Revista ECO•21

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Edição 123
A dramática situação dos anfíbios da Mata Atlântica
Germano Woehl Jr.
Físico, Presidente do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade - Jaraguá do Sul, SC
 
Nos últimos dez anos temos observado a população dos anfíbios na Serra do Mar e adjacências da Região Norte de Santa Catarina, uma das últimas áreas preservadas do Estado. Quase tudo o que resta de Mata Atlântica em Santa Catarina está ali. São os últimos vestígios, mas abriga ainda uma fabulosa biodiversidade, com mais de 70 espécies de anfíbios.
Algumas espécies de anfíbios são bastante sensíveis a alterações do meio ambiente provocadas pelo homem. É curioso observar a reação de espanto dos estudantes nas palestras, quando apresentamos as espécies da região onde eles moram. Mesmo os mais observadores da natureza, questionam o porquê de nunca terem visto a maioria das espécies apresentadas? A resposta está no fato de que boa parte das espécies de anfíbios da Mata Atlântica depende de florestas bem preservadas e rios limpos, livres de qualquer tipo de poluente.
Condições cada vez mais difíceis de serem encontradas. Anfíbios e outros animais da nossa fauna lutam para sobreviver em áreas preservadas mais e mais reduzidas e fragmentadas. Não existe no Brasil nenhum estudo de longo prazo para avaliar o declínio de populações de anfíbios. No entanto, há indicadores qualitativos, muito óbvios, de que os anfíbios vêm sendo exterminados à medida que as áreas naturais são invadidas pelo homem, quer seja para agricultura ou expansão urbana. Há também muitas evidências de desaparecimento de espécies em determinadas regiões, tendo ocorrência restrita a pequenas áreas, muitas vezes fora de unidades de conservação (áreas protegidas, como parques nacionais, estaduais, estações biológicas etc.)
Os ambientes de procriação para a maioria dos anfíbios são os banhados (brejos), poças temporárias (formadas com as chuvas fortes), nascentes, rios e riachos.
Cada espécie está adaptada para se reproduzir num determinado tipo de ambiente aquático. Isto é, tem espécie que se reproduz apenas em riachos de água bem oxigenada e limpa e outras, somente na água acumulada em lagoas temporárias (que secam durante o inverno). Quando se faz uma drenagem para secar um banhado, por exemplo, todos os anfíbios do entorno são exterminados. E as conseqüências disso são devastadoras: explosão da população de insetos e a escassez de comida para outros animais, uma vez que os anfíbios estão na base da cadeia alimentar.
Muitos animais dependem desta fonte de proteína. Os desequilíbrios ambientais provocados são grades, ou seja, a falta de anfíbios desencadeia um processo de extermínio de toda a fauna.
Algumas espécies apresentam girinos que têm um tempo de desenvolvimento curto, de 2 semanas ou um pouco mais, o suficiente para deixar a vida aquática antes que a lagoa ou poça seque. São adaptações que cada espécie adquiriu durante milhares de anos de evolução. No entanto, as mudanças climáticas, alteram as freqüências das chuvas e isso pode colocar em perigo estas espécies, pois se não chover regularmente na época da procriação, que é primavera e verão, as lagoas secam antes de dar tempo dos girinos completarem o desenvolvimento, provocando a morte de todos, evidentemente. É normal isso acontecer uma vez ou outra, mas não com muita freqüência.
Assim, mesmo em áreas preservadas, protegidas em Unidades de Conservação, os anfíbios podem ser afetados por problemas globais, como as mudanças climáticas decorrentes do Efeito Estufa, como sabemos.
Já espécies que vivem e se reproduzem em rios e riachos que nunca secam, enfrentam outro problema: a poluição. Na Serra do Mar da região Norte de Santa Catarina temos as chamadas rãs-de-cachoeira, espécies do gênero Cyclorhamphus, que só ocorrem nos rios e riachos encachoeirados da Serra do Mar, de Santa Catarina até o Espírito Santo.
Vivem nas rochas de granito constantemente molhados pelos respingos das águas. Há algumas décadas estas rãs eram comuns em todos os rios da região, mas, hoje, só podem ser encontradas nos rios ou riachos cujas nascentes estão em áreas intocáveis da Serra do Mar, que foram protegidas da ação do homem por barreiras naturais. Há evidências de que várias espécies destas rãs foram extintas, pois não são mais encontradas nos rios indicados nas descobertas de início e meados do século passado. Espécies essas consideradas endêmicas de rios que hoje estão poluídos com esgoto doméstico e pela mineração de caulim, para fazer cerâmica, o que deixa a água alcalina, imprópria para vida. Um determinado riacho é o hábitat exclusivo desta rã e se for degradado, não há como ela mudar para outro rio, já que não pode se deslocar por terra firme, pois sua pele resseca provocando-lhe a morte.
É impressionante constatar que esta rã não ocorre mais nos rios cujas nascentes estão em área de mineração de caulim. A explicação do porquê desta espécie ser tão sensível a contaminantes na água vem do fato de que todo seu ciclo de vida ocorre no mesmo ambiente, isto é, no mesmo riacho. Ou seja, o contato de seu organismo com a água é permanente, desde o nascimento até a vida adulta e por este motivo são considerados excelentes indicadores da qualidade da água, os chamados bioindicadores. Quando não morrem pela seca, os anfíbios morrem pelas águas represadas pelo homem.
Um dos motivos dos anfíbios serem adaptados para reprodução em lagoas temporárias é que eles secam pelo menos uma vez por ano, no período de inverno, quando chove menos nas regiões de Mata Atlântica, e, desta forma, não dá tempo suficiente para o desenvolvimento de predadores de girinos, como peixes, que precisam do meio aquático durante todo o ciclo de vida, que é relativamente bastante longo. Porém, imensas áreas de banhados são destruídas para implantação de tanques de cultivo de peixes, geralmente espécies devoradoras de girinos, provenientes de outros países.
Então, os anfíbios do local são rapidamente aniquilados, já que não conseguem mais ter a reprodução bem sucedida. Praticamente todas as propriedades rurais, próximas de áreas preservadas, já destruíram os banhados para implantação de tanques de criação de peixes, o que tem afetado toda a fauna destas áreas preservadas do entorno, como aves, mamíferos e répteis que se alimentam de anfíbios.
Mesmo as espécies que não dependem de água para se reproduzir são afetadas pela devastação, já que não podem migrar para outra área. Com certeza, a devastação da Mata Atlântica já dizimou muitas espécies. Aliás, é um engano muito comum acreditar que as aves e mamíferos, por exemplo, se salvam quando uma área é desmatada, incendiada ou inundada, pois podem fugir rapidamente para outra área.
O problema é que esta outra área já não existe mais e mesmo que existisse, lá já é ocupado por outros bichos e a competição por alimento, território, acabará provocando a morte de parte dos que já ocupam a área e parte dos novos inquilinos, até que o equilíbrio seja novamente restabelecido. Por isso, de nada adianta o resgate de fauna de uma área inundada para formação do reservatório de uma hidrelétrica. Uma vez perdido o hábitat, adeus!
Toda a biodiversidade vai junto. Para os anfíbios a morte chega primeiro, pois são pequenos e a locomoção é lenta. Imaginem naqueles incêndios que devastam imensas áreas, que chance os anfíbios têm de escapar?
Observamos também na região um problema local que afeta de forma grave a população de anfíbios, que neste caso foi apenas uma espécie, o sapo-comum (Bufo ictericus). Foi o ataque de carrapato, de uma espécie introduzida pelo tráfico de animais silvestres. A espécie de carrapato, específica de animais de sangue-frio, isto é, répteis e anfíbios, ocorria somente nas regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil e chegou ao Sul, à pequena Corupá, Santa Catarina, ao pé da Serra do Mar, provavelmente vindo de carona com um jaboti (espécie de tartaruga terrestre da região norte do Brasil) e como a reprodução é assexuada (não existe macho), se multiplicou e atacou violentamente os sapos, dizimando sua população no município de Corupá e entorno.
Na natureza, é comum este carrapato atacar os sapos das regiões Norte e Centro-Oeste, da espécie Bufo marinus, mas a infestação não é intensa de modo a causar problemas para os sapos, uma vez que convivem há milhares de anos. No entanto, o mesmo não acontece com o sapo da Mata Atlântica, que não tem resistência alguma contra o carrapato e por dispor de poucos locais para se abrigar nas áreas urbanizadas, o que torna a infestação tão intensa, provocando uma grande mortandade, como se observa nos quintais e jardins das residências da pequena Corupá, onde é comum encontrar muito sapos mortos com os carrapatos ainda grudados em seus corpos. É suportável para o sapo um ou dois carrapatos na fase adulta, mas mesmo assim causa queda na fertilidade das fêmeas, e o conseqüente declínio na população de sapos.

Instituto Rã-bugio

Preocupados com a situação dos anfíbios, decidimos fazer alguma coisa. Tendo em mente que só a sociedade pode salvá-los, começamos, em 1998, a desenvolver um trabalho nas escolas de divulgação dos anfíbios e os problemas que enfrentam, como a perda do hábitat. No início, gastamos dinheiro do próprio bolso, mas o sucesso do projeto foi tão grande que logo apareceram os patrocínios, que permitiram intensificar ainda mais nossas ações. A grande importância do nosso projeto é que ao proteger os anfíbios, estamos protegendo as regiões de mananciais. Tanto as pessoas como os anfíbios dependem diretamente da água, em qualidade e quantidade e ambos são beneficiados com a conservação da natureza. Assim, nosso projeto ganhou grande visibilidade e apoio da comunidade.
Em 2003, criamos a ONG Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade, e entre as suas realizações se destacam: a força-tarefa com estudantes das escolas públicas de Corupá, para monitorar a mortandade de sapos e a infestação dos carrapatos, trabalho que teve grande repercussão e resultou em publicações científicas; a popularização dos anfíbios através de palestras e exposições de fotos em escolas de SC, PR e RS; atendimento a mais de 11 mil alunos em trilhas interpretativas; e a capacitação de 350 alunos e professores para atuarem com multiplicadores. A conquista mais recente foi o patrocínio do Programa Petrobras Ambiental 2006, com o projeto Serra do Mar: Água e Vida, através de seleção pública, onde se inscreveram 846 projetos e foram aprovados apenas 36.








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