Revista ECO•21

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Edição 159
Xeque mate no IPCC?
Joan Buades
Articulista de ALBA SUD e pesquisador da Universidade das Ilhas Baleares em temas de turismo, meio ambiente e desenvolvimento
 
Dois meses depois do fiasco de Copenhague, vão se acumulando os indícios de que o "pior cenário possível" vai abrindo caminho. A ‘patriótica’ atitude do presidente Obama na Cúpula acabou de enterrar qualquer resquício de compromisso real dos Estados Unidos com a proteção do clima. Em um passo a mais rumo à sua "normalização" institucional, Obama acaba de dar um giro radical, pró-nuclear, à política energética do principal Estado contaminante do Planeta, prometendo avalizar com 8.300 bilhões de dólares duas novas centrais nucleares na Geórgia, rompendo com 30 anos de congelamento de novos projetos diante do temor de novos acidentes, como o do Three Mile Island (Pensilvânia, EUA, 1979) ou o de Chernobyl (Ucrânia, 1986). Se em Copenhague prometeu, pateticamente, 85 milhões de dólares em energias limpas (1% do aval nuclear), agora arremata a jogada com o velho argumento das corporações de que "a energia nuclear é a melhor tecnologia para reduzir as emissões que causam Efeito Estufa"(1).
A saída do presidente estadunidense do armário atômico coincidiu com a demissão de Yvo de Boer, como chefe da diplomacia climática da ONU e cabeça visível da Cúpula de Dezembro 2009. Além da já batida desculpa do esgotamento pessoal, a renúncia põe em evidência duas tendências de fundo. A primeira é que a reunião de Cancun (a chamada COP-16), do final do ano, no México, está condenada ao fracasso por falta de interesse real dos principais Estados e corporações industriais (de Chinamérica até a União Europeia, passando pela Índia e pelo Brasil), os mesmos que foram responsáveis pelo fracasso da mais importante cúpula jamais celebrada desde o nascimento das Nações Unidas, em 1945. Em segundo lugar, De Boer, vai para a KPMG(2), uma grande consultoria financeira internacional, já que, segundo confessa, "sempre afirmei que a política deve prover o marco político adequado; as soluções reais devem vir da economia"(3). Isto é, não haverá um novo "desastre" diplomático e político como o de Copenhague porque o problema climático passará a ser gerido a partir das corporações transnacionais e suas assessorias financeiras.
Essa falta de perspectivas reais no que se refere a políticas ativas de proteção do clima pode afetar a viabilidade do projeto Yasuní-ITT, no Equador, a proposta mais inovadora apresentada em Copenhague para evitar novas emissões petroleiras, proteger a selva e as comunidades que esta abriga e afiançar uma cooperação Norte-Sul baseada na ideia de reparar a histórica dívida climática. O presidente equatoriano, Rafael Correa, não duvidou em relegar ao segundo plano esse projeto emblemático, voltando-se ao "business as usual" com as petroleiras que estão destroçando a Amazônia. Como resume o semanário alemão Die Zeit, "uma esperança a menos"(4).
Para os que têm acompanhado nossas crônicas sobre a Cúpula, essa ressaca pós Copenhague é péssima; porém, de nenhuma maneira surpreendente. Na realidade, o mais importante que está sendo “cozido” na cozinha chamada "superclasse global"(5) é o assassinato do IPCC(6), o Painel Internacional sobre Mudança Climática, o organismo científico auspiciado pela ONU, que tem gerado informes técnicos que justificam o alarme climático global. Em meio ao caos global, as corporações tentam aproveitar a "janela de oportunidade" de qualquer erro de transcrição de dados como "prova" da mentira universal acerca do aquecimento global. Esses colaboracionistas do terrorismo petrolífero apóiam sua ação de sabotagem no trabalho sofisticado e sutil de serviços secretos de elite, segundo David King, conselheiro científico de Tony Blair entre 2000 e 2007. Seu objetivo é o término do consenso científico e seu eco comunicativo sem fronteiras. Impedir que a realidade da desigual vulnerabilidade do Sul e do Norte ante a mudança climática seja conhecida é sua prioridade absoluta pelas implicações políticas e de segurança que trariam para o poder corporativo global. Nada temem além do aparecimento do 5º Relatório Climático Global, previsto para 2014, e centrado nos impactos regionais detalhados da catástrofe em marcha. Nicholas Stern, famoso por seu relatório de 2006 sobre o risco econômico da mudança climática, não somente acaba de desmentir os dardos negacionistas, mas reconhece que "subestimou os perigos do aquecimento global" e que, se continuamos agindo como se o clima não importasse, seus custos poderiam ser muito superiores aos que havia calculado.

Notas:
(1) http://www.nytimes.com/2010/02/17/business/energy-environment/17nukes.html
(2) http://www.kpmg.com/global/en/Pages/default.aspx
(3) http://www.ft.com/cms/s/0/f612e228-1cbc-11df-8d8e-00144feab49a.html
(4) http://www.zeit.de/2010/08/Ecuador
(5) http://en.wikipedia.org/wiki/Superclass_(book)
(6) http://www.ipcc.ch/












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