Revista ECO•21

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Editorial

Edição 240
Novembro 2016
 

Capa: O Grito do Clima (d´après Edvard Munch) pintura feita para a COP-22 Arte: Azmaa Omassou

   
  Discurso do Ministro José Sarney Filho na COP 22
  Sarney Filho
   
  Brasil faz avaliação preliminar da COP 22
  José Antônio Marcondes
   
  A COP-22 deve reconhecer os riscos da mudança climática
  Bartolomeu I
   
  O Acordo de Paris é uma rota clara para a sobrevivência
  Papa Francisco
   
  Adaptação climática é uma necessidade na África
  Friday Phiri
   
  Governos nacionais querem ação climática rápida e eficaz
  Rhys Gerholdt
   
  Entrevista com Carlos Rittl
  Carolina de Barros e Alexandre Gonçalves Jr
   
  Limitar o aquecimento global em 1,5°C grau melhora crescimento
  Sarah Bel
   
  Clima: acordos não faltam, faltam apenas soluções
  Washington Novaes
   
  Hoje é um dia para o mundo celebrar o Acordo de Paris
  Jim Yong Kim
   
  EUA fora do Acordo de Paris trará danos incalculáveis
  Nathália Clark
   
  Caos climático, verdade ou consequência?
  Silvia Ribeiro
   
  A falácia do capital natural
  Bram Büscher e Robert Fletcher
   
  Antropoceno: uma nova era
  Liszt Vieira
   
  Um momento de virada mundial
  Marina Grossi
   
  2016 quebrará todos os recordes de temperatura
  Clare Nullis
   
  SIG: uma ferramenta para conservar a biodiversidade
  Alexandre Uezu
   
  Antártida terá maior reserva de conservação marinha do planeta
  Sabrina Craide
   
  A verdadeira guerra é contra a Mãe Terra
  Vandana Shiva
   
  Carros do Século 21
  Ricardo Abramovay
   
  Tudo pronto para a guerra no espaço?
  José Monserrat Filho
   
  Salmão consumido no Brasil é prejudicial à saúde
  João Ferrer, Oceana e Warner Filho
   
  Supermercados do Brasil contra a carne de desmatamento
  Jéssika Oliveira
   
  A COP procedimental
  Alfredo Sirkis
   
Graças a Trump a COP-22 saiu melhor do que encomenda
 

No dia da abertura da COP-22 da Convenção sobre Mudanças Climáticas em Marrakesh, na segunda feira 7 de Novembro, delegados de 196 países comemoraram a entrada em vigor do Acordo de Paris que acontecera 3 dias antes, em 4 de Novembro. Onze meses depois daquela histórica noite de 12/12 de 2015 na capital francesa o Acordo de Paris tornou-se uma Lei do Direito Internacional marcando o início de uma nova era na política de mudanças climáticas globais.
Pouco mais de 48 horas depois, a sombra de Donald Trump como Presidente eleito dos EUA caiu sobre a “Cidade Ocre” marroquina, como uma tormenta de areia. O futuro homem mais poderoso do mundo seria um obstáculo por sua promessa de abandonar o Acordo de Paris. Negacionista ferrenho, ele disse na sua campanha eleitoral que a mudança climática era uma farsa chinesa. Ao que o vice-Ministro das Relações Exteriores da China, Liu Zhenmin, respondeu “se for estudada a história das negociações sobre as mudanças climáticas, elas na realidade foram iniciadas com base nos informes do IPCC, com apoio dos republicanos, durante os governos Reagan e Bush (pai), no final de 1980”. A atitude de Trump motivou ainda mais os chineses que decidiram assumir uma liderança moral no movimento mundial pela descarbonização.
Na visão brasileira da COP-22, o Observatório do Clima (OC) definiu o fim dos trabalhos com estas palavras: “A COP-22 termina cumprindo seu objetivo de entregar uma agenda de trabalho para os próximos anos, e marcando 2018 como a data de finalização do ‘Manual de Instruções’ do Acordo de Paris. A lição de Marrakesh é que, cada vez mais, o debate climático se afasta das salas fechadas das negociações das conferências internacionais e se instala no mundo real, nas empresas, sociedade civil, muito além dos governos. Em Marrakesh, as COPs podem ter começado a sair da ribalta para dar lugar à ação”.
Tida como uma reunião de implementação, a COP-22 tornou-se rapidamente um espaço de contenção dos danos gerados pelo choque da vitória de Trump. Em clima de euforia, Marrakesh ouviu durante a COP muitas vozes positivas. Patricia Espinosa, Secretaria-Executiva da Convenção sobre Mudanças Climáticas, considerou que a COP-22 se tratava de um ponto de inflexão na história dos esforços coletivos da humanidade. Por sua vez o Presidente da COP-22, Salaheddine Mezouar, destacou que a data seria lembrada como um momento no qual o mundo “começou com firmeza a caminhar para um futuro sustentável”. Mas, nem tudo foram flores, o informe da Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2016 atingiu o recorde de concentração de CO2 após superar as 400 partes por milhão. “Com isso, o mundo está longe do objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global abaixo dos 2°C”, advertiram Espinosa e Mezouar.
“Para o Brasil, está na hora de implementar Paris a sério dentro de casa”, disse André Ferretti, do OC. “Isso inclui evitar retrocessos como a volta do carvão, ir muito além dos compromissos e entender que cortar emissões faz bem à economia. Desmatamento Zero, eficiência energética, 100% de crédito agrícola para sistemas produtivos eficientes, bioenergia e construção de cidades resilientes não são apenas a coisa certa a fazer pelo clima: são também instrumentos de desenvolvimento, geração de empregos e promoção de qualidade de vida”.
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que as decisões aprovadas no Marrocos reafirmam o apoio mundial ao Acordo de Paris. “Nenhum país, sem importar tamanho ou poder, está imune aos impactos das mudanças climáticas e ninguém pode responder a esse desafio sozinho”.
Na véspera do encerramento da COP-22, Ségolène Royal, Ministra do Meio Ambiente da França e Presidente da COP-21 durante quase um ano após o encontro de Paris, se mostrava muito otimista sobre o resultado alcançado e a atitude da grande maioria dos países face ao enigma Trump, ela disse: “A COP-22 foi mais do que a COP da ação; é a COP da confiança, da determinação e da irreversibilidade”. Por sua vez, o recém-nomeado Secretário-Executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis, escreve; “Boa parte das questões tratadas na COP-22 vai sobrar para 2017, que promete ser não menos “procedimental” – a não ser que algo grave ocorra, o que é perfeitamente possível na medida em que ninguém sabe, de fato, o que Donald Trump vai fazer após assumir a Presidência dos EUA. As especulações vão de ‘nada’ até sair da Convenção sobre o Clima”.
O New York Times, no dia 9 de novembro, comparou a vitória de Trump com o 18 Brumário de 1799 (data que no calendário revolucionário francês equivale ao 9/11 do atual calendário, data do golpe de estado proferido por Napoleão Bonaparte contra o governo revolucionário, reorientando a história do mundo). Mas, Donald Trump não é Napoleão, e Marrakesh demonstrou que o mundo está cada vez mais coeso na luta contra as mudanças climáticas. Na verdade, o “Efeito Trump” foi o estopim para levar a sério o que o jesuíta e paleontólogo Teilhard de Chardin descreveu nos anos 50 como uma crise orgânica da evolução de nossa espécie. Se for isso que o que está acontecendo nos Estados Unidos, estamos, então, assistindo à gestação de uma forma de pensamento social que pode se estender entre os partidários do negacionismo mundial estimulando uma visão antiecológica da história. Por isso Trump foi importante na COP-22.

Gaia Viverá!

Lúcia Chayb e René Capriles


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