Revista ECO•21

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Edição 130
Design sustentável e mercado de consumo
Jairo da Costa Júnior
Designer, Secretário Regional da Associação Catarinense de Design
 
Uma das características que diferencia o Homem dos demais mamíferos é sua capacidade de dominar e meio ambiente em sua volta. O constante anseio evolutivo do Homem o fez abandonar o rudimentar trabalho de subsistência para o desenvolvimento do trabalho artesanal. Essa produção se caracterizou pelo domínio do artesão em todo o processo. Com o surgimento do negociante entre a produção artesanal e o mercado, com o conseqüente domínio do capitalista sobre esse operário, podemos concluir o início do método produtivo que evoluiu para a indústria moderna.
O desenvolvimento tecnológico promovido pela presença do capitalismo conduziu a gradual substituição do trabalho manual pelo trabalho mecanizado. Nesse momento a produção industrial tinha como maior meta, que os custos da produção baixassem, a produção aumentasse e os ganhos crescessem.
A Revolução Industrial iniciada no Século 18 trouxe junto ao crescimento industrial uma mentalidade manufatureira baseada no consumo de recursos materiais desprezando os custos sociais e ambientais da produção. A burguesia tinha como argumento dessa industrialização a única forma de atingir a idéia de progresso dessa época. A produção industrial alcançava índices cada vez mais altos, com volume de bens maiores que a própria demanda de consumo, por outro lado à qualidade de criação e execução desses produtos apresentava desenvolvimento inverso. Essa filosofia de produção foi acentuada pelo advento da globalização no Século 20.
A produção é motivada por demandas individuais e coletivas, decorrentes de aspectos psicológicos, sociais, culturais e econômicos, refletindo diretamente na exploração de recursos disponíveis no meio. A ideologia industrial impõe um contínuo e ilimitado crescimento material sem a preocupação dos finitos recursos ambientais.
O design industrial é um elemento transformador da sociedade, visto seu domínio no desenvolvimento de bens e serviços que afetam o modo de vida dos consumidores. O designer tem o compromisso de modificar o ambiente industrial, desenvolvendo soluções para sistemas ambientais, sociais, econômicos e culturais em detrimento da exclusiva produção de objetos materiais. Alguns estudiosos destacam que a sociedade sustentável jamais surgirá no espectro de uma economia mundial centrada exclusivamente nas forças de mercado. A dificuldade na implementação de um modelo sustentável de produção demonstra que o redesign dos produtos torna-se insuficiente para a transformação dos padrões de consumo.
Ezio Manzini, um dos maiores pesquisadores do desenvolvimento sustentável de produtos, propõe três cenários de mudanças que devem ser submetidos tanto ao designer, quanto à sociedade consumidora: os designers devem desenvolver produtos mais duráveis enquanto artefatos tecnológicos e culturais; mudanças comportamentais, saindo da mera aquisição de produtos para a utilização efetiva de serviços; e consumir menos objetos.
O consumo é uma necessidade humana. Porém sua prática sustentável ultrapassa os limites da superficialidade das aspirações, propondo mudanças no sistema social, alterando os padrões de produção e consumo, através de motivações derivadas de perspectivas alternativas e inovadoras do design. O design deve ser utilizado como uma ferramenta de transformação da mentalidade industrial e consumidora, desenvolvendo conceitos que possam agregar-se ao mercado produzindo um ambiente adequando para o desenvolvimento sustentável de novos produtos. Esse modelo de sustentabilidade possui claramente grande dificuldade de implementação em nível global. Implica em mudanças bruscas e irreais em relação à redução atual do nível de consumo e comportamento do mercado, porém vai de encontro à emergente preocupação quanto à qualidade ambiental, ética e responsabilidade social corporativa, passando de um diferencial de mercado a uma característica essencial para a continuidade do desenvolvimento industrial mundial.
A preocupação com métodos de projeto de novos produtos que atendam a necessidade de minimização de recursos e diminuição do impacto ambiental levou a criação de metodologias que evoluíram o conceito de design industrial para Ecodesign. Esses estudos se intensificam a partir da década de 70. No final da década 80, surge o conceito de desenvolvimento sustentável, proposto pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Com o advento desse conceito de desenvolvimento o design expande claramente as características do Ecodesign, diferente de boa parte das correntes iniciais da prática de projetos orientados para o meio ambiente, focadas apenas no uso de recursos renováveis e ciclo de produto, prioritariamente diferenciais de mercado, para elementos essenciais de novos produtos, focando a sociedade, ambiente, economia e cultura.
O desenvolvimento sustentável não se opõe ao desenvolvimento econômico, pois o fator econômico é indispensável para o atendimento das necessidades da sociedade e de suas futuras gerações, mas exige estratégias para maximizar o valor agregado de novos produtos e serviços, reduzindo o consumo de recursos e de energia.
Na busca por metodologias sustentáveis de produção, nasce à ciência que marca os conceitos da prática do design com orientação para a sustentabilidade, a ecologia industrial. Essa ciência é dividida em duas metodologias básicas, que abordam de forma evolutiva o processo de design industrial - Design orientado para o meio ambiente (Design For Environment - DFE) e; Design para sustentabilidade (Design For Sustainability - DFS).
Grande parte dos profissionais ainda não está comprometida com os valores necessários para a produção sustentável de bens de consumo. É indispensável a compreensão da responsabilidade social do designer e sua atuação interdisciplinar, promovendo junto a áreas afins e interdependentes o retorno desses valores para o desenvolvimento e revisão da tecnologia industrial e dos conceitos e métodos produtivos.
Porém, cabe destacar que a responsabilidade dessa transformação não está depositada apenas nos profissionais envolvidos no projeto e produção, mas em cada indivíduo participante desse sistema de produção e consumo.
Um dos maiores obstáculos ao uso de produtos criados e orientados com base no desenvolvimento sustentável é a cultura. Essa dificuldade em maioria provém da radical desvinculação dos produtos industriais desenvolvidos pelo design sustentável quanto a nichos de mercado capitalistas. Somente com novas práticas de consumo que não venham a interferir na integridade dos sistemas ambientais, sociais, culturais e econômicos, será possível alcançar o desenvolvimento sustentável.
A transformação cultural necessária para a ampla atuação do desenvolvimento sustentável de produtos no mercado é um processo gradativo e lento, que será concluído tão somente quando o conceito de desenvolvimento sustentável for parte do processo industrial como qualquer outra peça necessária para o movimento das engrenagens da produção industrial.







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