Revista ECO•21

Av. N. Sra. Copacabana 2 - Gr. 301 - Rio de Janeiro - RJ
CEP 22010-122 - Tels.: (21) 2275-1490 / 2275-1499

 


. Edição em PDF Eco_21_Video
Edição 60
O mal na ponta da unha
Xico Vargas
Jornalista
 
“O ministério da Saúde adverte: este batom pode causar impotência sexual”. Isso ainda não aconteceu, mas pode não estar longe o dia em que os cosméticos serão reconhecidos como tão perigosos quanto os cigarros. Por enquanto, o verso das embalagens de cosméticos costuma trazer impressa extensa relação dos componentes da fórmula. São tantos e designados por nomes tão pouco familiares ao consumidor que a maioria não tem idéia dos seus efeitos senão pelo perfume, a cor ou o efeito. Mas é naquela sopa de letrinhas e números que se esconde o perigo. Há um ano, o Grupo de Trabalho de Meio Ambiente, uma ONG estadunidense, produziu um relatório apavorante, que só agora chega ao Brasil.


Por ele, fica-se sabendo que marcas consagradas botaram no mercado esmaltes de unha, antitranspirantes, shampus e condicionadores, entre outros cosméticos, cujas fórmulas misturam produtos químicos não testados ou não suficientemente avaliados em relação aos danos à saúde das pessoas.
O trabalho gira em torno da sigla DBP, que assinala a presença de Dibutyl Phthalate nos produtos. DBP é apenas mais um das centenas de agentes químicos que contaminam o mundo industrializado. Nos esmaltes, entra para dar flexibilidade à película que se forma sobre a unha. Em outros produtos, como shampu, ajuda os elementos ativos a entrar e se fixar no couro cabeludo ou na pele.
Seria bom, não tivessem os pesquisadores do Centro para Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos descoberto que 289 mulheres submetidas a testes tinham DBP em seus corpos. Pior que isso é saber que experiências realizadas com cobaias mostraram que a exposição ao Dibutyl Phthalate (DBP), além de transmitida na amamentação, causa defeitos de nascença, principalmente nos machos: atrofia dos testículos, reduzida taxa de espermatozóides e defeitos na estrutura do pênis.
Menos pelo fenômeno que descortinou, o trabalho do Centro de Prevenção (CDC) aponta para um problema muito mais grave. Tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil, os agentes químicos que entram na composição de produtos oferecidos ao consumidor estão acima de controle.
Pela lei ambiental dos EUA, o DBP é considerado substância tóxica, mas às empresas de cosméticos é permitido usá-lo em seus produtos. Cria-se, assim, o paradoxo segundo o qual um despejo de apenas 5 kg de DBP no ambiente deve ser informado às autoridades ambientais, mas as indústrias acrescentam milhares de quilos nos esmaltes sem ter que realizar testes de segurança.
No Brasil é um pouco diferente. Despejar no ambiente é mais ou menos igual a botar no esmalte. Barulho, mesmo, só quando cai óleo no mar.
Nasceram centenas de crianças com degenerescência cerebral em Cubatão, antes que as indústrias fossem obrigadas a filtrar os gases tóxicos que expeliam pelas chaminés. Não tem mais de um par de anos a legislação que obrigou os fabricantes de adubos químicos e pesticidas a recomendar que seus produtos sejam manuseados com luvas.
Nem por isso se poderia dizer que o Brasil é a Casa da Mãe Joana na questão ambiental. Nos Estados Unidos, a poderosa FDA fiscaliza com rigor a produção de alimentos e suas embalagens. Para o comércio de outros produtos, porém, as regras são muito diferentes. Em 25 anos de existência do Ato de Controle de Substâncias Tóxicas só foi possível banir o chumbo da tinta e da gasolina. Mesmo quando a indústria concorda em realizá-los, os testes nunca são completos. Pode-se examinar os efeitos de determinado produto no sistema nervoso, mas deixa-se de fora a possibilidade de ser cancerígeno.
O caminho é para lá de tortuoso. É preciso provar um risco de dano acima do razoável à saúde humana para conseguir que determinado produto seja retirado do mercado. Ao mesmo tempo, é difícil fazer esta descoberta, porque não se podem realizar testes ou exigir estudos antes de provar que estão ocorrendo exposições perigosas de pessoas aos venenos. Muito parecido com o que ocorreu no Brasil em relação ao amianto, largamente empregado em materiais isolantes e pastilhas e lonas de freio.
Aqui, para ficar na indústria do cosmético, uma rápida visita a qualquer prateleira de supermercado recolhe um punhado de exemplos.
As embalagens do esmalte Colorama incolor, extrabrilho, marca recém-comprada pela L’Oreal à Revlon, expressam com clareza a presença de DBP na fórmula. A empresa anuncia o esmalte como um tipo “de longa duração”. Percebe-se, por isso, o que está o agente químico fazendo ali. É a mesma substância utilizada em brinquedos de plástico para torná-los mais flexíveis. No esmalte, portanto, serve para retardar que se fragmente. A empresa não sabe ainda o que responder sobre a presença de DBP em seu esmalte e tampouco conhecia o relatório produzido pelo Grupo de Trabalho de Meio Ambiente, embora o assunto tenha rendido notícias nas TVs CNN e ABCNews.
Pelo menos, seu Serviço de Atendimento ao Consumidor (0800-7010-114) trata quem liga com urbanidade. Mais duro é o caminho para quem busca em 0800-1111-45 informações sobre o papel do DBP na fórmula do esmalte de unhas Risqué. “Isso não é aqui. Entre no nosso site www.niasi.com.br e escreva uma carta”. Como a empresa trata e-mail de “carta”, não espanta que o site esteja fora do ar. É pena, porque, na própria embalagem, o esmalte Risqué reúne contradições interessantes. Além de explicar que “pode conter” 12 corantes relacionados numa salada de letras e números (aliás, “pode conter” é um traço comum a cosméticos de variadas marcas), recomenda que o produto seja mantido longe das crianças. Ao mesmo tempo, oferece uma coleção de figurinhas (coraçõezinhos, estrelinhas) e ensina como as meninas devem fazer para grudá-las às unhas recém-pintadas. Não é uma graça?
Pior que isso, só o “esmalte da Xuxa”. Além do carimbo “Xuxa Produções”, a embalagem informa que pertence à “Linha Impala” e sai da produção do Laboratório Avamiler de Cosméticos. O que tem no vidro não se explica na embalagem.
É estranho, porque o Brasil já tem legislação que obriga os fabricantes a mostrar o que botam nos produtos, ainda que isso esteja sempre expresso em siglas e nomes técnicos. Aqui, cuida da qualidade do que se consome a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, repartição do Ministério da Saúde.
Lá nunca se ouviu falar do relatório estadunidense, mas toda a legislação que se produziu no país sobre a fiscalização de produtos está em www.anvisa.com.br de forma clara e organizada. Padece de um defeito: as leis e portarias que temos tratam de normas e procedimentos para a fabricação. Não examinam as fórmulas que, no caso dos cosméticos, apenas repetem o que se faz nos países de origem.
As análises realizadas nos Estados Unidos, apesar de escassas, indicam perigos igualmente em outros componentes dos cosméticos, com cânfora, tolueno e monobutyl phthalate. Também relacionam produtos de marcas como Revlon, Proctor & Gamble, Maybeline, Lever Brothers, Palmolive, Oil of Olay e Cover Girl, entre várias outras.
O texto da pesquisa, na íntegra e em inglês, pode ser solicitado (em versão PDF) através do e-mail da Revista ECO•21 (eco21@eco21.com.br). No texto, é só pesquisar por DBP e assustar-se com a leitura. Até lá, na próxima compra de cosméticos, é bom olhar com atenção o verso das embalagens.







Archipiélago



IPEMA

© Tricontinental Editora