Um inverno extremamente severo na América do Norte, Europa e China, a recessão e a preocupação com outros temas desviaram a atenção sobre uma ação preventiva contra a mudança climática, apesar do acordo de princípio sobre esta necessidade. Isso é particularmente certo nos Estados Unidos, onde os debates sobre a reforma sanitária e outros assuntos polêmicos reduziram a capacidade do Presidente Barack Obama de assumir a liderança indispensável para enfrentar essa ameaça. Na verdade, a conferência sobre mudança climática, realizada em dezembro em Copenhague, produziu boas e más notícias sobre este problema que coloca em risco a segurança e a sustentabilidade do planeta, e que exige uma urgente ação conjunta.
A boa notícia foi o consenso sobre a importância de reduzir as emissões de gases-estufa em níveis manejáveis e o progresso em alguns elementos fundamentais que um acordo internacional deverá incluir. Das más notícias, a mais significativa foi que ficaram claras e não resolvidas diferenças entre as posições das principais partes, sobretudo entre os países mais desenvolvidos e as nações em desenvolvimento.
Muito importante é a posição da China, a maior fonte de emissões, que nos últimos anos se converteu na economia com o mais rápido crescimento do mundo. Porém, a China contribuiu muito menos para o acúmulo de gases-estufa – e em menor proporção ainda se considerarmos essa contaminação por habitante – do que os Estados Unidos e outros países responsáveis pela maior parte da grave ameaça da mudança climática.
Devemos empregar o atual desgaste do apoio à ação contra a mudança climática como oportunidade para resolver as questões que dividem as posições e dar respostas às advertências dos cientistas, impactadas por recentes diferenças entre alguns deles. Um dos resultados mais importantes de Copenhague foi que os países mais desenvolvidos tiveram de ceder, contra vontade, à China e a outras nações emergentes, o papel político que lhes corresponde de acordo com suas crescentes dimensões econômicas. Assim, confirma-se que o centro geopolítico virou para a Ásia.
A China está comprometida em iniciativas que a converterão em líder de uma transição para uma economia com baixas emissões de carbono. Mesmo assim, uniu-se a outros importantes países emergentes – Brasil, Índia e África do Sul – para insistir que as ações dos países em desenvolvimento contra a mudança climática sejam voluntárias, enquanto o compromisso das nações mais desenvolvidas seja obrigatório. As possibilidades de acordo neste ponto se deterioraram desde Copenhague.
Uma questão primordial é colocar à disposição das nações em desenvolvimento o financiamento e o acesso à tecnologia que precisam para reduzir suas emissões e, ao mesmo tempo, expandir suas economias. Tanto a mudança climática como a crise econômica têm suas raízes nas insuficiências do sistema existente, que agora acentua dramaticamente as abomináveis consequências da brecha entre ricos e pobres. O investimento necessário para isso será de US$ 10 bilhões durante os primeiros anos e uma quantia muito maior a partir de 2020. Embora o número possa parecer pouco realista, é muito menor do que o que se gasta em conflitos militares, particularmente no Iraque e Afeganistão.
É necessária uma mudança fundamental no modo de pensar para superar este desafio. As nações sempre foram capazes de dar prioridade às ameaças à sua própria segurança. Os riscos que surgem da mudança climática constituem a maior ameaça à segurança jamais apresentada à comunidade mundial inteira. Por isso, são essenciais novos ímpetos para negociar um acordo obrigatório que estenda ou substitua o Protocolo de Kyoto, que expirará em 2012.
É um tremendo desafio que exigirá de todas as nações a aceitação de que os interesses de seus próprios povos só podem ser resguardados com uma cooperação que vá além de seus estreitos interesses nacionais.
----
ECO•21 agradece a Terramérica e à Agência Envolverde
|