Bernard de Palissy, tenaz experimentador, criador da porcelana francesa, disse que aprenderíamos muito lendo o livro da Terra, sempre aberto. Conceitos de risco impregnaram o mundo e seu uso sistemático remontará no Ocidente ao período minoico encerrado com grande explosão vulcânica ocorrida no Egeu.
A primeira coisa a dizer do risco geológico é que o conceito é totalmente dependente de consciência. Sem ela, não há risco. O bebê debruçado na janela é imagem de risco evidente para nós e inexistente para ele. A exposição inconsciente do bebê ocorre entre adultos, e como! Outra dependência do conceito é circunstancial: Onde não haja pessoas ou bens expostos, não há risco. Erupção vulcânica comum no centro da Antártica não atingiria ninguém... Senão Scott ou Amundsen se ocorresse quando estiveram lá. Este exemplo hipotético dá-nos outra forma de classificar o risco: há o risco significativo do ponto de vista estatístico, como o de atravessar rua movimentada, e o não significativo, embora possível, de cair-me sobre a cabeça agora um bólido sideral. Este seria o risco fortuito. Moradores da orla do Índico estiveram expostos permanentemente ao risco dos tsunamis, mas turistas suecos em viagem, atingidos como eles, foram atingidos fortuitamente.
A humanidade tem duas posturas disputando espaços nas mentes sobre o risco geológico: Uma de resignação diante da suposição fatalista de que o acidente geológico é uma espécie de “act of god” que poderá atingir-nos, não importa o que façamos para impedi-lo. Essa presunção de inexorabilidade é de fato o grande risco a que se expõe parte da humanidade. Outra postura, mais moderna e menos desastrada, é a de aceitarmos viver expostos a riscos de baixa probabilidade. São Francisco teve grande terremoto no início do século passado e continua lá; Nápoles não está longe de Pompéia; Lisboa ocupa lugares mais expostos que os atingidos em 1755, como Tóquio em relação a 1923. Somos pretensiosos supondo que projetos sismorresistentes de japoneses e californianos funcionam à perfeição. Não é assim. São Francisco, Tóquio, Kobe tiveram estruturas novas projetadas para serem sismorresistentes; as mais velhas, quando muito, foram reforçadas, não conseguindo eu conter-me sem citar, senhores engenheiros, o surpreendente e moderno elevado de Kobe com aquela inércia toda oscilando para a direita e para a esquerda sobre esbeltos pilares centrais semelhantes a taças, e que, muito compreensivelmente, tombou no sismo de 1995.
Agora o Haiti. Previsível pelo contexto geológico, mas sem o aviso prévio dos vulcões. Há riscos de acidentes geológicos previsíveis, outros menos, alguns podendo ser mitigados, outros dificilmente. O livro citado por Palissy poderia ter-me ensinado uma infinidade de coisas, mas, incapaz de aprender muitas coisas, que direi de uma infinidade? Precisamos todos então cada um conhecer um pouco para que todos se beneficiem.
O que houve em Angra?
A repetição de Monte Serrat (Santos), Ubatuba, Caraguatatuba; Petrópolis, Rio de Janeiro e Serra das Araras em 1966/67, casos que ultrapassaram em conjunto o milhar de fatalidades, provocando a criação do Instituto de Geotécnica, hoje Fundação Geo-Rio. Crônica que basta atualizar para ficar fiel ao que houve. Em Monte Serrat já houve evento em 1928; excluamos, pois, o aquecimento global dos culpados (aliás, conveniente, que dilui culpas, simplifica promessas, distribui encargos vagamente endereçados). Excluo ilhéus que se arrumam como podem à volta de mansões, pousadas, marinas e barcos de pesca.
Antes do comentário técnico dou volta ao cenário. Não concentro no Brasil a ira santa contra inoperância de governos e deseducação do povo. Em 2004 o tsunami varreu as costas do Índico e contabilizou 250.000 mortos. O Katrina colocou de joelhos o colosso estadunidense, matou 1200 e feriu de morte o charme de New Orleans. Na Caxemira mais de 50.000 morreram num terremoto. É o balanço geológico do impúbere Século 21. Na outra extremidade a gripe aviária em mais de 15 anos tinha levado menos de 200 e a gripe suína, como pandemia, tinha matado menos que a comum. Ninguém provocou o tsunami, promoveu o terremoto, ou deflagrou o Katrina. Os que morreram no Índico apenas estavam expostos, a maioria permanentemente, e a minoria fortuitamente em viagem de turismo; portanto não é uma questão de agredir a natureza, mas de escolha urbanística errada; no nosso caso, mais a romântica temeridade insuflada pela visão paradisíaca. Aliás, se lembram das numerosas mortes em rios e cachoeiras no verão passado?
Deslizamentos na Serra do Mar, no Rio, tendem a ser mais ruinosos na fachada atlântica. Não é novidade porque ela tem vertentes mais altas que as voltadas para as margens do Paraíba do Sul; sua atividade é evidenciada nos imensos blocos esféricos de rochas ígneas, que rolam, e chapados, gnáissicos, que deslizam até base de suporte que os retenha; florestinha rala indica solo raso; grandes árvores enviam raízes por fendas ocupadas por solos profundos. Cuidado com tais associações, que escondem blocos flutuantes sob a mata.
Não criaria instituições específicas para evitar desastres futuros. Elas tendem a se eternizar sem esgotar a razão de ser. Se fosse tocar na legislação, imporia trabalho rigorosamente compartilhado entre engenheiros, urbanistas e geólogos, acabando com a vida fácil de fazer como quer a Lei para que reassumam a responsabilidade profissional que devem à sociedade. Criaria programas com prazos e metas envolvendo instituições existentes e antes de culpar o povo, ensinar-lhe-ia geologia para que aprenda a conviver com a terra. A revisão de toda a ocupação das serras deve apoiar-se no conhecimento técnico profundo, inspirar-se nas leis da natureza e ser usado para promover drástica revisão de legislação equivocada que impede o livre e comprometido trabalho profissional.
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