas, este momento político não se resume só ao Brasil. Há uma ofensiva da ultradireita mundial em grande parte do Planeta. Recentemente, o Papa Francisco apoiou os povos nativos dos EUA que buscam impedir a construção do oleoduto Dakota Access, afirmando que as culturas indígenas têm o direito de defender “a relação ancestral deles com a terra”. O Papa defendeu incisivamente os direitos indígenas e falou sobre a proteção das terras dos povos nativos no Fórum dos Povos Indígenas. Já o Presidente Trump assinou um Decreto autorizando a continuidade do oleoduto que passa por terras dos índios Dakota. A tribo Sioux, cuja reserva está a 800 metros à jusante do cruzamento, diz que o oleoduto ameaça seu abastecimento de água e locais sagrados. Sua oposição desencadeou grandes protestos. A revisão de impacto ambiental iniciada pelo Corpo de Engenheiros do Exército nos últimos dias da Administração Obama atrasaria o projeto por anos. Um decreto do Presidente Trump solicitou aos engenheiros do exército cancelar a aprovação. "Esta luta contra o Oleoduto Dakota Access tornou-se uma luta nacional, uma luta internacional. Estamos focados na nossa campanha de desinvestimento, queremos aumentar a consciência política e social deste gasoduto e seus impactos", disse o cacique Dente de Ouro. A luta para preservar a natureza não é só dos povos nativos, ela faz parte de uma luta global. Os Inuit, que habitam as regiões árticas do Canadá, Alasca e da Groenlândia, lutam para evitar a exploração do petróleo. A escolha de Rex Tillerson como Secretário de Estado dos EUA, ex CEO da Exxon, a maior empresa petroleira do mundo, revela quais são as intenções geoestratégicas de Trump. Trata-se de uma geopolítica centrada na expansão das relações com o setor energético russo. Exemplo disso é o Decreto de 24/1 acelerando a aprovação do Keystone XL. De propriedade da TransCanada, este oleoduto de areias betuminosas foi interrompido por Obama em 2015. Nesse clima da retomada do poder pelo lobby das energias fósseis, especialmente pelos irmãos Koch, assistimos ao avanço da ultradireita na Europa. Theresa May, negacionista do clima, assim que assumiu como Primeira Ministra do Reino Unido fechou o Departamento de Energia e Mudanças Climáticas. Na França, a candidata da Frente Nacional, Marine Le Penn, quer seguir o exemplo do Brexit, desligar a França da União Europeia e acabar com os projetos de energias renováveis além de incentivar as usinas nucleares. No Brasil temos a ofensiva do agronegócio que acabará com o Cerrado e os mananciais do Centro-Oeste. Por isso o samba-enredo da Imperatriz é uma advertência a seguir: “Salve o verde do Xingu, a esperança / A semente do amanhã, herança / O clamor da natureza / A nossa voz vai ecoar. Preservar!”. Os ruralistas, que censuraram este samba-enredo, querem condenar judicialmente a verdade do sentimento popular.

Gaia Viverá!

Lúcia Chayb e René Capriles








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