Revista ECO•21

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Edição 178
Escurecimento global
Júlio Ottoboni
Jornalista científico
 
Um novo componente no combalido cenário atmosférico mundial pode provocar uma verdadeira revolução nos estudos sobre o aquecimento global. Trata-se do recém descoberto “escurecimento global”, um fenômeno natural que mantém o Planeta resfriado e se contrapõe ao aquecimento na base da troposfera, denominado “Efeito Estufa”. Apenas três países estudam mais a fundo os efeitos desta nova componente no futuro climatológico do Planeta. Entre eles se encontra o Brasil, associado aos Estados Unidos e a Inglaterra.
Os modelos climáticos usados até agora não levaram em conta todos os processos físicos que envolvem essa componente atmosférica, o que tornaria todas as projeções sobre as mudanças globais passíveis de largas margens de erros. Isto seria um verdadeiro desastre, principalmente quanto aos prazos estabelecidos para as ações mitigadoras e a contenção nas emissões dos gases de estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO2).
O “escurecimento global”, descoberto há mais de três décadas, foi praticamente ignorado pela comunidade científica até dois anos atrás, pois se tratava de um paradoxo. A hipótese de haver um fenômeno de resfriamento global também derivado das emissões poluentes se chocava frontalmente com os resultados de todas as pesquisas, que apontavam para o aquecimento global na baixa troposfera. Mais uma vez o meio científico se depara com a polêmica – e classificada como “telúrica” –, Hipótese de Gaia, do cientista britânico e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Globais (IPCC), James Lovelook. Nela, ele define a Terra como um ser vivo único, onde todos os elementos e seres estão interligados. E o Planeta se autorregula caso haja algum desequilíbrio.
No centro da questão técnica se encontram os aerossóis, diminutas partículas em suspensão na atmosfera, a maioria de origem natural ou por ação antrópica. Entre uma gama enorme de material particulado, oriundo de várias origens, se encontram desde o sal marinho, cinzas vulcânicas, queimadas florestais e a poeira mineral vinda das areias de desertos e solos descobertos. Em níveis mais altos da atmosfera, aerossóis de origem mineral refletem parte da radiação proveniente do Sol. Este efeito tende a resfriar as camadas mais baixas da atmosfera, onde se localizam a maioria dos gases do Efeito Estufa, reduzindo a temperatura próxima à superfície. Por outro lado, os aerossóis provenientes de queimadas de vegetação e de combustíveis fósseis liberam o chamado “carbono elementar”, conhecido como “black carbon”, que contribui para o aquecimento global.
O último relatório do IPCC indicou que o efeito total dos aerossóis contribui para o resfriamento do Planeta, o que foi um choque para a maioria da comunidade científica, pois até o momento essas micropartículas eram as grandes vilãs do Efeito Estufa. O próprio documento de Paris alertou que a compreensão sobre esta nova componente no intrincado cenário do aquecimento global situa-se entre média e baixa. “O IPCC foi até agora muito modesto com o escurecimento global, os modelos não eram fisicamente resolvidos nesta questão”, revela o cientista Gilvam Sampaio, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), órgão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Isso, porém, está sendo alterado pelo trabalho de Saulo Freitas, pesquisador brasileiro integrante do quadro de cientistas do CPTEC. Ele explica que muitos modelos climatológicos ainda ignoram a interferência das nuvens de fumaça ou subestimam a altitude que as plumas possam atingir, limitando-se geralmente a 4 quilômetros. Isto seria um grave erro para se obter o quadro mais preciso do comportamento atmosférico.
Os estudos de Freitas mostram que as nuvens de fumaça podem ultrapassar a marca dos 8 quilômetros e, em determinados casos e dependendo da latitude, alcançar a estratosfera, que fica a 12 quilômetros de altitude. Este fato torna-se relevante para os estudos climáticos, uma vez que as nuvens de fumaça em grandes altitudes possuem um tempo de permanência maior do que em regiões mais baixas, prolongando, conseqüentemente, seus efeitos na atmosfera.
Como esses gigantescos núcleos de condensação, que formam as nuvens, possuem bilhões de aerossóis, essas micropartículas associadas às gotículas de água funcionam como imensos espelhos refletores da radiação solar. Essa conjunção entre aerossóis e água na constituição das nuvens, além do maior tempo de permanência nos locais mais altos da atmosfera, rebateria a radiação para o espaço. E assim minimizaria o superaquecimento da superfície planetária.
Para o cientista do Hadle Center, órgão meteorológico da Inglaterra, Peter Cox, essa questão é de um nível de complexidade até então inesperada. Para ele, fica cada vez mais explícito que o aumento da temperatura terrestre causada pelo excesso de pode ter sido amenizado até agora pelos efeitos do “escurecimento global”. Cox admite que os estudos sobre o Efeito Estufa podem ter ignorado os efeitos compensatórios deste fenômeno inverso, pois o “escurecimento” é responsável pela redução dos níveis de radiação solar que chegam à Terra e isto teria abrandado o problema do superaquecimento. “O escurecimento global pode ter nos levado a subestimar o verdadeiro potencial do aquecimento global, o que seria um indicativo que o clima do Planeta pode ser muito mais sensível ao efeito estufa do que se pensava anteriormente”, adverte o cientista britânico para desespero geral.
Os mesmos elementos que aquecem a superfície da Terra são também responsáveis pelo processo de resfriamento. Um efeito competitivo, que mostra um desequilíbrio que até o momento era ignorado. O universo científico se deparou com o terrível paradoxo: a mesma causa da doença é também a da cura. Ou seja, se o esfriamento for maior é porque o aquecimento também subiu. As pesquisas no centro britânico mostraram que os poluentes que esfriam a atmosfera estão diminuindo e os que aquecem estão em processo inverso. Os esforços para minimizar o Efeito Estufa na Europa Oriental deram resultados, houve uma sensível melhora na qualidade do ar, porém isto diminuiu o escurecimento na região. O ar ficou mais quente e surgiram diversas ondas de calor. A solução encontrada nos estudos preliminares é uma redução drástica em todos os tipos de emissões. “Se continuarmos a lançar os particulados na atmosfera teremos graves doenças e mudaremos o regime das chuvas, mas não podemos também pensar em potencializar o escurecimento global, isto seria muito nocivo ao meio ambiente”, adverte Cox.
A notícia para os cientistas vem exatamente do Brasil, com a inserção dos aerossóis na dinâmica climática global desenvolvida pelos pesquisadores do INPE. Gilvam Sampaio comentou que o papel dúbio destas partículas ainda é uma área muito nova nas pesquisas, porém isto não deverá afetar drasticamente os modelos climáticos rodados no Brasil, que consideram os elementos migrantes para a atmosfera a partir das queimadas.
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