Revista ECO•21

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Edição 58
Fred Hoyle encontra o Big Bang
Ronaldo R. F. Mourão
Astrônomo e escritor
 
O astrônomo inglês Fred Hoyle faleceu em 20 de agosto passado, em conseqüência de um derrame cerebral, na cidade de Bournemouth, ao sul da Inglaterra, onde viveu seus últimos anos. Com a sua morte, a comunidade científica internacional perdeu um dos mais famosos espíritos contestadores.
Foi um questionador compulsivo da ideologia explosiva e dominante do Big Bang. Na verdade, Hoyle foi um dos mais criativos e polêmicos astrofísicos da segunda metade do Século 20.
Além de ter explicado como os elementos mais pesados se formaram no universo, talvez a sua maior contribuição científica à cosmologia, foi quem cunhou a expressão inglesa Big Bang para ridicularizar o conceito segundo o qual o universo teria sua origem em uma grande explosão. Ao inventar esta expressão acabou por promover de maneira incrível - se bem que involuntariamente - o modelo cosmológico que desejava combater.

Fred Hoyle era um homem baixinho, nada simpático ao primeiro contato, em razão do seu rosto sempre sério e nada bonito para os padrões de beleza em geral aceitos pela sociedade.
Sua personalidade forte e a capacidade de estar permanentemente questionando os problemas astronômicos e cosmológicos, transformaram-no em um tipo polêmico e até mesmo em um agente provocador.
Além de sua visão profundamente crítica em relação à idéia cosmológica da grande explosão (Big Bang) e, particularmente, aquela referente à panspermia, outros questionamentos relativos à astronomia configuram, sem dúvida, suas inúmeras contribuições à ciência do Cosmos.
Os pesquisadores polêmicos, de forma geral, são fundamentais para o desenvolvimento científico, embora não sejam vistos com admiração pelos governos e pelo establishment vigentes.
Com Chandra Wickramasinghe, professor de Matemática da Universidade de Gales, Hoyle deu uma nova dimensão à Teoria da Panspermia (hipótese estabelecida pelo físico e químico sueco Svante Arrhenius, falecido em 1927, segundo a qual, os germes da vida se transmitiram de um planeta ao outro, dentro da galáxia), ao promover a teoria de que a vida - e algumas epidemias incluindo a AIDS - devem ter alcançado a Terra oriundos do espaço; teoria hoje abandonada
“Mudou nossa visão do universo mais profundamente do que qualquer outro astrônomo do século passado”, declarou Wickramasinghe. “Fred Hoyle foi, provavelmente, a personalidade mais criativa e original da astrofísica, depois da Segunda Guerra Mundial”, disse Geoffrey Burbidge, astrofísico da Universidade da Califórnia, em San Diego.
Em sua teoria, a matéria orgânica está distribuída por todo o Cosmos, onde esporos de vida viajam pelo espaço levados pela pressão de radiação da luz estelar, como as sementes que impulsionadas pelo vento viajam pela atmosfera até serem depositadas em solo fértil.
Aliás, até o advento da radioastronomia, a idéia de que fosse possível existirem estruturas químicas complexas nas baixas densidades do espaço interestelar era inaceitável.
A descoberta de moléculas complexas no espaço, assim como de água nas nuvens de Órion, aumentou sensivelmente a probabilidade de que a vida não tenha surgido na Terra, a partir da matéria inorgânica, como propôs o químico e biólogo russo Alexander Ivanovitch Oparin e o biólogo e matemático indiano de origem britânica John Burdon Sanderson Haldane, mas do espaço. Dois são os principais livros de Hoyle relativos à panspermia: Diseases from Space (1979) e Space Travalers: The Origins of Life (1980).
Em Janeiro de 1990, Hoyle e Wickramasinghe publicaram na revista inglesa Nature, um artigo no qual sugeriam que as manchas solares causavam “epidemias de gripe”. Tal conclusão, que enfureceu os médicos e os cientistas, estava baseada na convicção de Hoyle de que o espaço estava cheio de vírus que causavam não só gripe, mas a própria AIDS. Os ventos solares provenientes das tempestades que ocorrem na superfície do Sol teriam a capacidade de direcionar estes vírus para a atmosfera da Terra, distribuindo as doenças na superfície terrestre.
Uma reação mais violenta surgiu quando os dois afirmaram que a teoria de Darwin, relativa à evolução das espécies, através da seleção natural, é errônea. Segundo Hoyle e Wickramasinghe, a evolução ocorreu em virtude das formas mutantes de vidas provenientes do espaço.
De acordo com esta teoria, tais interferências oriundas do espaço não foram acidentais, porém algo organizado deliberadamente há muito tempo por uma civilização superinteligente que desejava “semear” a vida em nosso planeta.
Para comprovar suas idéias, eles fizeram uma série de sugestões que enfureceram ainda mais uma grande parte da comunidade associada aos paleontólogos. A acusação que causou a maior reação foi a de que o Archaeopteryx, a evidência mais significativa da seleção natural, era uma fraude. Na realidade, Archeopteryx foi uma criatura, meio réptil, meio pássaro, que viveu há aproximadamente 60 milhões de anos atrás.
O fóssil deste réptil emplumado, - um dos orgulhos do Museu Britânico -, era uma das principais provas de que esta criatura representava um dos estágios do processo de evolução entre uma espécie e outra.
Além de rejeitarem tal evidência, F. Hoyle e C. Wickramasinghe, sugeriram que as penas do Archaeopteryx tinham sido sorrateiramente colocadas, em 1861, por seu descobridor Carl Haeberlein. Em conseqüência destas ilações, o livro Archaeopteryx, the primordial bird: a case of fossil forgery , 1986, foi resenhado, com violência jamais vista na revista britânica New Scientist, pela zoóloga inglesa Beverly Halstead: Este livro, escrito numa linguagem intempestiva, contém falsidades demonstráveis, calúnias dificilmente imagináveis dirigidas a pessoas incapazes de se defenderem por si próprias.
Como foi escrito, é sumamente difícil não cair nesta armadilha elaborada emocionalmente. Sua tese principal é completamente absurda e pode ser comprovada como falsa... Uma pergunta se impõe: para que tudo isto? Por seu aspecto repugnante, este texto constituía a peça escrita mais desprezível que tive o infortúnio de ler. Exibe um absoluto desprezo pelos mínimos padrões de erudição - o livro parece retratar um ódio ao naturalista Charles Darwin e o mais complexo e deformado julgamento em relação aos zoólogos. Esta tolice difamatória permanecerá por muito tempo, com uma mancha nas reputações de ambos os autores.
Tom Kemp, curador do Museu da Universidade de Oxford, acrescentou: “Certamente a reivindicação de que Archaeopteryx é uma fraude deveria ser investigada. Mas a investigação deveria ser feita por aqueles que de fato entendem de fósseis, e não por duas pessoas que exibem nada mais do que uma presunção de Gargantua, e que se consideram suficientemente inteligentes para resolver os problemas de outras pessoas, quando eles ainda nem mesmo começaram a reconhecer a sua natureza e complexidade.”
O próprio Hoyle não deixou de reconhecer que havia algo de censurável em sua obra: “Nós podemos ter incluído alguns sarcasmos imoderados”. O aspecto mais enigmático destas disputas é o fato de que Hoyle deixou muitas importantes contribuições à física e à astronomia, dentre elas, as análises e estudos sobre modelos de estrelas, nucleossíntese estelar, teorias de acreção, teorias de formação das estrelas e da condensação dos planetas e, em particular, suas contribuições relativas à cosmologia.
Em 1957, Hoyle, em colaboração com o físico estadunidense William Alfred Fowler, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e o casal Geoffrey e Margaret Burbidge, ambos da Universidade da Califórnia, em San Diego, elaborou um estudo, sobre a maneira como foram forjados os elementos químicos pesados que enchem nossos corpos - como oxigênio, carbono e ferro - nos fornos nucleares das estrelas eruptivas, cujos restos depois de suas explosões deram origem aos sistemas solares.
A demonstração de que os elementos químicos mais pesados que o hélio eram produtos das reações nucleares no interior das estrelas foi publicada em Synthesis of the Elements in Stars (1957). Em resumo, na realidade, somos feitos literalmente de poeira estelar.
Mas esta descoberta que marcou uma época foi recompensada de modo muito injusto: estranhamente, Fowler ganhou o Prêmio Nobel, enquanto Hoyle e os Burbidge ficaram a ver navios.
Em colaboração com o astrônomo inglês, Hermann Bondi e o físico estadunidense, Thomas Gold, Hoyle propôs a Teoria do Estado Estacionário (Steady State), em 1947, ao sustentar a idéia de que o Universo evolui num processo de crescimento contínuo. “Cada aglomerado de galáxias, cada estrela, cada átomo têm um começo, mas o universo propriamente dito, não”, afirmava Hoyle.
Nos anos 50 do século passado, observações radioastronômicas demonstraram que o universo se expandia mais rapidamente do que a teoria de Hoyle havia previsto, dando um crédito à idéia de que o universo começou numa explosão de matéria de densidade inacreditável, o que motivou a cunhagem da expansão do Big Bang com objetivo de ridicularizar a teoria da grande explosão.
Hoyle foi um dos principais defensores da teoria do estado estacionário ou teoria da criação continua do universo, segundo a qual o Cosmos não teve nem começo nem terá nenhum fim. O universo tem uma idade infinita e extensão infinita no espaço.
Foi radicalmente contrário à idéia de um nascimento único ocorrido num instante preciso do cosmos. Segundo este ponto de vista dissidente, a matéria surgiria de modo regular, em ritmo contínuo, no espaço. Em conseqüência, a densidade da massa presente entre as galáxias permaneceria constante. Tal tese foi ardentemente defendida em colaboração com Geoffrey Burbidge e Jayant Nirklikar.
Em 1992, quando o astrônomo estadunidense George Smoot anunciou ter detectado ondulações na radiação de fundo do Cosmos, Hoyle recusou aceitá-la, admitindo: “Eu tenho um preconceito estético contra o Big Bang”.
Desafiou também as evidências obtidas pelo rádio astrônomo inglês Martin Ryle que, nos anos 60 do século passado, tinha registrado sinais semelhantes de origens cósmicas, embora menos conclusivas.
Até o fim de sua vida, Hoyle permaneceu fiel às idéias contrárias ao Big Bang. Sua última investida contra a ortodoxa do Big Bang foi o livro A Different Approach to Cosmology (2000) escrito em colaboração com o Geoffrey Burbidge e Jayant V. Narliker.
Em 1985, quando o Cometa de Halley passou próximo à Terra, a confirmação observacional de teoria dos vírus espaciais de Hoyle e Wickramasinghe lhe deu a chance para iniciarem uma outra disputa furiosa: acusaram o astrônomo estadunidense J. Mayo Greenberg de plágio.
De fato, Greenberg desenvolveu uma teoria segundo a qual o espaço contém material “pré-orgânico”; e ela foi considerada por Hoyle e Wickramasinghe como uma cópia da teoria desenvolvida anteriormente por eles: “Nós devemos felicitá-lo pela surpreendente precisão” disseram astutamente.
“Estes dois homens estão constantemente fazendo estas acusações estúpidas contra mim”, replicou Greenberg. “Eu penso que eles nunca me perdoaram por ter mostrado alguns anos atrás em uma reunião pública que eles tinham feito um erro científico elementar”.
Hoyle foi um divulgador científico de grande talento: nos anos 50 do século passado animava com grande sucesso as emissões radiofônicas da Base da Londres, intitulada The Nature of the Universe, que dariam origem ao livro de igual título.
Hoyle foi também um magistral escritor de ficção científica. Num de seus melhores romances, The Black Cloud (1957), descreveu uma misteriosa nuvem de poeira cósmica estacionada ao redor do Sol.
A misteriosa nuvem bloqueou a luz solar, provocando uma Idade de Gelo temporária. Hoyle, nesta obra, demostrou que a nuvem era um ser inteligente, pois usava a radiação solar para se suprir de energia. O enredo refletiu todo o desprezo que Hoyle sentia pelos políticos assim como ressaltou a sua idéia sobre uma superinteligência cósmica.
Aterrorizar e amedrontar eram suas algumas de suas particularidades como escritor de ficção científica. Em A for Andromeda (1962), que se tornou uma série de televisão, as instruções recebidas de alienígenas através do rádio ensinavam aos humanos como construir uma máquina poderosa e destrutiva. Outro importante livro de ficção científica foi Ossian’s Ride (1958).
Escreveu também a peça para crianças, Rockets in Ursa Major (1962) e um pequeno livro The Alchemy of Love.

Fred Hoyle foi presidente da Real Sociedade Astronômica de 1971 a 1973. Lecionou em numerosas universidades, inclusive no Instituto de Tecnologia da Califórnia (astrofísica e astronomia) e na Universidade de Cornell. Foi pesquisador nos Observatórios de Monte Wilson e Monte Palomar, 1957/62. Fundou o Instituto de Astronomia, em Cambridge, onde foi o Professor de 1958/72. Hoyle foi eleito fellow da Sociedade Real em 1957 e distingüido pela Rainha Elisabeth II com o título de Cavaleiro em 1972. Em 1997, foi galardoado com o Prêmio Crafford.

A bibliografia de Fred Hoyle inclui:

Frontiers of Astronomy
Man and Materialism
Star Formation
Galaxies, Nuclei and Quasars
The Relation of Physics and Cosmology
Ten Faces of the Universe
Stonehenge
The Cosmogony of
the Solar System
The Intelligent Universe: a New View of Creation and Evolution
Common Sense and Nuclear Energy (com colaboração de seu filho Geoffrey)
Home is where the wind blows (autobiografia) Lore
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