Revista ECO•21

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Edição 58
O fator clima na Bolsa
Lucas Matheron
Editor da Rede Flora Brasil
 
Finalmente foi achado um meio de arrancar dinheiro da indústria para financiar reflorestamentos maciços! Pelo menos, isso é o que está acontecendo nos bastidores após a série de debates sobre mudanças climáticas e do semi-fracasso do Protocolo de Kyoto do qual, estrategicamente, se retiraram os Estados Unidos.
Teríamos, nós ambientalistas, razões para festejar? Infelizmente não. Visto que o reflorestamento está hoje na balança como contrapeso ao direito de poluir.
Existe alguma preocupação ambiental por trás disso? Ou mesmo razões sócio-econômicas? Sinceramente não. Pelo menos nas diversas estratégias e propostas que vêm sendo feitas por parte dos poluidores, alvos do Protocolo de Kyoto e principais beneficiários do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Interessa mesmo é não perder bilhões de dólares reduzindo suas atividades ou investindo em alternativas menos poluentes; os créditos de carbono são uma excelente oportunidade de negócios, traduzindo assim uma nítida despreocupação com a situação global do planeta.
No entanto, para sermos coerentes dentro dos princípios estabelecidos pela Agenda 21, temos que associar benefícios sociais e ambientais aos econômicos, bem como privilegiar ações visando equilibrar o desenvolvimento entre o Norte e o Sul, entre os ricos e os pobres, entre os países mais desenvolvidos e os menos.
Ora, se observamos bem, os poluidores compram créditos dos que poluem menos (porque são menos desenvolvidos). Estes, por sua vez, não podem tampouco aumentar suas emissões por terem vendido seus créditos, limitando assim suas possibilidades de desenvolvimento, além de não terem como investir em pesquisa e formas mais “limpas” de produção. Não será isso mais um desvio do desenvolvimento planetário global favorecendo os ricos em detrimento dos mais pobres; reproduzindo o modelo colonialista do “ouro em troca de bijuterias”, reinvestindo na cadeia de corrupção gerada pelas “ajudas” internacionais?
Cabe aos países possuidores de créditos saber “negociá-los bem.” Argumento bastante fraco, tendo em vista como se exercem as pressões sobre os governos.
Não há, então, razões para alegria com os rumos adotados pela política ambiental globalizada. Resta a ação local, o empenho individual (mesmo que coletivo) muito mais do que uma agência internacional regulando o “mercado de carbono”. Aliás, vale salientar aqui a aparição da Bolsa do Clima de Chicago (Chicago Climate Exchange) que lembra irresistivelmente a Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais - BECE.
Vale aqui dar parabéns ao Sindicato dos Economistas de São Paulo e à Amyra El Khalili, coordenadora do Projeto CTA, pela recém nascida “irmãzinha” estadunidense. É bom lembrar que Alice LeBlanc, economista do Environmental Financial Products de Chicago, veio ao Brasil no início do ano para um seminário promovido pela ONG Amigos da Terra com a participação do Banco Mundial e do Governo Federal. Teria havido, naquela ocasião, uma empolgação pela proposta brasileira? Não sabemos.
Só que a proposta estadunidense é muito menos ambiciosa; pelo menos à primeira vista, pois não utiliza a abertura e a transparência do Projeto CTA, que busca o envolvimento ativo e democrático da sociedade. É importante lembrar que ela está sediada em Chicago e abrange apenas o mercado financeiro do carbono que, como observamos, visa a reprodução de um modelo já ultrapassado, sem procurar a implementação de novos padrões no mercado.
Quanto aos “observadores” que apostam no enfraquecimento do mercado de carbono pela ausência dos Estados Unidos, seria bom que os possuidores de “créditos” ousassem dizer que os venderão somente aos países que aderirem ao Protocolo de Kyoto, se comprometendo em agir para preservar o planeta.
Não temos que temer a sua eminência parda: o mercado (como diz Amyra) e, muito menos, nos deixar iludir pelo papel moeda (não importando a cor dele) porque ele não é commodity, apesar do mesmo precisar das commodities ambientais: água, madeira e energia para ser produzido. Temos que pensar, isso sim, no equilíbrio do mercado com relação ao meio ambiente, mas deixando a humanidade no fulcro e, aos homens, o poder de decisão.








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