Revista ECO•21

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Edição 140
Investimentos em energia limpa disparam no mercado
Nick Nuttall
Jornalista do Programa das Nações Unidas para do Meio Ambiente
 
Com o fim do petróleo barato se constata um grande aumento do interesse por produtos renováveis e com alta eficiência energética. Novos investimentos já superaram os 148 bilhões de dólares em 2007, o que representa um crescimento de 60% em relação a 2006. O crescimento continua em 2008, informa um estudo do PNUMA. As preocupações com as mudanças climáticas aumentaram graças ao interesse por este assunto de diversos governos em todo o mundo. A subida do preço do petróleo e a busca de segurança energética, levaram a novo recorde de investimentos em energias renováveis e indústrias de produção de eficiência energética em 2007, de acordo com a análise divulgada em 1º de Julho (2008) pelo PNUMA.
“Essas informações devem dar mais força aos governos, do Norte e do Sul, para que aprovem um novo e substantivo acordo no importante encontro da Convenção sobre Mudanças Climáticas a ser realizado em Copenhagen em 2009”, afirma Achim Steiner, Diretor do PNUMA.
No ano passado, mais de 148 bilhões do novo Fundo Global foram direcionados ao setor de energia sustentável, 60% a mais do que 2006, mesmo com a redução de crédito do mercado financeiro, de acordo com o relatório “Global Trend in Sustainable Energy Investment 2008”. Os 60% novos investimentos significam um aumento de 3 vezes em relação às previsões do relatório de 2006, que referenciou uma taxa de 20%. A energia eólica, mais uma vez, atraiu a maior parte dos investimentos (50,2 milhões de dólares em 2007), porém a energia solar disparou: atraindo US$ 28,6 bilhões de capital novo e deverá continuar crescendo a uma taxa média anual de 254% com base no ano 2004.
O primeiro trimestre de 2008 foi um pouco sombrio no setor, somente com fusões e aquisições; particularmente diversas empresas eólicas venderam seus portfólios; várias delas perceberam o fato de que unicamente a junção dos mercados de crédito não pode financiar o seu próprio crescimento.
No segundo trimestre, muitas áreas de investimento tiveram um resultado menor do que o esperado, mesmo tendo o mercado global se mantido em meio à instabilidade. A energia sustentável e a eqüidade privada foram maiores de 34% de Abril a Junho de 2007. O novo crescimento de bens financeiros de 8% e o investimento de mercado público quadruplicaram no primeiro trimestre apesar de no semestre seguinte apresentar uma redução de 17%.
“Assim como, no fim do Século 19 e início do 20, milhares de pessoas foram para a Califórnia e ao Klondike, no Alaska, a Corrida do Ouro da energia verde está atraindo legiões de prospectores dos tempos modernos em todas as partes do globo”, disse Steiner. “Um século mais tarde, a diferença consiste em que a maior parte dos que hoje procuram por essas riquezas, certamente as encontrarão. Com as temperaturas globais alteradas e os preços dos combustíveis fósseis em ascensão, é cada vez mais óbvio, tanto para o setor público quanto para o de investidores privados, que a transição para uma sociedade com baixo teor de carbono é realmente um imperativo global e uma inevitabilidade; mas somente será inevitável se mecanismos criativos de mercado e políticas públicas pudessem evoluir rapidamente para liberar e não frustrar esse avanço das energias limpas”.
A maior parte do dinheiro foi para a Europa, seguida pelos EUA. Entretanto, a China, a Índia e o Brasil atraíram de forma crescente o interesse dos investidores, com a sua parte do crescimento do novo investimento indo de 12% em 2004 para 22% em 2007, um aumento de quatorze vezes: de US$ 1.8 bilhões para US$ 26 bilhões. O fluxo de capitais no campo da energia sustentável em 2007 foi de US$ 204.9 bilhões; dos quais US$ 98.2 bilhões foram destinados à geração de novas fontes de energias renováveis (especialmente eólica nos EUA, China e Espanha), US$ 50,1 bilhões foram para desenvolvimento de tecnologia e manufaturas e US$ 56,6 bilhões mudaram de mãos através de fusões e aquisições.
Com 31 Gigawatts de nova capacidade geratriz instalada, a energia sustentável representou 23% da nova capacidade energética global em 2007, cerca de 10 vezes da nuclear. As companhias de energia sustentável contabilizaram 19% do novo capital levantado em 2007 pelo setor energético no mercado global de ações. “Os investimentos nos setores de energia sustentável precisam continuar crescendo se os objetivos são a redução da emissão de gases de Efeito Estufa, aumento do uso de energia renovável e eficiência energética”, afirma o mencionado relatório que foi elaborado a partir do modelo de “Finanças de Novas Energias” aplicado no Reino Unido, tomando como base a “Iniciativa Financeira para Energia Sustentável” de Paris.
“Até 2030, os investimentos devem atingir US$ 450 bilhões, principalmente a partir de 2012, início da Era Pós-Kyoto; a partir de 2020 deverão aumentar para mais de US$ 600 bilhões anuais. O desempenho do setor durante 2007 e em 2008 mostra um bom caminho para se atingir estes níveis”, segundo Steiner. O relatório oferece uma série de dados sobre os investimentos em energia sustentável pelo mundo:
Eólica - A energia eólica atraiu mais investimentos no ano passado do que qualquer outra tecnologia de combustível não-fóssil, incluindo as grandes hidrelétricas e a energia nuclear. Na Europa e nos EUA, os aumentos da capacidade eólica em 2007 contabilizaram 40% e 30%, respectivamente, da nova capacidade energética geral. A Iberenova, braço da gigante energética espanhola Iberdrola que desenvolve energia eólica, levantou US$ 7,2 bilhões em uma flutuação de mercado em Dezembro de 2007, o maior IPO (Initial Public Offering) espanhola de todos os tempos e o quarto maior acordo público do ano. A capacidade instalada global ultrapassou os 100 GW em Março de 2008.
Solar - A energia solar saltou à frente em 2007, aumentando sua fatia em quase todas as categorias de investimentos. A energia solar atraiu, de longe, a maior parte do capital de risco e investimentos de capital privado (US$ 3.7 bilhões), enquanto a energia a partir de biomassa e a de resíduos registrou o seu mais acelerado crescimento: 432%. Em 2007, as companhias de energia solar chinesas cresceram o equivalente a US$ 2,5 bilhões nos mercados de capitais dos Estados Unidos e da Europa.
Etanol - Com os custos de matérias-primas industriais em alta e preços do etanol em queda, o capital de risco e os investimentos de capital privado em biocombustíveis caíram quase um terço em 2007, para US$ 2,1 bilhões. Entretanto, o investimento em biocombustíveis não se esgotou totalmente, aumentando no Brasil, Índia e China.
Eficiência Energética - Os investimentos em tecnologia para a eficiência energética atingiram um recorde de US$ 1,8 bilhões, um aumento de 78% desde 2006. A América do Norte atraiu a maioria dos investimentos em eficiência energética em 2007, seguida pela Europa, apesar da legislação estadunidense que trata de energia estar aquém da européia. As construções oferecem, de longe, o maior potencial de economia de energia (que gera 40% das emissões de carbono).
A eficiência industrial e de transportes vêm logo em seguida, surpreendentemente junto com o setor energético, como o setor com a menor perspectiva de economia. De acordo com a Agência Energética Internacional, cada dólar investido em eficiência energética, em média, evita mais que US$ 2 necessários para criar novas ofertas.
A União Européia se mantém como a principal região para os investimentos, particularmente com financiamentos de longo prazo. Políticas de apoio, assim como uma base de investidores que se sentem confortáveis em financiar projetos de energia renovável e uma concorrência mais intensa por acordos, impulsionaram os ativos financeiros europeus levando-os para o nível recorde de US$ 49.5 bilhões em 2007. Isso representou 62% dos ativos financeiros do mundo todo.
Nos EUA, a aceitação por energias sustentáveis se tornou mais ampla, se expandindo além de seu tradicional centro na Califórnia. Espera-se que a nova administração federal, em 2009, faça da energia renovável e da eficiência energética uma prioridade política enquanto recentes incertezas nos EUA (particularmente sobre uma possível introdução de regulação de CO2) colocaram em compasso de espera alguns projetos de construir usinas movidas a carvão.
O setor financeiro dos EUA também está caminhando para uma grande mudança na atitude política. Os grupos Citi, JP Morgan Chase e Morgan Stanley estabeleceram, em conjunto, uma série de “Princípios de Carbono”, que guiará como eles aconselharão às grandes empresas energéticas nos EUA.
Os bancos desenvolveram essa série de “Princípios” para avaliar os riscos de financiar “projetos emissores de carbono”, dada a crescente incerteza regional e nacional em torno à política sobre mudanças climáticas. Eles também considerarão a inclusão de companhias energéticas de eficiência energética e recursos renováveis em seus portfólios como parte de um “processo de diligência aprimorado”.
China - Em 2007, o investimento em capacidade renovável não-hidráulica na China aumentou mais de quatro vezes, para US$ 10,8 bilhões, e a nova capacidade eólica dobrou para 6 Gigawatts. O Relatório informa que os Jogos Olímpicos de Beijing, em 2008, “afiaram a política nacional e reforçaram os programas para a promoção de geração mais limpa e corte de intensidade energética”.
Além do surgimento das companhias de energia solar chinesas nas listas de mercados acionários dos EUA e da Europa, a atividade de mercado público também está crescendo internamente.
Merece destaque a manufatura eólica chinesa Goldwind que, no ano passado, cresceu US$ 243 milhões na Bolsa de Shenzhen, primeiro IPO relacionado exclusivamente a energia renovável.
Brasil - O Brasil é o maior mercado mundial de energia renovável, graças às indústrias hidrelétricas e de etanol. Os investimentos em energia sustentável no Brasil, em 2007, continua­ram dominados pelo etanol, quando o interesse dos investidores mudou do sitiado mercado de etanol dos EUA para o Brasil. Infinity Bio-Energy (listada no AIM de Londres) e a gigante dos agronegócios Cargill fizeram importantes investimentos no setor. Além da produção de etanol, investimento na co-geração de cana-de-açúcar, produção de biodiesel e energia eólica também têm sido significativas.
Índia - Os ativos financeiros na Índia cresceram significativamente, para US$ 2,5 bilhões, em maior parte devido a 1,7 GW em novos projetos de energia eólica. Tais instalações colocaram a Índia em quarta posição mundial, tanto em termos de nova capacidade adicionada em 2007 quanto em capacidade total instalada. O aumento de fundos nas bolsas indianas alcançaram US$ 628 milhões em 2007, embora as empresas tenham procurado, de forma crescente, por capitais em mercados estrangeiros, transferindo US$ 1,4 bilhões externos em 2007.
A atividade do mercado público foi marcada por uma série de Obrigações Convertíveis em Moeda Estrangeira (FCCBs) de empresas indianas de energia renovável estabelecidas, como a Suzlon (US$ 500 milhões de aumento) e a Moser Baer (US$ 150 milhões). O ano de 2007 também viu muitos acordos além-fronteira envolvendo compradores indianos e chineses, incluindo a aquisição da Repower pela Suzlon por US$ 1,6 bilhão e da empresa alemã de turbinas NOI Rotortechnik pelo China National Building Material Group.
África - A África continua atrás das outras regiões em termos de investimentos em energia sustentável. Ações financeiras, entretanto, cresceram em 2007 para 1,3 bilhões (cinco vezes mais do que em 2006), revertendo um declínio gradual desde 2004, provando ser verdade a crescente capacidade para instalação de fontes renováveis. Os investimentos foram principalmente em biocombustíveis e geotermais. Prometendo desenvolvimento solar em larga escala, já foram iniciados no Norte da África e, com algumas mudanças, na África do Sul; são estágios para o estabelecimento da energia renovável e do primeiro campo de energia eólica. A África Subsaariana “região que mais tem a ganhar da energia renovável”, se mantém inexplorada, de acordo com o Relatório.
13 bilhões de dólares foram investidos em financiamento de carbono desde o fim de 2007, uma importante fonte de aplicações financeiras para o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) nos países em desenvolvimento. Mas, os novos investimentos procedem de financiamentos privados, da mesma forma em que se estabeleceu a comercialização de carbono. O primeiro trimestre de 2008 viu a emergência dos interesses privados no Mercado Pós-Kyoto, com investidores se adequando aos créditos de compras MDL Pós-2012, requeridos pelos critérios de comercialização na União Européia.
Os investimentos não apenas cresceram em 2007, mas se expandiram e diversificaram. Os principais mercados de capitais não estão totalmente receptivos a empresas de energia sustentável, de acordo com o Relatório. O ano 2007 também testemunhou uma grande atividade nas chamadas “tecnologias da nova geração”, como a de etanol de celulose, tecnologia solar de placas finas e eficiência energética. O capital para investimento em novas empresas, principalmente as de risco (joint venture) aumentou 112% contabilizando 2 bilhões de dólares em 2007; as aplicações estiveram animadas pelo interesse em tecnologias renováveis emergentes, mais do que por aquelas que estão a ponto de comercialização. “O entusiasmo por olhar além das tecnologias consolidadas sugere que os investidores estão levando a sério, cada vez mais, a energia renovável e a eficiência energética”, afirma o Relatório.
Investimento público - Investimentos públicos gerais, usando suprimentos e outros mercados, mais do que dobraram nos dois últimos anos, de 10,5 bilhões de dólares investidos em 2006, foram para 23,4 bilhões em 2007. O Wilderhill New Energy Global Innovation Index (NEX) em 2007 cresceu 57,9%, no primeiro trimestre de 2008 caíram 17,9%, mas depois, no segundo trimestre, retomou metade de suas perdas. Enquanto financiamentos de capitais relacionados a energia limpa cresceram 35 bilhões em 2007.
Um recorde de 17 novas linhas de crédito lançadas em energia limpa. Em 2006 foram apenas cinco. Grande parte destes financiamentos foi lançada pelas principais empresas investidoras, tais como HSBC, F&C, Schroders, Deutsche Asset Management e Virgin. A chegada destes “pesos pesados” no mercado está “propensa a encorajar a grande lista dos que normalmente investem e a se expandir nos setores de baixo carbono e energia sustentável”, afirma o Relatório.
Pesquisa e Desenvolvimento - A Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) teve o seu quinhão: a energia limpa e eficiência energética foi beneficiada com 16,9 bilhões de dólares em 2007, produto de 9,8 bilhões de investimento em P&D feito por empresas e 7,1 bilhões dos governos. Europa e Oriente Médio tiveram a maior atividade industrial em P&D, seguido do Continente Americano e depois o asiático. Os padrões em nível governamental têm desempenho reverso, já que os governos asiáticos (notavelmente Japão, China e Índia) investindo relativamente pesado em P&D.
Fusões e incorporação de empresas - As atividades de fusão e incorporação de empresas cresceram 52% de 25,7 bilhões em 2007. Mohamed El-Ashry, Chefe da Renewable Energy Global Policy Network (REN21) disse: “Uma razão para o gradual crescimento das fontes renováveis é simplesmente econômica: enquanto os custos do combustível fóssil estão crescendo, os custos da tecnologia para energia renovável estão caindo. E com as renováveis não há custos de combustíveis nem emissão de carbono”.
De acordo com Yvo de Boer, Secretário-Executivo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas: “A tendência positiva no mercado da energia renovável é, pelo menos em parte, uma resposta do mercado à expectativa política. Se tal expectativa não for alcançada, a motivação convencional será o que guiará as decisões dos investidores”.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), um montante de 20 trilhões de dólares é esperado como investimento para suprir a demanda energética mundial até 2030. Se tais investimentos não forem feitos de uma forma consciente no que diz respeito ao clima, as emissões de gases de Efeito Estufa devem aumentar em 50% até 2050, enquanto a ciência nos diz que essas emissões devem ser reduzidas em 50% até 2050. “Os negócios clamam por sinais de políticas mais claras para que eles possam fazer os investimentos corretos hoje. Definir um objetivo de longo prazo, para 2050, é útil. Mas penso que daria muito mais clareza aos investidores se os países ricos indicassem onde desejam estar em 2020 ou 2030”, esclarece Yvo de Boer.










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