Revista ECO•21

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Edição 116
O glifosato nosso de cada dia nos dai hoje...
Ronaldo Santos de Freitas
Engenheiro Agrônomo, Técnico em Educação Não-Formal – FASE/MT
 
O herbicida glifosato, comumentemente conhecido como “mata-mato”, é o agrotóxico mais comercializado no mundo. Ele possui ação sistêmica, ou seja, ao ser aplicado nas folhas das plantas este pode ser translocado até as raízes; além disso, possui uma outra ação chamada não seletiva, pois aplicado em doses adequadas levará qualquer planta à morte, menos plantas transgênicas.
Em bioquímica estuda-se que o glifosato atua sobre as plantas inibindo a ação da enzima 5-enolpiruvil shiquimato-3-fosfato ácido sintetase (EPSP). As enzimas são catalisadores biológicos, tendo a função de facilitar as reações químicas. A inibição da atuação da enzima EPSP compromete a síntese biológica de alguns aminoácidos essenciais para o crescimento e sobrevivência de muitas plantas, além de comprometer a síntese de clorofila. O glifosato causa a alteração da estrutura celular das plantas levando a danos celulares irreversíveis, causando a morte das plantas.
Em plantas geneticamente modificadas, como por exemplo, a soja transgênica, a indústria introduziu a proteína CP4, extraída de uma bactéria do gênero Agrobacterium freqüentemente encontrada nos solos tropicais. A proteína CP4 introduzida na soja tem a função de conferir à planta tolerância em relação à ação do glifosato.
Desta forma, quando o glifosato é aplicado em uma plantação de soja transgênica para eliminar as plantas daninhas, ele não irá matar a soja transgênica, pois ela foi desenvolvida para não ter a enzima EPSP inibida, ou seja, ela continuará crescendo, fazendo fotossíntese. No entanto, segundo o Journal of Pesticide Reform (1998), em testes laboratoriais, o glifosato aumentou a suscetibilidade das plantas às doenças e reduziu o crescimento das bactérias simbíoticas fixadoras de nitrogênio, causando distúrbios metabólicos nas raízes noduladas. Ainda segundo esta mesma revista o glifosato mostrou-se tóxico para os fungos micorrizicos que são benéficos às plantas.
Os fungos micorrizicos possuem uma ação simbiótica com a maioria das plantas: eles atuam dentro e em torno das células das raízes das plantas fornecendo a estas principalmente o nutriente fósforo e agindo como uma extensão radicular para a captação de água para a planta.
Antes de a soja transgênica aparecer “oficialmente” no mercado brasileiro, o limite máximo do agrotóxico glifosato aceitável pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) passível de presença em soja, era de 0,2 miligrama por quilo de grão. No período próximo a liberação do cultivo de soja transgênica no Brasil, a ANVISA, pressionada pela indústria dos agrotóxicos, decidiu aumentar o índice aceitável de glifosato presente no grão em 50 vezes, ou seja, de até 10 miligramas de glifosato por quilo de grãos de soja transgênica.
O principal nome comercial do herbicida glifosato comercializado mundialmente é o Round-up, da empresa Monsanto. Na formulação do Round-up, além do glifosato (princípio ativo), são utilizados outros compostos químicos, como os surfactantes, que possuem a função de auxiliar o glifosato a penetrar nas células das plantas. Os surfactentes possuem a capacidade de causar toxidade aguda, maiores ainda do que o próprio glifosato, porém, nas formulações dos agrotóxicos os surfactantes são classificados como componentes inertes.
De acordo com C. K. Grisolia, o Round-up, pode ser até trinta vezes mais tóxico aos peixes que o produto técnico glifosato, justamente por causa dos ditos componentes inertes das formulações. Além dos efeitos insalubres para a saúde humana e de contaminação ambiental causados pelo glifosato e de surfactantes, existe ainda a preocupação com a toxicidade dos ainda pouco estudados produtos metabólicos do glifosato, como o ácido aminometil fosfônico (AMPA), o principal metabólico do glifosato.
A análise laboratorial recentemente realizada pelo Centro de Pesquisa e Processamento de Alimentos da Universidade Federal do Paraná em 109 amostras de soja transgênica aponta que 70% das amostras apresentaram contaminação por glifosato e por AMPA. Porém, a Monsanto se contradiz ao afirmar que o AMPA é uma fração do agrotóxico que não retorna à solução do solo e dessa forma torna-se totalmente indisponível para absorção pelas plantas.
Segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), é provável que, associando-se os resíduos de glifosato mais os resíduos de AMPA, a quantidade de glifosato total (princípio ativo mais AMPA) nos alimentos à base de soja atinja níveis inseguros à saúde humana. Em testes subcrônicos em ratos, o AMPA causou; redução de peso em machos em todas as doses testadas e excessivas divisões celulares na mucosa da bexiga urinária em ambos os sexos. O AMPA é mais persistente que o glifosato e estudos realizados em oito estados norte-americanos concluíram que ele pode ficar no solo entre 119 e 958 dias.
Infelizmente – e talvez intencionalmente – a ANVISA não disponibilizou estudos de avaliação toxicológica e de estabelecimento de limites máximos de resíduos do metabólico AMPA em alimentos, apesar de já ter sido solicitado pelo IDEC.
Algumas perguntas ainda precisam ser mais bem respondidas pela ANVISA e pelas indústrias dos agrotóxicos à sociedade brasileira. Como o resíduo máximo permitido do agrotóxico glifosato pode ter sido aumentado em 50 vezes sem causar danos ambientais e a saúde humana?
Quais são os efeitos deletérios do glifosato e de seu metabólico associado AMPA para a saúde humana a partir do consumo de soja transgênica e seus produtos derivados? E ainda, é preciso que a legislação brasileira estabeleça limites máximos de resíduos de glifosato e de AMPA em águas e nos solos. Parte das respostas destas perguntas talvez possa ser encontrada no faturamento do Grupo Monsanto, em 2004. No Brasil, foi de R$ 1,4 bilhão, no Mercosul, R$ 2,4 bilhões e, no mundo, de R$ 15,8 bilhões.








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