Revista ECO•21

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Edição 167
O Censo da Vida Marinha 2010 revela um mundo surpreendente
Ronald O'Dor
Cientista Sênior do Census of Marine Life
 
No final dos anos 90, os principais cientistas marinhos compartilharam a preocupação sobre o fato de que o conhecimento da humanidade sobre a vida nos oceanos estaria muito aquém do nosso desejo e necessidade de conhecimento. Alguns realçaram a questão, “Que tipos de vidas habitam os oceanos?” Referiram-se às oportunidades para descobrir novos tipos de vida e para catalogar e calcular a diversidade total da vida no vasto oceano global. Outros perguntaram: “O que vive onde?” Assinalaram a necessidade de se estabelecerem endereços da vida marinha e desenharem mapas corretos dos seus hábitats e suas migrações. Outros ainda perguntaram, “Qual é a quantidade de cada tipo de vida?” E apontaram para o apetite humano pelos frutos do mar. Todos se preocuparam com as alterações na vida marinha e com a necessidade de melhorar a gestão com um conhecimento seguro.
No ano 2000, os cientistas fundaram o Censo da Vida Marinha, convergindo numa estratégia: um Censo mundial para avaliar e explicar a diversidade, a distribuição e a abundância da vida marinha. Os fundadores organizaram o Censo com base em três principais questões: o que é que viveu nos oceanos? O que é que vive nos oceanos? O que é que viverá nos oceanos? Criaram um programa para explorar os limites do conhecimento da vida marinha e concordaram em apresentar os resultados no ano de 2010.
Pesquisando em arquivos, saindo para mais de 540 expedições em todos os reinos oceânicos e compartilhando com outras organizações e programas, os 2.700 cientistas pertencentes a mais de 80 nações que se tornaram a comunidade do Censo, reuniram, aumentaram e organizaram o que se sabe sobre a vida nos oceanos. Desenharam linhas de base para medir as alterações da vida marinha após as alterações naturais e as ações humanas. Igualmente importante, o Censo delineou sistematicamente, pela primeira vez, o oceano desconhecido.
Muitos livros, documentos, websites, vídeos, filmes, mapas e bases de dados constituem e relatam o Censo agora. O que segue resume os seus achados, descreve os seus legados e nos mostra como é que funcionou.

Diversidade

O Censo encontrou uma inesperada profusão de espécies, que são a força da diversidade. Aumentou o conhecimento estimado de espécies marinhas, de 230.000 para cerca de 250.000. Dentre os milhões de espécimes recolhidos tanto em águas conhecidas como em águas raramente exploradas, o Censo encontrou mais de 6.000 espécies potencialmente novas das quais completou formalmente mais de 1.200 descrições. Descobriu que as espécies raras são frequentes.
Com o seu arquivo digital coletivo ampliado para cerca de 30 milhões de observações, o Censo compilou as primeiras comparações regionais e globais da diversidade de espécies marinhas. Ajudou a criar a primeira lista exaustiva das espécies marinhas conhecidas, que já ultrapassam as 190.000 em Setembro de 2010, e também ajudou a compor páginas web para mais de 80.000 delas na Enciclopédia da Vida.
Ao aplicar a análise genética numa escala sem precedentes a uma base de dados de 35.000 espécies de grupos de vida marinha amplamente diferentes, o Censo traçou gráficos da proximidade e distância de relações entre espécies distintas, mostrando uma nova imagem da estrutura genética da diversidade marinha. Com a análise genética, frequentemente apelidada de codificação por barras (barcoding), o Censo reduziu diversidades aparentes ao revelar que alguns organismos foram equivocadamente considerados como separados, mas, no geral, as análises expandiram o número de espécies, especialmente o número de tipos de micróbios diferentes, incluindo bactérias e arqueanos.
Depois de todo esse trabalho, o Censo ainda assim não conseguiu estimar de forma segura o número total de espécies, os tipos de vida, conhecida e desconhecida no oceano. Logicamente poderia se extrapolar para pelo menos um milhão de tipos de vida marinha que ganha, assim, a categoria de espécie na vida marinha e para dezenas ou, inclusive, centenas de milhões de tipos de micróbios.

Distribuição

O Censo descobriu criaturas vivas em todos os lados para onde olhava, mesmo naqueles lugares onde o calor derrete o chumbo ou nas águas congeladas do mar e onde a luz e o oxigênio são escassos. Expandiu hábitats e variedades conhecidas onde se sabe que existe vida. Descobriu que nos hábitats marinhos, o extremo é normal.
Com sondas sonoras, satélites e aparelhos eletrônicos, muitas vezes transportados pela própria vida marinha, o acompanhamento de milhares de animais pelo Censo da Vida Marinha traçou mapas de rotas migratórias de inúmeras espécies e criou gráficos com os seus pontos de encontro e auto-estradas secundárias através do oceano interligado. As localizações dos animais que foram monitorados à medida que nadavam e mergulhavam revelaram onde é que eles vivem e onde morrem. O Censo da Vida Marinha encontrou zonas de temperatura favorecidas pelos animais e viu a imigração para novas condições, como o derretimento do gelo. Agora, qualquer pessoa pode ver a distribuição de uma espécie, digitando o nome da espécie em www.iobis.org, um website que acessa os nomes e os “endereços” de espécies compiladas na base de dados do Censo da Vida Marinha Global.
Com os nomes e endereços das espécies compiladas na base de dados, o Censo descobriu e traçou mapas de locais de alta e baixa diversidade de vida marinha globalmente. As espécies costeiras mostraram diversidade máxima no trópico do Pacífico Ocidental, ao passo que a grande diversidade de espécies que frequentam o mar aberto atingiu o seu máximo nas amplas bandas de latitude média em todos os oceanos. Nas águas profundas e no fundo do mar profundo, o Censo descobriu padrões de vida em cordilheiras oceânicas, montes marinhos, planícies abissais e nas margens dos continentes, definindo novas províncias e classificações. Os mesmos dados do Censo revelam locais aonde ainda não foram os exploradores: o oceano desconhecido. Para mais de 20% do volume do oceano, a base de dados do Censo ainda não tem nenhum registro, e muito poucos registros para outras vastas áreas.

Abundância

Depois de estabelecer linhas de base históricas a partir de observações, capturas e mesmo em menus de restaurantes, o Censo documentou um decréscimo de quantidades e tamanhos, inclusive dentro de uma mesma geração humana. Em alguns casos, para estimular a conservação, o Censo documentou a recuperação de algumas espécies. A história mostra que as pessoas começaram a capturar a vida marinha há muito tempo, e as suas extrações estão muito além daquilo que alguma vez se pensou. Historicamente, o excesso de pesca e de destruição de hábitats são as principais ameaças à vida marinha relacionadas com atividades humanas. Com sonares, o Censo observou dezenas de milhões de peixes que se reúnem rapidamente e nadam em cardumes tão grandes quanto a Ilha de Manhattan, e também viu um grande número de animais se movimentarem em horários regulares, movendo-se para trás e para frente até a superfície voltando a se submergir centenas de metros abaixo. O Censo afirma que, pelo seu peso, a maioria da vida marinha é microbiana, até pelo menos 90%. O peso dos micróbios marinhos da Terra é o equivalente a cerca de 35 elefantes por cada ser humano.
Ao analisar observações indiretas de navios oceânicos desde 1899, os investigadores do Censo descobriram que o fitoplâncton produtor de alimentos perto da superfície diminuiu globalmente. Os mapas do Censo do fundo do mar global mostraram que a entrega de alimentos era mediante uma espécie de “nevada” de água de cima controlando a massa de seres vivos no fundo. No fundo do mar, a quantidade de vida assume o seu pico nas regiões polares, ao longo das margens continentais, onde as correntes frias surgem em direção à superfície e divergem às correntes equatoriais. Nas margens do mar profundo, o Censo descobriu inesperadamente camadas de bactérias e recifes de coral que se estendem por centenas de quilômetros. Embora a prova irregular de fitoplâncton perto da parte inferior da cadeia alimentar e a prova mais extensa de animais de grande porte no topo da cadeia alimentar sugiram declínio, se o peso total da vida no oceano está mudando ainda é uma incógnita.

Legados

No final da década, o Censo deixa legados de conhecimento, tecnologia e hábitos de trabalho. Quanto ao conhecimento, o Censo registrou as suas descobertas em mais de 2.600 documentos, muitos dos quais se encontram on-line e são de acesso livre. O Censo construiu o maior repositório de dados sobre espécies marinhas por meio da compilação de observações e adicionando as suas próprias e, em seguida, criou uma infraestrutura acessível ao público para pesquisas futuras, que os governos se comprometeram em manter. O Censo traçou linhas de base para ajudar as nações e a Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica a selecionar áreas e estratégias para uma maior proteção da vida marinha. As suas linhas de base ajudarão a avaliar as alterações do hábitat, como o aquecimento de água ou os danos causados por vazamento de petróleo.
Em relação à tecnologia, o Censo apresentou uma nova tecnologia, como os códigos de barras de DNA para a identificação da vida marinha. Espalhou microfones desde a Califórnia, passando pelo Canadá, até o Alasca, com o objetivo de monitorar o oceano global, criando redes de monitoramento para os animais, inventou estruturas de controle de recifes autônomos (Autonomous Reef Monitoring Structures) para padronizar a avaliação global da vida dos recifes e manteve sistemas acústicos para medir a abundância ao longo de dezenas de milhares de quilômetros quadrados. Em conjunto, essas tecnologias mostram que o incipiente Sistema de Observação do Oceano Global (Global Ocean Observing System) pode observar a vida, bem como a temperatura da água e das ondas.
Quanto aos hábitos de trabalho, o Censo reuniu cientistas com diferentes interesses e de diferentes nações sob o mesmo teto, de forma a utilizarem os mesmos protocolos para a amostragem da vida marinha desde o fundo do mar até perto da costa, para acelerar a adoção de boas técnicas, para desenvolver a capacidade econômica e para começar iniciativas no domínio da investigação marinha. Fortaleceu parcerias de bolsistas em ciências humanas e ciências naturais e sociais para a utilização do arquivo de pesquisa para construir o retrato da vida nos oceanos no passado e avaliar as alterações de diversidade, distribuição e abundância. Durante o processo, o Censo constatou que as causas que separam o conhecido, o desconhecido e o incognoscível sobre a vida marinha se dividem em cinco categorias: 1) a invisibilidade do passado perdido, 2) a vastidão dos oceanos, 3) as dificuldades em reunir o conhecimento das partes para o conhecimento de um todo, 4) as vendas que colocamos em nós mesmos, optando por não querer saber nem investir recursos, e, 5) as imprevisíveis perturbações, como os tsunamis.
O Censo mostrou que sabemos menos sobre os pequenos do que sobre os grandes e que, geralmente, o conhecimento é inversamente proporcional ao tamanho. Mas alguns padrões ultrapassaram o nosso campo de visão e, para esses, o Censo criou ferramentas “macroscópicas”, para entender regiões ou conjuntos de dados muito grandes, com a finalidade de superar os limites do conhecimento. O Censo descobriu um oceano cada vez mais repleto de comércio que se evidencia por meio da tecnologia. Com a proposta de determinar pontos de referência para a diversidade, distribuição e abundância das espécies, o primeiro Censo da Vida Marinha documentou um oceano em mudança, com maior diversidade, mais conectado mediante a distribuição e os movimentos, mas impactado pelos seres humanos e muito menos explorado do que se pensava.
O Censo multiplicou os expertos qualificados, desenvolveu e difundiu tecnologias para a descoberta e o monitoramento; melhorou o acesso aos dados e informou sobre as decisões relacionadas à conservação das espécies e das regiões marinhas. Os legados do Censo da Vida Marinha - 2010, que são pontos de referência do conhecimento, uma grande quantidade de novas tecnologias e a colaboração através das fronteiras, prometem mais benefícios para a humanidade e para os oceanos.
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