Revista ECO•21

Av. N. Sra. Copacabana 2 - Gr. 301 - Rio de Janeiro - RJ
CEP 22010-122 - Tels.: (21) 2275-1490 / 2275-1499


Edição 158
No som e nas cores do Kuarup
Denise Carvalho
Curadora da exposição fotográfica Kuarup – A última viagem de Orlando Villas Boas e Diretora da Aori Produções Culturais
 
Nestes dias, a aldeia ganha um novo ritmo: por horas a fio ouvimos o som das flautas uruá e pouco a pouco toda a paisagem se pinta com o vermelho do urucum, o azulado do jenipapo e o branco retirado do barro de tabatinga. São os índios que um a um se apresentam ao kuarup.
A cerimônia para as etnias do Alto Xingu é uma festa em homenagem aos mortos, uma celebração de passagem em que o espírito do homem vai habitar a aldeia dos mortos. Um toro de madeira da árvore marí é cortado e tem a base enterrada no pátio da aldeia. Os homens se juntam ao redor do toro para entalhar e pintar formas humanas. Depois ele é adornado e, neste momento, o espírito do homenageado ganha direito a uma nova vida nas formas do kuarup.
Tendo como base os registros que o fotógrafo Renato Soares realizou da cerimônia fúnebre que mais de 2 mil xinguanos dedicaram, em 2003, ao sertanista Orlando Villas Boas, surgiu a inspiração para exposição fotográfica itinerante Kuarup – A Última Viagem de Orlando Villas Bôas.
A partir do detalhamento estético apresentado nas fotos de Soares foi possível pensar em um projeto que abordasse um tema histórico relevante, homenageando Orlando e colocando em foco a temática indígena, já que o Índio Brasileiro, infelizmente, continua a ter que ser defendido para sobreviver à ganância.
Os irmãos Villas Bôas – Orlando, Cláudio e Leonardo – pertenciam ao lado de antropólogos como Eduardo Galvão e Darcy Ribeiro e o médico Noel Nutels a um grupo de intelectuais responsáveis pela idéia de que a terra indígena devia ser preservada em favor da manutenção da riqueza e da diversidade cultural em oposição ao discurso de universalização de uma cultura hegemônica. A luta pelos direitos indígenas a uma cultura própria representou uma ruptura intelectual e política, na qual os Villas Bôas tiveram um papel decisivo.
No cenário atual, não apenas brasileiro, mas global, quando o planeta é tão ameaçado e agredido, as culturas antigas de povos como os do Xingu, dos Andes, da África - que trazem como ponto central o respeito e a valorização da Mãe Terra, fonte inesgotável de vida - devem ser ainda mais destacadas.
Imbuídos na preservação de uma importante parte da cultura brasileira que não poderá se perpetuar sem a união de esforços das esferas pública e privada da sociedade, a exposição propõe ao visitante conhecer um pouco da história de Orlando Villas Bôas, bem como refletir sobre o papel da cultura indígena no Brasil contemporâneo.
A curadoria foi compartilhada por 3 pessoas, um trabalho complementar de equipe. Cuidei do conceito geral da exposição, costurando o desenvolvimento temático que parte da história da vida do Orlando, passa por seu aspecto humano mais cotidiano - representado por seus objetos pessoais e memórias de família e avança para um ambiente multimídia. Pretende-se relatar de forma não linear a profusão de realizações de um grande brasileiro que dedicou sua vida à defesa do primeiro habitante do nosso país e, finalmente, sua passagem para a esfera pós-morte dentro de uma perspectiva do nosso índio.
Noel Villas Bôas, filho de Orlando, detentor da sistematização da memória do seu pai, juntamente com seu irmão, Orlando Villas Bôas Filho e da viúva, Marina Villas Bôas, cuidou da seleção do material mais representativo da riqueza do deixada por Orlando. Trata-se de uma vida tão rica, tão cheia de realizações importantes, impactantes e de efeito profundo para a preservação da cultura indígena que havia o risco de nos perdemos ao fazer a síntese necessária à mostra desse tipo. Desse risco, o trabalho curatorial de Noel junto ao acervo da família, nos salvou.
Gilberto Maringoni, outra peça importante em nosso trabalho, é arquiteto, jornalista, escritor, cartunista, professor e um grande historiador. Seu trabalho foi muito importante para que pudéssemos amarrar o sentido dessa longa e complexa história. Maringoni teceu a ligação entre todos os elementos da vida do Orlando pensados por mim para a mostra, encaixando o trabalho de Noel no seu devido e importante lugar.

-----

A Aori Produções Culturais é dirigida pela capixaba Denise Carvalho, que atuou por 20 anos em agências de publicidade, no comando de contas públicas e privadas. Denise foi Diretora de Inteligência de Mercado do portal UOL, Diretora de Marketing da AOL e Vice-Presidente da Master Propaganda. Formada em Línguas e Letras pela PUC do Rio de Janeiro.
“Não sabemos trabalhar se não for por um projeto no qual realmente acreditamos. Essa é nossa essência básica, é o que norteia a empresa desde a sua concepção” – complementa Denise Carvalho – e conclui: “Aori é uma palavra derivada da expressão Iyá Ori, que na língua Yorubá, significa Mãe da Cabeça. Trata-se de uma referência à Iemanjá, o orixá que rege a cabeça dos seres humanos. Seu campo de atuação é a individualidade, a inteligência, aquilo que o ser humano traz de mais íntimo. Iemanjá nos dá o axé que nos faz criar e executar”.

www.aori.com.br












Stein

Envolverde

Mercado Ético

Archipiélago


IPEMA

© Tricontinental Editora