Revista ECO•21

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Edição 47
Singelas Sempre-Vivas
Sônia Rigueira e Ângela Christina Ferreira Lara
Presidenta do Instituto Terra Brasilis e Coordenadora do Projeto Sempre-Vivas, respectivamente
 
Entre as espécies nativas da flora brasileira existem muitas plantas de importância comercial para o setor da ornamentação. Algumas delas, como as bromélias e as orquídeas, são comercializadas vivas. Outras têm grande valor justamente porque estão secas: são as Sempre-vivas, ou seja, são flores que, após serem colhidas e desidratadas, mudam pouco em forma e coloração, e têm grande durabilidade. Essas flores são retiradas da natureza e enviadas ao mercado de artigos de decoração tanto no Brasil quanto no exterior. Não somente flores interessam ao mercado de decoração, mas sim folhas, frutos, sementes, cascas de árvores, cipós, musgos, líquens, bromélias e cactos são, também, extraídos e comercializados.
As Sempre-vivas são especialmente abundantes ao longo da cadeia do Espinhaço, notadamente em Minas Gerais, mas também ocorrem na Bahia e nos cerrados de Goiás e Pará. Apesar de serem coletadas e comercializadas em todos esses Estados, Minas Gerais, especialmente o município de Diamantina, ao Norte do Estado, destaca-se como o maior pólo de comercialização de Sempre-vivas no Brasil, tanto por razões históricas, como também em função da enorme diversidade de espécies Sempre-vivas que ocorrem na região. De fato, Diamantina é considerado o centro da diversidade dessas espécies no mundo e as principais famílias botânicas dessas plantas são: Eriocaulaceae, Xyridaceae e Cyperaceae.
A coleta e comercialização de Sempre-vivas no Brasil iniciaram-se em Diamantina, por volta de 1930. Desde o início, esta atividade esteve associada à subsistência dos moradores de pequenos distritos e povoados da região que tinham no garimpo sua principal fonte de renda.
Com o passar dos anos e a diminuição dos veios de pedras preciosas e semipreciosas, o extrativismo vegetal passou a ser a principal fonte de renda em muitas dessas comunidades.
No entanto, esse aumento na importância do extrativismo ao longo desses 70 anos de atividade tem contribuído para o esgotamento da produção dos campos nativos de Sempre-vivas; a ponto de se encontrarem criticamente ameaçadas algumas das espécies de maior valor comercial.
O Governo de Minas Gerais publicou uma lista das espécies ameaçadas de extinção da flora do Estado. Nesta lista figuram 40 espécies de Sempre-vivas consideradas em 4 categorias distintas, a saber: “provavelmente extintas” (16 espécies), “criticamente em perigo” (16 espécies), “em perigo” (7 espécies) e “vulnerável” (1 espécie). Uma das causas das espécies estarem nas categorias “criticamente em perigo” ou “em perigo” é atribuída à coleta predatória.
Vale lembrar que ainda existem poucas iniciativas de cultivo de algumas espécies de Sempre-vivas, as quais perfazem um volume de produção ainda pouco representativo em relação àquele coletado nos campos naturais.
A atividade extrativista representa um grande problema ambiental e social a ser enfrentado. Mas o extrativismo intenso e continuado não é o único impacto sofrido pelos campos nativos. Ao longo das duas últimas décadas, várias fazendas de gado e cultivo vêm se instalando na região, levando a um acelerado quadro de mudança na paisagem natural. Além da substituição da vegetação nativa, o pisoteio pelo gado e as queimadas freqüentes para renovação das pastagens na estação seca são ações comuns e críticas para as espécies de Sempre-vivas. Esses grandes proprietários de terras são, geralmente, de fora da região, e não estão envolvidos com o extrativismo vegetal.
Paradoxalmente, o grande valor das Sempre-vivas, tanto para as comunidades como para a cadeia de comercialização, têm influência fundamental para sua conservação, uma vez que para a continuação dessa atividade se torna necessária a manutenção de seus hábitats naturais e não a sua conversão em pastagens, cafezais ou eucaliptais.

Diamantina

Para a definição do panorama da atividade de extrativismo e comercialização na região de Diamantina foram realizados, durante o ano de 1998, diagnósticos histórico, biológico e sócio-econômico, que levantaram problemas e apontaram caminhos a serem percorridos nas fases seguintes. Uma dessas fases caracterizou-se pelo desenvolvimento de um diagnóstico participativo em uma comunidade escolhida como piloto, Galheiros, onde a principal fonte de renda é a coleta de sempre-vivas. Esse trabalho vem sendo conduzido de maneira a se estabelecer uma metodologia aplicável em outras comunidades.
A primeira etapa do processo de diagnóstico participativo levou à reflexão e discussão com a comunidade sobre a realidade local, culminando na elaboração de um Plano de Ações da Comunidade de Galheiros. A segunda etapa encontra-se em andamento e está relacionada à implantação das ações planejadas onde está contemplada a busca de alternativas de renda, a melhoria das condições de saúde, o abastecimento de água e lavoura. Para a execução dessas ações, a comunidade e os demais parceiros do Projeto Sempre-Vivas vêm-se mobilizando conjuntamente. Muitas etapas já foram vencidas e outras estão em andamento.
Particularmente, sobre as alternativas de renda, a comunidade definiu em seu plano de ação que a produção de artesanato seria uma saída desejável.
Para a viabilização dessa produção, a comunidade de Galheiros reformou a sede de sua Associação Comunitária, que agora serve como base física da Oficina Galheiros onde estão sendo implementadas atividades de capacitação em criatividade e produção artesanal; organização comunitária produtiva; treinamento em gestão e qualidade e manejo de recursos naturais. A Oficina conta atualmente com cerca de 35 artesãos confeccionando artigos à base da flora nativa não ameaçada de extinção. A comercialização da produção da Oficina Galheiros teve seu início durante a X Feira Nacional de Artesanato, em Novembro de 1999, conduzida pela própria comunidade, tendo alcançado um extraordinário sucesso de venda e o estabelecimento de importantes contatos com comerciantes de todo o Brasil.
Além da questão da alternativa de renda, outras ações previstas já foram iniciadas, como a revegetação das nascentes da região, visando à melhoria da qualidade da água e volume de abastecimento, a formação de grupos de lavoura para plantio de milho e café e a inclusão da comunidade de Galheiros no programa municipal de agentes comunitários de saúde. Visando a divulgação dos resultados obtidos ao longo deste Projeto, foi publicado um livreto, “Sempre-Vivas: Planta Viva, Gente Viva” destinado, principalmente, aos coletores e suas famílias.
Ainda no âmbito do Projeto, realizou-se, em Diamantina, em Julho de 1999, o I Seminário Sobre Extrativismo de Sempre-Vivas no Brasil, que teve como principal objetivo reunir órgãos governamentais e não-governamentais, responsáveis diretos e indiretos pela atividade, e comerciantes, produtores, pesquisadores e representantes de comunidades extrativistas que vêm trabalhando com as questões do extrativismo e comercialização de sempre-vivas, bem como a sua normatização.
Visando a elaboração de estratégias de ação para subsidiar o estabelecimento de políticas públicas de regulamentação da atividade, além de otimizar os esforços conjuntos entre os diversos setores, foi realizada, durante o seminário, uma Oficina de Planejamento Estratégico.
Os resultados deste evento, assim como os produtos das demais ações desenvolvidas durante os dois anos do Projeto e da análise conjunta de erros e acertos constituem o fio condutor do Grupo Gestor do Projeto Sempre-Vivas.
Apesar dos resultados já alcançados, ainda há muito a ser feito, uma vez que a busca de mudanças reais na relação entre a comunidade e o uso dos recursos naturais requer um processo de amadurecimento dos atores e setores envolvidos em direção a uma construção conjunta, ao diálogo contínuo e aos acertos necessários.
O caso do extrativismo de sempre-vivas e de outras espécies do cerrado brasileiro mostra a grande necessidade de um maior envolvimento comunitário na gestão dos recursos naturais. Galheiros é a primeira comunidade a participar ativamente do projeto, mas há muitas outras. Portanto, o Projeto Sempre-Vivas está apenas começando.

Instituto Terra Brasilis

O Instituto Terra Brasilis é uma entidade não governamental, sem fins lucrativos, criada com o objetivo de promover a conservação da natureza e o desenvolvimento social, através da concepção, gestão, coordenação, promoção ou patrocínio de atividades que busquem conciliar a conservação dos recursos naturais com o desenvolvimento econômico-social nos diversos ecossistemas brasileiros.
Buscando cumprir seus objetivos, esta instituição possui várias linhas de atuação, dentre elas a investigação e a ação especificamente voltadas para o desenvolvimento de atividades relacionadas ao setor artesanal, pensadas e executadas segundo os parâmetros desejáveis da noção de sustentabilidade ou do uso racional dos recursos naturais.
Nesse contexto, o Projeto Sempre-Vivas destaca-se como uma iniciativa pioneira na abordagem participativa adotada para tratar questões de interesses tão diversos como a conservação de importantes recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida de pequenas comunidades.
Na linha do Projeto Sempre-Vivas, o Instituto Terra Brasilis vem também desenvolvendo diagnósticos de outras importantes áreas, como o da atividade artesanal em pedra-sabão na região de Ouro Preto e Mariana (MG) e da produção artesanal com fibra de buriti, em Barreirinhas e Tutóia (MA), ambos como o primeiro passo para subsidiar projetos de uso racional dos recursos e melhoria nas condições de vida das comunidades que dependem destas atividades.







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