Revista ECO•21

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Edição 110
O fim do petróleo exige nova ordem econômica
Hugo Chávez
Presidente da República Bolivariana da Venezuela
 
Cinco anos depois da Cúpula do Milênio, a crua realidade é que a grande maioria dos objetivos propostos, apesar de já serem modestíssimos, não serão alcançados. Se pretendia com eles, até ao ano 2015, reduzir para metade os 842 milhões de famintos. Ao ritmo atual, essa meta só será alcançada no ano 2215. Veremos quem de nós estará aqui para celebrar, se é que a espécie humana conseguirá sobreviver à destruição que ameaça o ambiente.
Também aspiramos alcançar em 2015 o ensino primário universal; ao ritmo atual, ele será uma realidade depois do ano 2100. Isto, amigas e amigos do mundo, nos leva, de modo irreversível, para uma amarga conclusão: as Nações Unidas esgotaram o seu modelo, e não se trata simplesmente de proceder a uma reforma, o Século 21 reclama mudanças profundas que só serão possíveis com uma refundação desta organização.
As transformações do mundo a que a Venezuela se refere têm, do nosso ponto de vista, dois tempos: o imediato e o dos sonhos, da utopia; o primeiro está marcado pelos acordos coerentes com o velho esquema, não o afastamos e, inclusivamente, trazemos propostas concretas para o curto prazo, dentro desse modelo.
Mas o sonho da paz mundial, o sonho de ninguém se envergonhar pela fome, pela doença, pelo analfabetismo, pela necessidade extrema, necessita, “além de raízes”, de asas para voar.
Necessitamos de asas para voar, sabemos que há uma globalização neoliberal aterradora, mas também existe um mundo interdependente que temos que enfrentar, não como um problema, mas como um desafio. Podemos, sobre a base das realidades nacionais, trocar conhecimentos, complementarmo-nos, integrar mercados, mas ao mesmo tempo, devemos compreender que há problemas que já não têm solução nacional: nem uma nuvem radiativa, nem os preços mundiais, nem uma pandemia, nem o aquecimento do Planeta, nem o buraco na camada de ozônio são problemas de âmbito nacional.
Enfrentamos hoje uma crise energética sem precedentes no mundo, em que se combinam perigosamente um imparável incremento do consumo energético, a incapacidade de aumentar a oferta de hidrocarbonetos e a perspectiva de um declínio das reservas provadas de combustíveis fósseis. Começa a esgotar-se o petróleo.
Para 2020 a procura diária de petróleo será de 120 milhões de barris, com o que, sem ter em conta futuros crescimentos, se consumiria em 20 anos um volume idêntico a todo o petróleo consumido pela humanidade até o momento, o que significará, inevitavelmente, um aumento das emissões de dióxido de carbono que, como se sabe incrementa diariamente a temperatura do nosso Planeta.
O Katrina foi um doloroso exemplo das conseqüências que pode trazer ao Homem ignorar estas realidades. O aquecimento dos oceanos é, por sua vez, o fator fundamental por trás do demolidor incremento da força dos furacões que temos visto nos últimos anos. Aproveito a ocasião para transmitir, uma vez mais, a nossa dor e o nosso pesar ao povo dos Estados Unidos, que é também um povo irmão dos povos da América e dos povos do mundo.
É prática e eticamente inadmissível sacrificar a espécie humana, invocando de forma demencial a vigência de um modelo socioeconômico com uma galopante capacidade destrutiva. É suicida insistir em disseminá-lo e impô-lo como remédio infalível para os males, dos quais é o principal responsável.
Há pouco tempo, o Presidente dos EUA, numa reunião da OEA, propôs à América Latina e ao Caribe incrementar as políticas de abertura do mercado, quer dizer: o neoliberalismo, quando essa é precisamente a causa fundamental dos grandes males e das grandes tragédias que vivem os nossos povos: o capitalismo neoliberal, o Consenso de Washington, que provocou o maior nível de miséria, de desigualdade e uma tragédia infinita aos povos deste continente. Agora, mais do que nunca, necessitamos de uma nova ordem internacional.
Eu creio que um dos povos que requer proteção é o dos Estados Unidos, como foi agora dolorosamente demonstrado com o Katrina. Não há governo que proteja seu povo dos desastres naturais anunciados. São conceitos muito perigosos, os que o imperialismo vai delineando, caracterizado pelo intervencionismo, e impondo o desrespeito pela soberania dos povos. O pleno respeito pelos princípios do Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas devem constituir a pedra angular das relações internacionais no mundo de hoje e ser a base da nova ordem que propugnamos.
Aqui, desejo uma vez mais, lembrar Simón Bolívar, o nosso Libertador, quando fala da integração do mundo, do Parlamento Mundial, de um Congresso de parlamentares; é necessário retomar muitas propostas como a bolivariana.
Dizia Simón Bolívar na Jamaica em 1815, na sua Carta da Jamaica que já citei: “Que belo seria que o Istmo do Panamá fosse para nós o que o de Corinto é para os gregos, oxalá algum dia tenhamos a fortuna de instalar ali um augusto congresso dos representantes das repúblicas e dos reinos, a tratar dos altos interesses da paz e da guerra, com as nações das outras três partes do mundo. Esta espécie de corporação poderá ter lugar nalguma época ditosa da nossa regeneração”.
Urge enfrentar de modo eficaz, certamente, o terrorismo internacional, mas não o usando como pretexto para desencadear agressões militares injustificadas e violadoras do Direito Internacional, como se entronizou depois do 11 de Setembro. Só uma estreita e verdadeira cooperação, e o fim dos dois pesos e duas medidas que alguns países do Norte aplicam na questão do terrorismo poderá acabar este horrível flagelo.
Em apenas sete anos de Revolução Bolivariana, o povo venezuelano pode exibir importantes conquistas sociais e econômicas.
Um milhão e 406 mil venezuelanos aprenderam a ler e a escrever em ano e meio, nós somos aproximadamente 25 milhões e, em escassas semanas, dentro de poucos dias, o país pode declarar-se livre do analfabetismo, enquanto três milhões de venezuelanos, antes excluídos por causa da pobreza, foram incluídos na educação primária, secundária e universitária.
Dezessete milhões de venezuelanos e venezuelanas (quase 70% da população) recebem, pela primeira vez na história, assistência médica gratuita, incluindo medicamentos e, dentro de poucos anos, todos os venezuelanos terão acesso gratuito a uma atenção médica de excelência.
Fornecem-se hoje mais de 1,7 milhão de toneladas de alimentos a preços módicos a 12 milhões de pessoas, quase metade dos venezuelanos, um milhão deles recebem-nos gratuitamente, por um período transitório. Estas medidas geraram um alto nível de segurança alimentar aos mais necessitados.







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