Revista ECO•21

Av. N. Sra. Copacabana 2 - Gr. 301 - Rio de Janeiro - RJ
CEP 22010-122 - Tels.: (21) 2275-1490


.Eco_21_Video
Edição 174
A natureza que o mestre Aziz Ab Sáber ensina
Leila Kiyomura
Jornalista do Jornal da USP
 
Há mais de seis décadas, o geógrafo Aziz Ab’Sáber vem se dedicando ao ensino e à pesquisa da paisagem brasileira. Recentemente, o seu trabalho foi reverenciado com o lançamento do livro “A obra de Aziz Nacib Ab’Sáber”, da Editora Beca. A organização é de uma equipe de geólogos que recuperou sua vasta produção bibliográfica – cerca de 400 trabalhos – em vários campos da geografia e áreas afins.

“A minha vida é o trabalho. A energia, a saúde e o coração. Tudo funciona com a cabeça no trabalho.” É com esse bom humor que o professor Aziz Ab’Sáber revela a energia dos seus 86 anos. Um tempo que foi imprimindo em uma produção bibliográfica iniciada em 1948, que chega a 400 trabalhos sobre vários campos da geografia e áreas afins. E em uma trajetória que começou na Universidade de São Paulo, com uma vaga de jardineiro: “Eu queria tanto trabalhar na USP, que na época era muito fechada. O professor de Geologia Histórica, Kenneth Caster, me chamou, dizendo que gostaria muito de me contratar como seu assistente sênior, mas só tinha a vaga de jardineiro”.
Aziz, bacharel e pós-graduado, aceitou o cargo e os salários de jardineiro. Mas, depois de três meses, já surgiu a oportunidade de ser prático de laboratório, que foi o cargo que ocupou até defender a livre-docência, em 1965. E foi assim, semeando de sol a sol nos campos da geografia, que o prático de laboratório se tornou o cientista considerado referência no Brasil e no mundo na preservação ambiental. Ganhou, entre outros, o Prêmio Internacional de Ecologia e o Prêmio UNESCO para Ciência e Meio Ambiente, além de se tornar Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
A história de trabalho, pesquisa e dedicação do professor está sintetizada no livro “A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber”, que está sendo lançado pela Editora Beca, com o patrocínio da Petrobras. A organização da edição contou com uma equipe de cientistas especializados em geologia, geografia e história: May Christine Modenesi-Gautieri, Andrea Bartorelli, Virginio Mantesso Neto, Celso Dal Ré Carneiro e Matias B. de A. L. Lisboa.

Artigos selecionados

São 588 páginas divididas em 30 capítulos, que trazem artigos escolhidos pelo professor Aziz. No primeiro, o geólogo Andrea Bartorelli resgata um relatório do professor Ab’Sáber, apresentando um fac-símile de uma ocorrência no sítio da barragem de Tucuruí, no Pará. O leitor pode acompanhar o trabalho datilografado e as anotações escritas à mão pelo próprio professor. “Para revelar o acervo de conhecimento de um intelectual, não existe nada melhor do que os manuscritos de um trabalho realizado”, justifica Bartorelli. “No relatório, de caráter documental, o autor recorre a desenhos, anotações e esboços, foca o resultado e relega a segundo plano a formalidade acadêmica.”
No Capítulo 2, o geógrafo e professor da USP Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro faz uma homenagem ao amigo compondo um painel e contextualizando a sua obra. “A evolução de nossa geografia nesta virada de século já permite que, ao lado das pioneiras avaliações que dela possam ser feitas, também se exalte os nossos geógrafos”, observa. “Dizem que, no foco da obra de uma figura exponencial da cultura, seja nas artes ou nas ciências, é impossível dissociar a obra da vida do sujeito sob análise. Quanto à vida, nestes últimos anos, nos muitos eventos em que tem participado, cercado do carinho dos colegas acadêmicos, mas sobretudo dos jovens iniciantes na ciência geográfica, o próprio Ab’Sáber vem discorrendo sobre ela. E o faz de um modo muito sincero e comovedor, para deleite dos que o escutam.”
A geógrafa Olga Cruz comenta, no Capítulo 3, os mapas de organização natural das paisagens produzidos pelo professor. Os demais capítulos são os artigos assinados pelo professor, introduzidos por especialistas. O geógrafo e ex-pró-Reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP Adilson Avansi de Abreu revisita uma pesquisa clássica da trajetória de Ab’Sáber sobre o relevo brasileiro e seus problemas. “A obra científica do professor constitui-se na âncora e no motor do processo de transformação da geomorfologia na segunda metade do século 20 no Brasil”, analisa. “Ela é composta por textos seminais que se tornaram clássicos, de consulta obrigatória para todos que se ocupam com temáticas científicas que incorporam o conhecimento do relevo e sua dinâmica em nosso país.”

Ab'Sáber: décadas de pesquisas
Os organizadores procuraram reunir os assuntos mais significativos abordados por Ab’Sáber no decorrer de sua trajetória acadêmica. Procuraram apresentar desde os primeiros artigos na época de sua especialização, quando participou das primeiras discussões no Brasil sobre o problema das oscilações do nível do mar e a sua importância na gênese da Baía de Guanabara.
O Pantanal também está entre os focos do professor e com o aparecimento das imagens de satélite foi possível esclarecer a sua história climática-hidrológica e paleoecológica da depressão. O livro pontua a atuação de Ab’Sáber no planejamento e questões nacionais. Segundo os organizadores, “são várias e importantes as contribuições do cientista com relação a planejamento e questões nacionais. A defesa do ambiente sempre foi uma das suas principais preocupações e, desde quando esteve pela primeira vez em Manaus, começou a se interessar pelo problema da poluição das águas por ocupações irregulares”.
Ab’Sáber aprovou a edição do livro. Porém, o que mais o deixou satisfeito foi ver os devidos artigos, imagens e fotos reunidos no DVD que acompanha a publicação. “Essa foi a parte essencial do projeto, porque tem as 3.600 páginas dos meus artigos. Agora, o mais importante é que todos os estudantes interessados terão acesso e poderão fazer uma cópia”, esclarece o professor. “Muitos dos textos são inéditos, há ainda uma coletânea de fotos e mapas de minha autoria.”

A obra de Aziz Nacib Ab’Sáber, Editora Beca, organização de May Christine Modenesi-Gautieri, Andrea Bartorelli, Virginio Mantesso Neto, Celso Dal Ré Carneiro e Matias B. de Andrade Lima Lisboa, 588 páginas, R$ 120,00.

Saudades da infância

Paulista de São Luiz do Paraitinga, Aziz Nacib Ab’Sáber nasceu no dia 24 de outubro de 1924. Em vez de contar sua história, preferiu lembrar um de seus poemas. Ecos do Sino Grande está nas primeiras páginas do livro A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber:

Ainda ouço. Trago na memória,
Na noite de São Luiz
Escuto ainda
As badaladas arrastadas
Do sino grande
Da matriz.

Coisa rara: tivemos que sair
Minha mãe, minha madrinha e eu
Para arejar o pequeno Iussef
Que estava com tosse comprida.

Ruas desertas. Escuridão.
Bairro e chuvinha
Cheiro do mato vindo da outra banda
Do rio…

No alto do morro
O cruzeiro iluminado que meu pai,
Poeta introvertido,
Mandou iluminar.
Primeiras elétricas luzes,
Que antecediam
O pontilhado imenso que
marcava as luzes do universo.

Saudades de menino
Entes queridos
Lembranças sentidas.
E, para completar
As badaladas arrastadas do sino grande
Que saudades, Deus meu!

Ab’Sáber é filho de imigrante libanês, Nacib, com a brasileira Juventina, de ascendência portuguesa, vinda do sertão florestal do Nordeste brasileiro. Viveu em São Luiz até os 6 anos. Era menino quando o pai decidiu levar a família para ver o mar. E foi essa primeira excursão para Ubatuba, feita a cavalo durante dois dias, que começou a despertar o olhar do geógrafo. Ficou encantado com as árvores, as frutas e a cidade deserta de Ubatuba. A segunda viagem foi quando se mudou para Caçapava. Ab’Sáber ainda guarda a lembrança do menino curioso surpreso com o Morro da Samambaia.
Hoje, depois de incontáveis excursões, o geógrafo ainda tem a inquietude de menino. Levanta todos os dias às 10 horas porque nunca tem hora para dormir. Quando o sono vem depois de ler, escrever, ver televisão, já é quase de madrugada. Acorda entre os jornais e vai separando as notícias das editorias de cultura, internacional, economia, política, cidades. Lê as crônicas e até espia as personalidades nas colunas sociais. Recorta tudo com paciência e guarda. “Creio que isso tudo um dia possa ser útil para uma análise da nossa sociedade. Acho incrível como tem poucas notícias interessantes sobre São Paulo, onde há tanto para se pesquisar.”
Ab’Sáber está sempre empenhado em orientar os futuros geógrafos. Daí se empenhar em preservar a sua obra. No mês passado, doou para a futura Biblioteca Brasiliana uma coleção de imagens de satélite de Santa Catarina. São 28 painéis de 1,5 m de comprimento por 1 metro de largura, que registram o Projeto Floram, considerado o maior programa de reflorestamento já concebido no Brasil. Também está preocupado com a manutenção de sua mapoteca, que tem sido a referência para muitos pesquisadores. “Há muitas imagens que podem resultar em teses de doutorado”, afirma. Aziz Ab’Sáber vai diariamente ao Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. “Gosto de ficar junto dos estudantes, de tomar um cafezinho na lanchonete da ECA. Tenho escrito muitos artigos nos últimos meses.” Vários deles estão no DVD que acompanha A Obra de Aziz Nacib Ab’Sáber. O professor garante que está “maneirando”. Mas, na verdade, o menino inquieto continua ouvindo os ecos do sino grande de São Luiz do Paraitinga e já prepara o próximo livro, que será lançado, em breve, pela EDUSP
>








Archipiélago



IPEMA

© Tricontinental Editora