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Edição 105
Eletrointensivos gastam 30% da energia do País
Erik von Farfan
Jornalista
 
Um estudo da Universidade de São Paulo projeta para os próximos anos expansão dos setores em que a energia elétrica tem grande peso no processo de produção


Leve e relativamente resistente, o alumínio é um metal muito utilizado pela indústria, mas com uma característica geralmente ignorada pelos consumidores: seus fabricantes fazem parte do restrito grupo dos eletrointensivos. O termo é usado para designar setores em que a energia elétrica tem grande peso no processo de produção, como acontece no caso do cimento, do papel, do zinco e do níquel. Segundo o Ministério de Minas e Energia, os eletrointensivos somam 408 empresas, que absorvem 28,8% de toda a energia consumida no País. No Brasil, o consumo residencial corresponde a 22,6% do consumo total e o setor industrial representa 46,2%.
Só para se ter uma idéia do quanto a eletricidade é importante para a indústria de alumínio, a produção de uma tonelada do metal consome 14 mil quilowatts-hora (kWh), enquanto uma casa de classe média consome 70 vezes menos (cerca de 200 kWh por mês). As indústrias de ferro-gusa e aço, ferro-ligas, metais não-ferrosos, química e celulose também são classificados como eletrointensivas.
O alto consumo das empresas eletrointensivas é, naturalmente, uma fonte de recursos para as companhias do setor elétrico. A Eletronorte, por exemplo, assinou em 2004 contratos com a Albras (no Pará) e a Alumar (no Maranhão), num valor total de quase R$ 20 bilhões. A empresa assumiu a responsabilidade de fornecer energia firme e confiável durante 20 anos. Segundo técnicos da Eletronorte – empresa controlada do Grupo Eletrobrás – “o Brasil ficou engrandecido no mercado mundial.
Nos contratos assinados pela Eletronorte, ficou acertado que a energia para a Albras (750 megawatts, em média) e a Alumar (800 MW) virá da hidrelétrica de Tucuruí, cuja potência está sendo ampliada para gerar 8.370 MW até o fim de 2006. A venda de energia gerada pela primeira etapa de Tucuruí já está assegurada. Agora, o desafio da empresa é o de se concentrar nos novos leilões previstos para assegurar a venda de energia nova. Esta expectativa se refere ao sistema de leilões de energia adotado a partir da entrada em vigor do novo modelo para o setor elétrico.
Em Junho passado, na época da assinatura do contrato entre a Eletronorte e o consórcio Alumar (formado por Alcoa, Alcan, Abalco e BHPBillinton), o então presidente da Alcoa para a América Latina, Josmar Verillo, elogiou o acordo, considerado por ele como um exemplo da confiabilidade do marco regulatório do setor elétrico brasileiro.
A Alumar anunciou recentemente a intenção da empresa de investir no Brasil. Além do investimento de US$ 1,4 bilhão (R$ 3,7 bilhões) anunciado para os próximos quatro anos, o consórcio está em início de conversação com o governo para a construção de uma nova usina de alumínio no país, que exigiria recursos de US$ 3,2 bilhões (R$ 8,6 bilhões).
Segundo estimativas da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), nos próximos cinco anos, 30% da geração de novas hidrelétricas já licitadas mas que ainda não entraram em operação serão destinados aos eletrointensivos. A tendência, segundo um estudo do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), é de que o apetite dos eletrointensivos cresça ainda mais a médio prazo. Para o próximo ano, a estimativa é de que essas indústrias consumam 75,8 mil megawatts-hora (MWh). Em 2010, a previsão é de uma ampliação no consumo de quase 20%, em relação a 2005.
O estudo da USP indica ainda que, com aumento nos investimentos e mudanças na carga tributária, a indústria de eletrointensivos pode assegurar seu próprio suprimento de energia elétrica por meio da autoprodução (geração de energia para consumo próprio). “Esse setor (de autoprodução) tem um potencial incrível, mas precisa de incentivos para crescer”, avalia Paulo Ludmer, Diretor-Executivo da ABRACE.
Apesar dos investimentos em autoprodução, os eletrointensivos ainda são dependentes da energia fornecida por grandes geradoras. A indústria do alumínio, por exemplo, tem apenas 12,7% da sua produção escorada em unidades próprias de geração de energia. No segmento de fabricantes de estanho, o percentual sobe para 86,9%. Já entre os produtores de zinco e níquel-cobalto a autoprodução alcança níveis de 76,3% e 29,2%, respectivamente.
Professor do Programa de Pós-Graduação em energia da USP e coordenador do estudo, Célio Bermann explica que, nos últimos quinze anos, a produção brasileira no setor eletrointensivo praticamente dobrou como conseqüência de uma política industrial de apoio e incentivo a esta forma de inserção no mercado internacional. “Com o aumento, nos últimos anos, das exportações de bens primários de baixo valor agregado, a indústria de eletrointensivos cresceu nos cenários nacional e internacional. Apenas o setor de ferro-ligas manteve a escala de produção”, ressalta Bermann.
O estudo da USP mostra também que, considerando as previsões de consumo de energia elétrica dos setores eletrointensivos, a indústria do ramo está empenhada num processo expressivo de aumento da escala de produção. “Isso torna crucial a questão do suprimento de energia elétrica necessário para atender a esta crescente demanda. A previsão é de ampliação no consumo, o setor tende a crescer cada vez mais”, diz Bermann.
O professor explica que é o dinheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que está sendo usado para assegurar a viabilização dos empreendimentos energéticos conduzidos pelos setores eletrointensivos. Bermann lembra que há poucos bancos comerciais no Brasil dispostos a financiar essa área. “Por isso, ainda é difícil a autoprodução. São fundos públicos e 25% dos recursos do BNDES tem origem no FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador – e são oferecidos em condições vantajosas para os tomadores de empréstimos”, explica.
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