Revista ECO•21

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Edição 63
O que o brasileiro pensa do meio ambiente
Samyra Crespo e Eduardo Novaes
Cientista Social - ISER; Secretário de Qualidade Ambiental - MMA, respectivamente
 
Nota: A versão completa, com os gráficos, encontra-se na edição impressa: ECO•21 nº 63, de fevereiro de 2002.


O QUE O BRASILEIRO PENSA DO MEIO AMBIENTE é uma pesquisa nacional de opinião que vem sendo realizada a cada 4 anos, conjuntamente pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo ISER,desde 1992.
Os objetivos principais dessa pesquisa são:
• produzir um painel, o mais completo possível de informações públicas sobre a consciência ambiental no Brasil;
• produzir uma série histórica, com dados comparáveis a de outros países;
• informar os tomadores de decisão, do setor público e do não governamental sobre como os brasileiros pensam e se comportam diante de temas importantes para a gestão ambiental e para as estratégias de promoção do desenvolvimento sustentável.
A pesquisa foi realizada respectivamente em 1992, 1997 e em 2001 e permite, portanto, uma avaliação da evolução da consciência ambiental no País. Neste painel de 2001 acrescentou-se uma bateria especial de questões sobre o consumo sustentável - isto é, sobre como as questões ambientais e de saúde estão afetando a decisão de compra de produtos e do consumo de bens e serviços como energia e água.
Os resultados divulgados a seguir são os da pesquisa concluída em outubro de 2001, e foram comparados aos dados dos estudos anteriores, quando isso foi possível. A coleta de dados foi realizada pelo IBOPE e o estudo é representativo da população brasileira adulta (16 anos ou mais), residente em áreas urbanas e rurais de todas as regiões.


Características gerais do estudo e da amostra

• Pesquisa tipo survey, quantitativa, representativa da população adulta brasileira (16 anos ou mais), residente em áreas urbanas e rurais.
• 2000 entrevistas domiciliares nas 5 regiões, sendo que se considerou conjuntamente as regiões sul/sudeste.

A amostra

• Dentro de cada grande região foram selecionadas as Unidades da Federação, com alocação proporcional à população de 16 anos ou mais de cada uma.
• Dentro de cada Unidade da Federação foram selecionados probabilisticamente os municípios, pelo método PPT (Probabilidade Proporcional ao Tamanho), sendo a população de cada município tomada como base para tal seleção.
• Dentro de cada um dos municípios, foram selecionados probabilisticamente os setores censitários, onde as entrevistas foram realizadas, também pelo método (PPT).
• Neste estágio foram selecionados os domicílios, através de seleção aleatória sistemática. Para cada setor censitário da amostra foi realizado um arrolamento de domicílios, com início aleatório e saltos sistemáticos de domicílios a intervalo fixo. Para efeito de arrolamento, foram excluídas as edificações ocupadas para fins comprovadamente não residenciais.
• No último estágio, os entrevistados foram selecionados dentro dos domicílios, utilizando quotas proporcionais segundo as seguintes variáveis: SEXO, IDADE, CONDIÇÃO DE ATIVIDADE.
• Os dados podem ser desagregados por região e analisados segundo as variáveis básicas consideradas (escolaridade, renda, sexo e idade). São ainda, na maioria dos casos, comparativos aos dados obtidos nos estudos anteriores (1992 e 1997).

PRINCIPAIS RESULTADOS

Brasileiros elegem amazônia e recursos naturais como as principais vantagens comparativas do país

Em 1997, os brasileiros apresentavam um alto índice de auto-estima e diziam se sentirem muito orgulhosos de terem nascido no Brasil. Apresentavam como motivos deste orgulho a cordialidade do povo, os seus costumes e cultura e, também, a natureza exuberante, sempre evocada enquanto riqueza e belas paisagens, com muitas menções à Amazônia e aos nossos rios. Neste novo painel de 2001, os brasileiros continuam valorizando os recursos naturais do país. Perguntados sobre as vantagens comparativas que o Brasil apresenta em relação às demais nações, 39% declararam algum recurso natural, com claro reconhecimento de que a Amazônia é o nosso tesouro verde (13%).
Comparando as opiniões entre as regiões brasileiras, pode-se observar que os brasileiros da Região Norte são os que mais apontam a Amazônia e as florestas como principais vantagens do Brasil (49%).
Isto corresponde a mais que o dobro das opiniões das Regiões Centro-Oeste (24%) e Nordeste (18%).
As opiniões das Regiões Sul/Sudeste correspondem a 31%.

Do global ao local, os principais problemas ambientais são: desmatamento, poluição das águas e do ar

A população brasileira aponta o desmatamento, a contaminação de rios, lagoas e praias, assim como do ar, como sendo os três principais problemas ambientais que assolam tanto o mundo quanto o País em nossos dias. Quando se trata de identificar problemas na cidade onde moram, ou no bairro, eles mudam de figura: coincidindo com os dados obtidos em 1997, em 2001, 18% da população elegeram problemas de saneamento ambiental como coleta de lixo, limpeza de ruas e saneamento básico como os principais problemas que os afetam.
Este dado é mais significativo para quem mora na área urbana (15%) do que para quem mora na área rural (3%).
Além disso, podem-se observar diferenças de opiniões segundo as regiões brasileiras: 30% dos brasileiros da Região Norte elegeram problemas de saneamento ambiental como o principal problema, seguidos dos brasileiros da Região Nordeste (20%), da Região Sul/Sudeste (17%) e da Região Sul (11%).
Embora a pauta de problemas globais seja pouco conhecida dos brasileiros, o número de pessoas que afirmam ter ouvido falar do “efeito estufa” evoluiu significativamente de 1997 para 2001: 46% e 56%, respectivamente. Destes que ouviram falar, 72% foram capazes de dar a definição correta do fenômeno.

Brasileiros querem mais informação sobre meio ambiente

Ainda considerando os gráficos anteriores, chama atenção o fato de que tanto em 1997 quanto em 2001, mais de 50% da população não foi capaz de identificar nenhum problema ambiental no seu bairro, mostrando que é preciso incrementar os esforços de informação do grande público sobre questões de meio ambiente e qualidade de vida.
Ao analisar o nível de escolaridade daqueles que não souberam opinar e não apontaram nenhum problema, observa-se que quanto maior o nível de instrução, menor é a disposição em afirmar que não existe nenhum problema, ou ainda de não saber opinar sobre o assunto.
Pode-se observar ainda, ao comparar as opiniões entre as regiões brasileiras, que 55% dos brasileiros da Região Centro-Oeste responderam não haver nenhum problema ambiental; um percentual bastante expressivo se comparado com as demais Regiões: Sul/Sudeste 37%, Norte 27% e Nordeste 26%.
Esta incapacidade pode estar refletindo uma situação mais estrutural, ligada à baixa escolaridade da maioria da nossa população e ao fato de que 52% afirmaram não ler jornais, fazendo da televisão seu principal meio de informação (90%).
Outro fato a ser considerado é que os brasileiros, de um modo geral, continuam se sentindo pouco informados sobre os assuntos relativos ao meio ambiente e à ecologia, indicando quase nenhum avanço neste setor após 10 anos da RIO’92, como se pode ver pelos gráficos abaixo:

A consciência ambiental evolui no país, mas o conceito de meio ambiente é ainda limitado

Não há como negar que houve, nesta última década, uma notável evolução no que se pode chamar de consciência ambiental no Brasil, e isto se pode medir através de vários dados e indicadores que a pesquisa permite extrair. Por exemplo, cresce o número de pessoas que acreditam que a preocupação com o meio ambiente não é exagerada (de 42% em 1997 para 46% em 2001) e, também que a natureza é sagrada (de 57% em 1992 para 67% em 2001), e que os seres humanos não deveriam interferir nela. Houve, também, um crescimento significativo (de 23% em 1997 para 31% em 2001) do segmento da população que passou a concordar mais com a idéia de que são necessárias grandes mudanças nos nossos hábitos de produção e consumo para conciliar desenvolvimento e proteção do meio ambiente. Mais da metade da população (51%), desde 1992 já dizia preferir menos poluição à geração de empregos e este número se mantém em 2001 apesar de sabermos que este é um tema de grande preocupação em nossos dias.
Estas informações resumidas no gráfico abaixo, além de outros importantes dados contidos na pesquisa, nos oferecem um padrão bastante significativo e complexo de consciência ambiental existente no País.

Os seres humanos fora do meio ambiente

A despeito dessa evolução, permanece uma constatação incômoda, sobretudo para aqueles que trabalham com educação ambiental e para os movimentos sociais que atuam mostrando a ligação estreita entre a sociedade e a natureza, entre os problemas ambientais e as ações humanas: a pesquisa mostra que para os brasileiros, como já indicavam os estudos de 1992 e 1997, meio ambiente é sinônimo de fauna e flora.
Convidados a reagir indicando em um cartão com 14 elementos, aqueles que fazem parte do meio ambiente, mais da metade deixaram de incluir os seres humanos (homens e mulheres), os índios e as favelas, bem como as cidades.
Paradoxalmente, a Região Norte - que tem uma natureza exuberante e abriga as maravilhas da Amazônia, tem uma percepção menos naturista que as demais regiões, pois 41% indicaram os homens e mulheres e 40% indicaram os índios, como elementos que também fazem parte do meio ambiente.
O Nordeste vem em segundo lugar, com 32% (indicaram homens e mulheres) e 23% (indicaram os índios).
No Sul/Sudeste, somente 28% indicaram os homens e mulheres e 24% indicaram os índios.
A população da Região Centro-Oeste foi a que menos indicou esses elementos: 23% (homens e mulheres) e 22% (índios).
É interessante observar que olhando espacialmente, no sentido Norte-Sul, declina sensivelmente o número de pessoas que têm a percepção de que os índios fazem parte do meio ambiente.

Na visão dos brasileiros é possível desenvolver a economia sem destruir o meio ambiente

Esta formulação - a de que é possível promover o desenvolvimento econômico sem agredir a natureza - torná-lo sustentável, foi pela primeira vez apresentada mundialmente como uma tese de consenso pelo “Relatório Brundtland”. Esta idéia, ousada e até certo ponto utópica, recebe uma expressiva adesão dos brasileiros.
Uma série de respostas às questões colocadas aos nossos entrevistados nos permite afirmar que os brasileiros não consideram ser necessário priorizar o desenvolvimento econômico sobre a preservação da natureza, ainda que a tendência observada, considerando as duas sondagens, mostre que houve um ligeiro aumento no grupo de pessoas que tendem a concordar com a formulação: “o crescimento econômico deve ter prioridade sobre o meio ambiente” em vez de: “o meio ambiente deve ter prioridade sobre o crescimento econômico” (15% em 1997, e 20% em 2001).
Contudo, se somarmos a opção “concorda totalmente” com a opção “concorda mais com a primeira” e compararmos com a segunda formulação, verificamos que 48% estariam se posicionando em relação à prioridade ao meio ambiente, contra outros 32% da população que está mais de acordo com a prioridade ao crescimento econômico.
Olhando para os resultados de outra questão semelhante, quando apresentamos duas outras frases com formulações opostas, verificamos que a tendência em acreditar que não existe uma relação necessária entre desenvolvimento e danos à natureza, persiste na opinião dos brasileiros, como mostra o gráfico a seguir:
E mais: embora dados das duas sondagens anteriores mostrem que a preocupação com o desemprego vem crescendo (em 1997, o desemprego foi apontado como o segundo principal problema por 21%; em 2001 foi apontado como o primeiro principal problema por 29%), quando perguntados sobre qual deveria ser a prioridade do governo, verificamos que além da preocupação com o meio ambiente, os brasileiros têm uma outra bastante clara: reduzir as desigualdades distribuindo renda.
O gráfico abaixo mostra que 58% da população brasileira consideram a distribuição de renda mais importante que o crescimento econômico (22%).
Estes dados apontam para a constatação de que para os brasileiros, desenvolvimento vem com preservação do meio ambiente e justiça social, aspectos importantes e estruturadores do conceito de desenvolvimento sustentável.

Brasileiros estão cada vez mais dispostos a ajudar na proteção do meio ambiente

Mais de 70% da população brasileira afirma ter simpatia pelo trabalho das organizações ecológicas embora poucos sejam capazes de mencionar alguma espontaneamente. A organização mais lembrada, tanto nas respostas espontâneas quanto estimuladas é o IBAMA, a principal agência de meio ambiente governamental. Em segundo lugar vem a Greenpeace e depois as brasileiras SOS Mata Atlântica e a Fundação Tamar, como mostra o gráfico a seguir. Tanto em 1997 quanto em 2001, somente 1% da população declarou ser membro de alguma organização de proteção ao meio ambiente.
Quando perguntados sobre o que estariam dispostos a fazer para ajudar uma organização desse tipo, a maior parte escolheu o trabalho voluntário (64% em 2001 e 56% em 1997); mais de 50% declararam-se, em ambos os estudos, dispostos a tornarem-se membros e uma porcentagem expressiva afirmou que estaria disposto a contribuir com dinheiro: 29% (1997) e 30% (2001).
Os dados revelam também que o perfil daqueles que demonstram ter maior disposição para participação em qualquer uma dessas formas são, brasileiros jovens (de 16 a 24 anos) e, igualmente, aqueles que têm maior nível de instrução (nível superior incompleto ou mais).
Observa-se, ainda, que entre as regiões, a população da Região Norte é a que demonstra maior disposição para contribuir com dinheiro (52%), em contraste, por exemplo, com a população da Região Sul/Sudeste, onde apenas 26% demonstram essa mesma disposição.
Em uma outra questão, a maior parte declarou preferir tornar-se membro de uma associação que tem por finalidade a defesa de florestas e animais ameaçados de extinção (42%) contra organizações que se ocupam de promover o saneamento em áreas pobres das cidades (28%), mostrando claramente que a agenda verde, conservacionista, tem mais apelo junto à população brasileira.

Algumas ações concretas são preferidas

Mas, além das intenções vinculadas ao trabalho de organizações, o que mais os brasileiros estão dispostos a fazer pelo meio ambiente?
Tanto em 1997 quanto em 2001, três itens fazem parte da cesta básica protetora dos nossos cidadãos: separação de recicláveis, eliminação do desperdício de água e energia (luz e gás) como mostra o gráfico abaixo.
Como o ato de separar diversos itens para a reciclagem depende da coleta seletiva, perguntamos aos nossos entrevistados sobre a disponibilidade deste serviço nos bairros onde residiam e aí obtivemos a resposta de que, basicamente, este serviço é feito por catadores (57% das menções), depois pela prefeitura (26%) e, em terceiro lugar, por escolas (13%). Organizações não-governamentais e supermercados receberam, respectivamente 5% e 3% das menções. Entre os itens mais reciclados por nossa população, estão as latas (40%), garrafas (37%) e papéis diversos (23%).
Mas além da reciclagem, que já pegou como prática na vida dos brasileiros, o que mais eles andam fazendo que ajuda a preservar o meio ambiente? Apresentamos aos nossos entrevistados uma lista de possíveis ações realizadas nos últimos 12 meses e obtivemos o seguinte gráfico de respostas:
Dado que não existe em nenhuma campanha pública, de impacto, alertando sobre materiais tóxicos ou perigosos no lixo, é surpreendente que 59% da população tenham cuidado com o que jogam na lixeira. Também nos parece expressiva a porcentagem de pessoas que declara ler os rótulos dos produtos que adquire (46%), embora ainda tenhamos mais da metade da população declarando não fazê-lo. Considerando o fato de que os órgãos de defesa do consumidor ainda são uma instituição recente no País, nos parece alentador que 12% da população afirme ter recorrido a algum deles no último ano. Nesta questão, em particular, a pesquisa mostra que quem recorre mais são homens relativamente jovens, de 25 a 34 anos, e com nível de instrução superior ou mais.

Hábitos de compra e de consumo da população surpreendem

Estarão os brasileiros consumindo de um modo mais consciente do que imaginamos? A pesquisa indica que sim. Apresentamos aos nossos respondentes, uma lista de hábitos de consumo e de compra de produtos que, teoricamente, podem contribuir ou para poupar energia ou para produzir um lixo menos agressivo ao meio ambiente. Também incluímos itens que dizem respeito à saúde humana. Perguntamos a eles se costumavam praticá-los sempre, com freqüência, raramente ou nunca. Os números são totalmente surpreendentes para quem achava que consumir produtos ambientalmente corretos era prática de uma elite urbana ambientalizada. Como se pode ver no gráfico abaixo, somando-se os que responderam praticar sempre com os que afirmam fazê-lo com muita freqüência, temos 59% da população dizendo que compram lâmpadas poupadoras de energia, 44% que compram produtos que venham em embalagens recicláveis e 36% que preferem os produtos “verdes”.
Observa-se ainda que 81% da população declararam que se sentem mais motivados quando, ao fazer uma compra, encontram nos produtos que procuram um rótulo que informa que o produto foi fabricado de maneira ambientalmente correta. Também 73% admitiram ficar mais motivados a comprar um produto quando o rótulo informa que ele foi produzido organicamente, isto é sem insumos químicos.
Como era de se esperar, esses consumidores conscientes ou ambientalmente responsáveis estão em sua maioria em centros urbanos, possuem alta escolaridade e se concentram nas faixas economicamente ativas, e com maior poder aquisitivo.

Energia sem destruição

Os dados sobre como os nossos entrevistados se comportam com este importante elemento da natureza são bastante interessantes. Já sabemos que mais da metade da população está poupando energia, seja cumprindo as metas estabelecidas pelo governo, seja comprando lâmpadas eficientes.
As nossas pesquisas anteriores vinham indicando, desde 1992, um progressivo aumento na consciência de que o petróleo é um tipo de recurso que vai se esgotar assim como a disposição da população em participar de campanhas contra o desperdício de energia.
Mas, o dado novo e relevante, é a preferência da população quando se trata de escolher entre o meio ambiente e a produção de energia para aumentar a oferta: 38% afirmam concordar totalmente com a frase que o meio ambiente deveria ter prioridade, ainda que isso implique uma limitação na produção e abastecimento de energia no Brasil, contra apenas 6% que declararam concordar totalmente com a frase oposta: de que o desenvolvimento de novas fontes de energia deve ter prioridade, ainda que isso venha a acarretar danos ao meio ambiente.
Se somarmos as duas colunas (a que concorda totalmente e a que concorda mais com a primeira formulação), temos mais da metade da população considerando que o aumento da oferta de energia, neste contexto de crise, não deve causar danos ambientais.
Além disso, embora boa parte da população brasileira não esteja de acordo com o modo como o governo federal vem administrando a crise de energia (46% disseram não concordar, contra 33% que estão de acordo) ela está perfeitamente ciente de que é preciso aumentar a oferta de energia e se posicionou diante de várias propostas, como podemos ver no gráfico ao lado.

Carro nosso de cada dia

O carro é sem dúvida um símbolo das sociedades baseadas nos combustíveis fósseis e o meio de transporte característico dos moradores em centros urbanos. Tem sido, também, um vilão da ecologia pela poluição que causa, além de ter uma contribuição nada desprezível no acúmulo dos gases do efeito estufa.
Os dados de 2001 mostram que 51% da população brasileira declararam que não procuraram diminuir o uso do automóvel, nos últimos doze meses.
Em relação a 1997, podemos verificar um ligeiro aumento nas pessoas que declararam ter o costume de dirigir (25% em 1997 contra 29% em 2001).

O que são mesmo organismos transgênicos?

Mais da metade da população brasileira não sabe. Por isso fizemos uma série de perguntas sobre o tema.
Os dados revelam que 52% da população brasileira acreditam que os transgênicos oferecem riscos à saúde e 59% opinaram que deveria ser proibido o seu plantio.
Os altos índices de pessoas que acreditam que os transgênicos afetam a saúde e também o equilíbrio da natureza contribuem para o desejo de vê-los proibidos, como se pode depreender do gráfico apresentado a seguir:

População avalia setores na defesa do meio ambiente e atribui mais responsabilidades ao poder local

Desde a primeira pesquisa, em 1992, incluiu-se uma série de questões que visam saber como a população vê a atuação dos diversos setores na defesa do meio ambiente e a quem são atribuídas responsabilidades para solucionar os problemas existentes.
A pesquisa mostra uma clara tendência de - a população brasileira - atribuir cada vez mais responsabilidades ao poder local, quando o tema é a solução dos problemas ambientais. Olhando o gráfico abaixo, pode-se ver com nitidez que a curva é ascendente ao longo do tempo, confirmando duas coisas: a de que a descentralização começa a surtir efeito e que existe uma progressiva adesão à tese de que é localmente que os problemas ambientais são sentidos, e é nessa esfera, portanto, que eles, na sua maioria, devem ser resolvidos. Esta tendência também se reflete na diminuição da importância dada à esfera federal.
Observando, com mais cuidado, os dados restantes, pode-se ver que há também, por parte da população, uma lenta, mas progressiva tendência de deixar de atribuir responsabilidades a certos setores, como é o caso das ONGs, dos cientistas, da Igreja e dos Militares. Em contrapartida, os números também sugerem uma atribuição de responsabilidades maior aos líderes mundiais e aos empresários.

Defesa do meio ambiente

Como a população avalia a atuação dos setores na defesa do meio ambiente?
Considerando primeiramente o poder local, vemos que a tendência, entre cinco escalas (muito boa, boa, regular, ruim, muito ruim) é situar a avaliação entre boa e regular, o que mudou pouco nos últimos anos.
Somando para os anos de 1997 e depois para 2001 as opções “boa” e “regular”, temos respectivamente que 62% (1997) e 59% (2001) avaliam a atuação das prefeituras como sendo de regular para boa.
Os mesmos números se repetem para a avaliação do governos estaduais. Nas duas pesquisas, as entidades ecológicas recebem uma melhor avaliação, tanto se considerarmos a opção boa quanto regular, notando-se um ligeiro declínio: 72% (1997) e 69% (2001).
Também sofre declínio a avaliação positiva do governo federal, embora a opção regular, predominante em ambas as pesquisas apresentem basicamente o mesmo número.
Nestas baterias de questões, é preciso considerar o alto índice de não-resposta (que variou de 9 a 11 pontos percentuais), mostrando que grande parte da população ou não sabe como efetivamente cada setor atua, ou faz confusão entre as diferentes esferas de governo.
Confirmando uma tendência notada desde a primeira pesquisa, o setor pior avaliado é o empresariado, onde predominam as opções ruim e muito ruim.
A permanência desta avaliação negativa fortalece a tese de que, para os brasileiros, os verdadeiros vilões do meio ambiente continuam sendo os empresários.

Comentários finais

Considerando os resultados de uma maneira geral, podemos afirmar que se observam poucas mudanças nestes 10 anos da série “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente” (e 10 anos após a RIO’92) em relação às concepções que a população tem sobre meio ambiente e desenvolvimento, confirmando a tese de que o ambientalismo se difunde pelo país mais como “defesa da natureza” do que da qualidade de vida humana. Neste sentido, a Agenda Marrom não é ainda uma preocupação que tenha se incorporado ao imaginário dos brasileiros, quando o tema é meio ambiente.
O nível de informação pouco evoluiu, tanto se consideramos os problemas ambientais do país, do mundo, ou locais. A baixa escolaridade da população é a principal variável a ser considerada quando se observa o alto índice de não sabe/não opinou, sobretudo nas perguntas que demandam respostas espontâneas (não estimuladas) ou em questões mais complexas na sua formulação (relativas ao conceito de desenvolvimento sustentável).
Outras variáveis como sexo, religião, cor e gênero não fazem diferença no padrão de respostas, a não ser muito pontualmente. Na questão do consumo, surpreendeu, por exemplo, a não diferença de atitude e comportamento entre homens e mulheres.
Embora a pesquisa deva ser analisada com mais profundidade, pode-se dizer que as variáveis que fazem diferença são: educação e residência em centros urbanos.
A consideração dessas variáveis mostra maior nível de informação e maior compreensão da problemática. Também faz diferença os dois extremos da pirâmide de idade. Os mais jovens (mais próximos de 16 anos) e os mais velhos (mais de 60 anos) se mostram menos informados e menos interessados em meio ambiente.
Ainda que meio ambiente não faça parte das prioridades dos brasileiros, quando se pergunta sobre os problemas que os afligem - e aí o cardápio não varia, vindo os problemas de saúde, desemprego e segurança nos primeiros lugares - pode-se dizer que a população tem uma grande empatia com a temática do meio ambiente e que, cada vez mais, atribui um valor positivo ao fato de que o Brasil possui recursos naturais abundantes e a idéia de que se deve preservá-los. Neste contexto, há uma grande simpatia pelo trabalho das organizações ecológicas e por suas causas.
Além disso, a pesquisa mostra claramente o potencial de envolvimento da população em ações pró-ativas, como a filiação, o trabalho voluntário, a contribuição em dinheiro, além da disposição em participar de campanhas contra o desperdício de importantes recursos naturais.
E finalmente, a pesquisa inova, relacionando pela primeira vez, em um painel nacional, o tema do meio ambiente com o consumo, sondando o comportamento da população no contexto do que podemos chamar, aproximativamente, de “consumo consciente” ou “consumo sustentável”.
Neste particular, os resultados da pesquisa surpreendem e sugerem que muito mais do que se imagina, a população brasileira vem incorporando práticas de consumo que levam em consideração outros atributos que não exclusivamente preço e qualidade dos produtos.
A pesquisa mostra claramente que o “marketing verde” ou ecológico é eficiente, aumentando a atratividade dos produtos e que boa parte da população (portanto dos consumidores) está atenta ao que os rótulos dos produtos dizem.
Mostra ainda que a reciclagem é uma idéia que já pegou na sociedade e que o serviço prestado pelos catadores é totalmente relevante nesta questão.Evidentemente, uma pesquisa como essa - que relaciona o consumo à preocupação com o meio ambiente - é um “t-zero” e vai exigir uma investigação mais fina para que se possa afirmar, com mais consistência, que os brasileiros já estão entrando na era do consumo verde.

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Samyra Crespo, cientista social, coordenou a pesquisa pelo ISER. O desenvolvimento do trabalho foi acompanhado pelo Dr. Eduardo Novaes, Secretário de Qualidade Ambiental do MMA.

Contatos:
Samyra Crespo (samyra@iser.org.br)
Eduardo Novaes (eduardo.novaes@mma.gov.br)
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