Revista ECO•21

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Edição 47
O mundo não é uma mercadoria
Lucas Matheron
Ambientalista, Diretor da ONG francesa Flora Brasil
 
No final de Junho passado, com o slogan: “O mundo não é uma mercadoria” quase 100 mil pessoas estiveram reunidas na cidade de Millau, França, rebatizada de “Seattle sur Tarn”, por ocasião do processo a José Bové, o carismático líder sindical da “Confederation Paysanne” (Confederação Camponesa) que defende a teoria da “agricultura familiar”. Trata-se de uma agricultura que respeita o agricultor e atende às necessidades da sociedade e que, desde 1997, exige uma moratória de 10 anos sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Esse processo, que conta com simpatizantes dos cinco continentes promete fazer historia. Fortemente documentado pela mídia, já é conhecido como o “Primeiro Processo da Era da Globalização”.
A luta de José Bové é pela reabilitação de uma profissão que permita a um máximo de agricultores viver decentemente, produzindo alimentação saudável, sem comprometer os recursos naturais e as paisagens que tornam aprazível o espaço rural, proporcionando uma qualidade de vida a ser apreciada por todos.
A globalização é o oposto deste ideal de vida, concentrando as riquezas, reduzindo a biodiversidade, uniformizando as paisagens, extinguindo sabedorias e culturas ancestrais, gerando dependência econômica e alimentar, contribuindo para o empobrecimento dos mais desfavorecidos, entre outros efeitos.
Foi em Seattle onde se deflagrou a reação identificada como “Cidadania Planetária” contra o totalitarismo globalizado (e foi uma primeira vitória), que está parcialmente baseada na luta contra a produção maciça de alimentos transgênicos.
Como resposta a esse movimento, uma coligação euro-estadunidense das maiores multinacionais do setor criou o “Conselho de Informação sobre Biotecnologia”, com um orçamento de US$ 50 milhões ao ano para propaganda. “Eles têm dinheiro, nós temos pessoas. Nossa força está na determinação de todos aqueles que repudiam o melhor dos mundos transgênico”, afirmou José Bové.
O chamado foi ouvido por milhares de pessoas que apoiaram José Bové na cidadezinha de Millau durante os dois dias do processo. A acusação: danos à propriedade por ter provocado, no dia 12 de Julho 1999, a simbólica destruição de uma lanchonete Mac Donalds, ainda em construção, na cidade de Millau.
Esta ação não-violenta (onde a Prefeitura fora avisada com 5 dias de antecedência e o proprietário da obra estava presente) foi realizada para chamar de uma vez por todas a atenção sobre as conseqüências da globalização imposta pelos EUA. “O Mac Donalds é aqui o símbolo da globalização pelas multinacionais”, afirmou José Bové que, junto aos seus companheiros, chegou ao tribunal como um herói.
De fato, a ação foi motivada pelas medidas de retaliação aplicadas pelos EUA sobre o queijo Roquefort, injustamente taxado em 100% em resposta à recusa dos europeus de importar carne com hormônios dos EUA. “Temos o direito de escolher nossa comida e nossa forma de produção. Será que temos que aceitar qualquer coisa sob pretexto da globalização? Não podemos aceitar tal situação e continuaremos lutando para defender este direito”, clama Bové e todos os manifestantes presentes que fazem da “malbouffe” (má-alimentação) o alvo desta luta.
“Uma causa justa, mas uma ação que constitui um delito”, segundo o Procurador da República que solicitou 10 meses de prisão para o líder sindical e 3 meses para seus companheiros. O veredicto será conhecido em Setembro próximo.
Uma pena considerada leve, conforme procedimentos da justiça francesa. Além do mais, o acusado já teria cumprido a pena por causa da prisão preventiva, mas os defensores de José Bové (que citaram 17 testemunhas de vários países do mundo para defender os acusados), ainda acham injusta, pois o ato foi “de emergência em face à situação de crise que afetava a sobrevivência dos agricultores envolvidos”, e por isso, exigem a não-condenação dos acusados.
Paralelamente ao processo, foram organizados vários fóruns que discutiram a globalização, contando com a participação de representantes de organizações camponesas de todas as partes do mundo. Dentre eles, alguns nomes como a ecologista indiana Vandana Shiva; o líder camponês estadunidense Bill Christinson, da National Family Farms Coalition; Mamadu Cissoko, líder do movimento camponês do Senegal; o ex-ministro polonês Piotr Dabrowski; o também líder camponês de Honduras, Rafael Alegría, representantes do MST brasileiro; lideranças do Partido Verde francês; artistas e políticos participaram nos debates.
Não-violência foi a palavra de ordem do movimento organizado pela Confederation Paysanne e a Rede ATTAC.
Na pequena cidade de 20.000 habitantes, não foi registrado nenhum incidente nesta manifestação pacífica de “Cidadania Planetária”. Movimento festivo, movimento de solidariedade, todos se mostraram a favor da mundialização, da amizade e da cultura. “Todos são mundialistas, mas não aceitam a globalização imposta pelas multinacionais da Organização Mundial do Comércio”, disse Susan George de ATTAC dos EUA.
“Não se discute se haverá ou não globalização, mas o que deve ser discutido é como se fará a globalização. A reforma da Organização Mundial do Comércio deve estar presente na pauta dos grandes” comentou o Prefeito de Millau, referindo-se ao G-8. No aguardo, a comunidade internacional demonstrou estar vigilante, marcando uma nova etapa rumo à constituição de uma “Organização Mundial da Cidadania”; enquanto isso, Bové já convidou a todo mundo para um novo encontro em Millau, no ano que vem.

José Bové por José Lutzenberger
Fundação Gaia

A tentativa de uma revista de São Paulo de ridicularizar José Bové exsuda um sentimento de antiluta social. A luta de Bové nada tem a ver com antiamericanismo. É uma luta de cunho global contra a sistemática marginalização do camponês pela política agrícola de apoio às transnacionais.
Não consigo crer que esse tipo de imprensa seja tão ignorante que não saiba distinguir entre camponês e fazendeiro e tão mal informada, que não saiba que os subsídios agrícolas no Mercado Comum Europeu, nos EUA, e também entre nós, são para o agribusiness e as grandes monoculturas, apenas as últimas gotas chegam até o agricultor, quando chegam.
A globalização é apenas um dos últimos instrumentos desta política. Até na “moderna” Alemanha, a renda per capita, o que sobra de agricultura familiar, é a última na lista, inferior à do operário não especializado. Por isso, todos os anos, dezenas de milhares se vêem obrigados a abandonar.
No mundo inteiro, também aqui no Rio Grande do Sul, e, como pude verificar recentemente, na China (que também se prepara para se submeter à Organização Mundial do Comércio), aumenta o número de suicídios entre os camponeses.
Quanto ao “quixotesco” e “antiamericano” Bové, ele é uma pessoa muito culta. Estudou em Harvard, fala muito bom inglês e conta com forte apoio nos EUA, onde a marginalização dos “farmers” (não confundir com fazendeiros) é uma das piores do mundo.t
Dizer que Bové fica mais rico e os agricultores brasileiros mais pobres, se não for puro cinismo, é muita burrice. Em todo o mundo, o verdadeiro agricultor está cada dia mais próximo da falência.
Era o caso de Bové, que se tornou camponês criador de ovelhas e produtor de queijo Roquefort, por escolha pessoal, poderia ter se tornado professor universitário.








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