Revista ECO•21

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Edição 124
A Igreja e a criação da Amazônia
Evaristo Eduardo de Miranda
Doutor em Ecologia, escritor e Chefe-geral da EMBRAPA Monitoramento por Satélite
 
“É sem dúvida o Amazonas o máximo dos rios, sem injúria dos Nilos, Núbias e Zaires da África, dos Eufrates, Ganges e Indus de Ásia, dos Danúbios e Ródanos da Europa, dos Pratas, Orinocos e Mississipis da mesma América (...) chamado com razão pelos naturais mar branco, paraná petinga.” Assim começa a descrição do Rio Amazonas do padre jesuíta João Daniel, autor de uma obra enciclopédica sobre a geografia, a história, a economia, a flora, a fauna e os costumes dos povos da Amazônia: “Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas” (Contraponto, 2004).
Cronista da Companhia de Jesus, o padre João Daniel viveu na Amazônia entre 1741 e 1757, quando foi preso por ordem do Marquês de Pombal. Não sobreviveu aos 18 anos de prisão, vítima do despotismo esclarecido, durante os quais sistematizou de memória tudo o que se sabia sobre a região amazônica.
E sem deixar transparecer, sequer nas entrelinhas, nenhuma queixa ou amargor de seus sofrimentos e de sua injusta situa­ção de prisioneiro condenado à morte. Foi a primeira obra monumental sobre a Amazônia e é um exemplo de grandeza humana e pessoal.
Muitos desses pioneiros evangelizadores e exploradores, criadores da noção de Amazônia, têm sido tratados de “meros instrumentos a serviço dos interesses dos poderosos de seu tempo”. Ou simplesmente foram ignorados nos livros didáticos e de história. Todavia, sua atuação foi fundamental para o povoamento da Amazônia e sua incorporação ao território nacional. Nas páginas antigas da história, a Igreja deu contribuição decisiva ao conhecimento e à evangelização da Amazônia. Em paralelo com as ações militares e administrativas lusitanas, as atividades evangelizadoras e de pesquisa desenvolvidas por franciscanos, carmelitas, mercedários e jesuítas foram essenciais no povoamento e na consolidação do domínio português na Amazônia ao criarem, literalmente, o conceito de Amazônia.
Desde a expulsão dos franceses, do Maranhão, a Igreja esteve mobilizada no povoamento da Amazônia. Após a expulsão dos holandeses e ingleses da embocadura no Amazonas, em 22 de Junho de 1657, partiu de São Luís do Maranhão uma expedição comandada pelo cabo Bento Maciel Parente em direção ao coração da Amazônia. Dois religiosos, os padres Francisco Veloso e Manuel Pires, a acompanhavam.
O padre Antônio Vieira, que chegara em 1653 como Visitador-Geral das Missões dos Estados do Pará e Maranhão, pregou na partida dessa bandeira. O padre Antônio Vieira, chamado por Fernando Pessoa de “imperador da língua portuguesa”, nascido em Lisboa, veio para o Brasil em 1615. Autor de alguns dos mais belos sermões em língua portuguesa, esse pregador jesuíta teve grande ascendência sobre o Rei João IV de Portugal.
Em missões diplomáticas prestou relevantes serviços a Portugal, quando das invasões holandesas no Brasil. Estabeleceu núcleos missionários na Amazônia, conseguiu da Corte a expedição de lei específica contra a escravatura indígena no Maranhão e, sobretudo, foi um artífice da noção de região amazônica.
Dentre os seus “Sermões”, o do “Espírito Santo” expressa um grande conhecimento da Amazônia e é um tesouro em defesa da necessária evangelização dos povos amazônicos em suas próprias línguas: “Pela muita variedade das línguas, houve quem chamou ao Rio das Amazonas rio Babel; mas vem-lhe tão curto o nome de Babel, como o de rio. Vem-lhe curto o nome de rio, porque verdadeiramente é um mar doce, maior que o Mar Mediterrâneo no comprimento e na boca. O Mar Mediterrâneo no mais largo da boca tem sete léguas, e o Rio das Amazonas oitenta; o Mar Mediterrâneo, do Estreito de Gibraltar até as praias da Síria, que é a maior longitude, tem mil léguas de comprido, e o Rio das Amazonas, da cidade de Belém para cima, já se lhe tem contado mais de três mil, e ainda se lhe não sabe princípio.
Por isso os naturais lhe chamam Pará, e os portugueses Maranhão, que tudo quer dizer mar, e mar grande. E vem-lhe curto também o nome de Babel, porque na Torre de Babel, como diz S. Jerônimo, houve somente setenta e duas línguas, e as que se falam no Rio das Amazonas são tantas e tão diversas, que se lhes não sabe o nome nem o número. As conhecidas até o ano de 639, no descobrimento do Rio de Quito, eram cento e cinqüenta.
Depois se descobriram muitas mais, e a menor parte do rio, de seus imensos braços, e das nações que os habitam, é o que está descoberto.”
A interiorização do povoamento da Amazônia foi o maior sinônimo da sua “criação” conceptual e visionária, e seguiu os passos da evangelização. Em 1668, o franciscano frei Teodósio e o capitão Pedro da Costa Favela fundaram uma nova povoação à margem do Rio Negro.
Em 1669, o capitão Francisco da Motas Falcão e seu filho construíram ali, no coração da Amazônia, próximo da confluência do Rio Negro com o Solimões, um pequeno forte quadrangular em pedra e barro. As tribos indígenas aruaques, principalmente os manaós, ajudaram na construção e passaram a morar em volta dele. A população formada por indígenas e brancos cresceu rapidamente. Para ajudar na catequização dos índios, os carmelitas, jesuítas, mercedários e franciscanos ergueram uma capela próxima ao forte com o nome de Nossa Senhora da Conceição, futura padroeira da cidade fundada em 1674: Manaus.
Enquanto as missões religiosas portuguesas iam se estabelecendo no Baixo Amazonas, as missões espanholas progrediram pelas cabeceiras através de aldeamentos missionários dos jesuítas ao longo dos rios Napo, Huallaga, Ucayali, Marañón e Solimões. Em 1684, chegou à Real Audiência de Quito o padre Samuel Fritz, jovem missionário alemão de Tratenau.
Entre 1686 e 1688 viajou e trabalhou no Alto Amazonas, num trecho de mais de 1.000 quilômetros entre o Napo e o Japurá com outros jesuítas. Em 1689, esses soldados da Companhia de Jesus alcançaram as imediações da foz do Juruá.
Na zona do Rio Solimões, as missões castelhanas dirigidas pelo jesuíta Samuel Fritz floresceram na bacia do Juruá e talvez mais a Leste. Ele trabalhou 42 anos na Amazônia, catequizou os omáguas, yurimáguas, aisuaris e ibanomas. Escreveu num diário sua viagem de três anos descendo o Amazonas e deixou o famoso “Mapa Geographico del Río Marañón ó Amazonas”, de 1691, uma carta muito precisa do Rio Amazonas, em termos de latitude. É cognominado Apóstolo da Amazônia.
Os portugueses, em sentido contrário, iniciaram a subida do Solimões. Quando o padre Samuel Fritz desceu o Rio Amazonas em 1689, encontrou os primeiros vestígios lusitanos representados por casas desertas, junto à foz do Rio Purus. A partir da sua viagem até Belém, abriu-se a questão do domínio do Solimões. O governo português mostrou mais interesse em expandir suas fronteiras do que o governo espanhol em ajudar seus missionários a defender suas pretensões amazônicas.
Várias ordens religiosas, com base em Portugal, foram convidadas para consolidar a presença lusa na Amazônia e evangelizar os índios. Regulada a divisão do território entre as ordens por meio de cartas régias (1687-1714), vários grupos de religiosos iniciaram a tarefa sistemática de exploração, povoamento e evangelização, espalhando suas missões por milhares de quilômetros pelo vale amazônico.
Os carmelitas, jesuítas, franciscanos e mercedários progressivamente aprofundaram o povoamento nos antigos domínios espanhóis e ocuparam a área atual do Estado do Amazonas. As missões jesuíticas espalharam-se pelo vale contíguo do Tapajós e, mais a Oeste, pelo do Madeira. Os mercedários estabeleceram-se próximo à divisa com o Pará, nos cursos do Urubu e do Uatumã. Os carmelitas disseminaram seus aldeamentos ao longo do Solimões, do Negro e, ao Norte, do Branco, no atual Roraima.
Os portugueses conquistaram definitivamente o Solimões entre 1709 e 1710. Em 1743, eles subiram até o Alto Rio Negro e penetraram no Rio Orinoco pela passagem do canal do Cassiquiare. Essa conexão, entre as cabeceiras e bacias do Negro e do Orinoco, uma raridade mundial, foi relatada e confirmada pela primeira vez pelo padre jesuíta Manuel Roviare em 1744.
Atendendo a uma solicitação da Coroa portuguesa, os jesuítas trabalharam no descobrimento da biodiversidade amazônica e iniciaram as primeiras atividades extrativistas de vulto das “drogas do sertão” garantindo uma exportação regular de cravo (Dicypellium caryophyllatum), cacau, baunilha, canela, resinas aromáticas e plantas medicinais. Da multiplicidade desses aldeamentos e missões religiosas surgiram dezenas de povoados, a exemplo de Cametá, na foz do Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos, no Rio Negro; Santarém, na foz do Tapajós; Faro, no Rio Nhamundã; Borba, no Rio Madeira; Tefé, São Paulo de Olivença e Coari, no Solimões; e em continuação, no curso do Amazonas, Itacoatiara e Silves.
O espaço urbano das cidades mais antigas da Amazônia organizou-se e cresceu em função das igrejas (Sé - catedral, mosteiros, igrejas e capelas de bairros). A alfabetização retirou da tradição oral e trouxe para a imortalidade do papel os vocabulários, as fábulas, os conhecimentos, as histórias e tradições amazônicas, os romances e os muitos relatos. A esse espaço agregou-se as leituras locais da temporalidade, a riqueza do vocabulário e das visões indígenas dos ecossistemas e dos ciclos de cheias e vazantes, a visão ibérica da sacralidade da natureza em manifestações como procissões de barcos, o Círio de Nazaré etc. E disso resultou um dos maiores patrimônios natural, histórico e cultural do Brasil e a própria afirmação da soberania nacional sobre a Amazônia.








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