Estudo vai propiciar conhecimento sobre a vida submarina da área mais inexplorada do planeta
Pesquisadores do programa mundial de Censo da Vida Marinha (Census of Marine Life) que consiste no levantamento da biodiversidade das regiões de cordilheiras de montanhas submarinas no Oceano Atlântico Sul, por meio do programa Mar-Eco Atlântico Sul, apresentaram relatório da primeira expedição realizada no final de 2009.
O documento apresenta o registro de recolhimento de 13 amostras de bentos (organismos de fundo), 26 amostras de macroplancton e micronecton, 10 amostras de zooplancton e 20 amostras de microbiologia. No total, foram processados, ainda a bordo do Akademik Yoffe, 990 organismos pertencentes a, pelo menos, 360 grupos zoológicos distintos em 9,9 mil indivíduos (espécimes). O relatório também apresenta mais 23 avistagens de cetáceos (baleias e golfinhos) e a identificação de, ao menos, 13 espécimes diferentes de aves ao longo do percurso que contou com 108 horas de observação de cetáceos (baleias e golfinhos) e aves marinhas num percurso de 1,1 mil milhas náuticas.
As pesquisas de campo iniciaram no final de Outubro, em Las Palmas, Gran Canária, na Espanha, e encerram, no inicio de Dezembro, na Cidade do Cabo, África do Sul. Durante esse período, cientistas brasileiros, uruguaios, neozelandeses e russos estiveram embarcados no navio oceanográfico russo Akademik Yoffe, do Instituto Shirshov de Oceanologia, no que foi a primeira viagem de estudos sobre a vida na cordilheira meso-oceânica do Atlântico Sul.
A expedição, capitaneada, no Hemisfério Sul, pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), de Santa Catarina, percorreu cerca de 4,3 mil quilômetros levantando dados físico-químicos, peixes, microorganismos e invertebrados associados ao fundo do mar amostrados em vinte e uma estações de coleta dispostas ao longo da cordilheira, em profundidades que variavam de mil a três mil metros.
Em cada uma delas foi feita prospecção com draga de fundo para capturar organismos invertebrados bentônicos, além de amostras de sedimentos. Também foram lançadas redes com o objetivo de capturar organismos pequenos, que vivem em águas livres em grandes profundidades para trazer à superfície organismos do zooplâncton associados às águas profundas e registrados dados contínuos sobre os mamíferos marinhos como baleias e golfinhos habitantes das áreas oceânicas. Todo o material foi catalogado e está sendo estudado em terra para avaliação do que poderá, literalmente, trazer à tona inúmeras descobertas.
“Trata-se de um projeto de grande relevância técnico-científica, cujas descobertas contribuirão significativamente para o conhecimento da biodiversidade marinha e consequentemente para os avanços na área. Temos acompanhado de forma muito próxima este importante projeto. Para a instituição é motivo de orgulho e satisfação termos nossos pesquisadores envolvidos em projetos desta magnitude”, resume Valdir Cechinel Filho, Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-Graduação, Extensão e Cultura (ProPPEC) da UNIVALI.
Segundo os organizadores do site do Censo da Vida Marinha, estima-se que 230 mil espécies de animais marinhos já foram descritos. Desde que o Censo começou, em 2000, foram acrescidas pelo menos 5,6 mil espécies. A expectativa é que o trabalho amplie esse conhecimento, principalmente se levar em conta que biólogos descrevem cerca de 1,5 milhão de plantas e animais terrestres. Os mares cobrem 70% da Terra e a plataforma marinha não passa de 10%. "O que se consegue olhar é muito pouco", diz José Angel Alvarez Perez, pesquisador do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar/UNIVALI), coordenador do programa.
"É um oceano novo. Geologicamente foi o último a surgir na separação dos continentes"; por isso, ele espera encontrar variações de espécies em relação às catalogadas no oceano profundo do Atlântico Norte - entre a Islândia e o Arquipélago dos Açores - onde o trabalho está praticamente encerrado. O Mar-Eco é um dos 17 projetos do programa mundial do Censo da Vida Marinha, que envolve cientistas de mais de 80 países. Iniciado em 2000, deve ter os trabalhos de campo encerrados em 2010. É financiado pela Fundação Alfred P. Sloan e conta com outras entidades científicas governamentais.
O projeto que realiza a pesquisa no Atlântico Sul é uma continuidade de estudos realizados no Atlântico Norte e conta com a participação de cientistas de 16 instituições do Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, África do Sul, Namíbia, Nova Zelândia e Noruega. “Trata-se de uma iniciativa inédita para o Atlântico Sul e consiste no levantamento da biodiversidade e da distribuição de organismos dos ecossistemas profundos associados às estruturas geológicas da cadeia de montanhas meso-oceânicas”, aponta Perez.
Essas cadeias se estendem por 14 mil quilômetros, de Norte a Sul, e se elevam a dois mil metros de altura do assoalho oceânico no centro do Atlântico. “Além de exercer forte influência nos padrões de circulação e na distribuição da vida marinha, esta cadeia de montanhas submersas constitui uma das feições mais proeminentes e menos conhecidas do fundo oceânico”, explica Angel. Ele diz, ainda, que os objetivos da pesquisa levam em conta a necessidade de suprir a escassez de conhecimento da biodiversidade de águas profundas, ou seja, o que existe submerso no centro do Atlântico Sul: “Este conhecimento é importante uma vez que as áreas costeiras são mais antigas e podem servir como fontes de espécies colonizadoras para os habitats recentemente formados pela separação das placas tectônicas que ocorrem continuamente nestas cadeias de montanhas”, relaciona o pesquisador.
Angel destaca que algumas estruturas geológicas associadas à cadeia central não existem no Atlântico Norte: “São cadeias de montanhas perpendiculares que ligam o centro do oceano até a costa, tanto no litoral brasileiro, no Rio Grande do Sul, como na costa da África, e que podem ter importante papel na dispersão da vida marinha profunda”, argumenta. Outro ponto importante, segundo o pesquisador, é o fato do Atlântico Sul ser o último oceano a surgir na separação dos continentes conectando esse oceano a outros três já existentes: o Índico, o Antártico e o Pacífico.
A pesquisa pretende apontar como essa conexão tem afetado a biodiversidade profunda do Atlântico e dos oceanos vizinhos. Perez também lamentou que os recursos para o projeto não tivessem sido expressivos e por não terem conseguido ajuda do Governo. Por isso, não puderam usar equipamentos sofisticados, como submarinos teleguiados e robôs subaquáticos. "Espero que os resultados que conseguirmos neste projeto piloto chamem mais financiadores", conclui.
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