Revista ECO•21

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Edição 241
Biodiversidade sintética?
Silvia Ribeiro
Pesquisadora do Grupo ETC
 
A biologia sintética, uma atualização da engenharia genética que viabiliza novas construções transgênicas e outras mudanças em seres vivos, foi um tema central das discussões na COP-13 da Convenção sobre Biodiversidade, que aconteceu entre 4 e 17 de Dezembro em Cancún, México.
Desde novos riscos ao ambiente e a saúde, enormes desafios de biossegurança, até o tema da nova biopirataria digital, passando pela possibilidade de extinguir espécies ou construir armas biológicas, ninguém ficou à margem do debate. Para seus promotores, agressivos e muito bem financiados pela Fundação Gates ou transacionais, se trata de pequenas mudanças, apenas uma edição genética, quase como cambiar uma palavra num texto, mas prometem resolver (outra vez!) desde a fome até a mudança climática e as doenças. Os mais ousados querem manipular espécies silvestres e fazer engenharia de ecossistemas, prometem terminar a malária e até reviver mamutes. Curioso que as propostas desta nova raça de conservacionistas seja extinguir espécies, mas as que eles decidam que não é preciso conservar.
Apenas começada a Conferência, mais de 170 organizações de todo o mundo, incluídas as maiores redes globais de camponeses, como a Via Campesina, ambientalistas como Amigos da Terra e outras sindicais, sociais e de consumidores demandaram à CDB deter a tecnologia de extinção de espécies, se referindo aos impulsores genéticos. Se trata de uma nova aplicação de engenharia genética, que está dirigida a alterar espécies silvestres, desde insetos a plantas ou animais, para forçar a permanência de um caráter transgênico através de gerações, o qual poderia levar à extinção de uma espécie, dependendo do carácter que se insira. O apelo teve repercussão em várias delegações, principalmente no grupo de países da África, que apresentou a necessidade de aplicar um estrito Princípio de Precaução diante destes novos riscos. O tema continua em consideração.
Segundo explicou a doutora Ricarda Steinbrecher, da Federação de Cientistas da Alemanha, enquanto os transgênicos aplicados a cultivos estão construídos para se expressar em sementes que devem ser plantadas (ainda que através do pólen se cruzem com cultivos não transgênicos, contaminando-os) com os impulsores genéticos, o objetivo é que se disseminem agressivamente no meio ambiente e que persistam através de muitas gerações.
Quando a alteração é para que as espécies tenham somente machos na sua descendência, o objetivo é eliminar uma população completa. E, mesmo que não funcione como afirmam seus promotores, o desequilíbrio genético poderia levar a mudanças imprevisíveis.
Eliminar uma espécie – ou uma população desta – terá uma cascata de repercussões em todo o ecossistema: todas as espécies são parte de um conjunto complexo de co-evolução e co-adaptação, parte das cadeias alimentárias e outros processos. Inclusive aquelas que alguns consideram pragas (como ratões ou ervas daninhas) ou que são vetores de doenças (como mosquitos), surgem e se desenvolvem porque esse sistema cria um nicho para elas por alguma razão. Os impulsores genéticos não levam em conta nenhuma destas relações, somente pretendem eliminar o que seus promotores definem como problema, sem tocar nas causas, nas condições ambientais – muitas vezes ambientes degradados por outras tecnologias, megaprojetos e alto uso de agrotóxicos – nem nas condições de saúde e socioeconomicas das pessoas afetadas, que na maioria dos casos são os principais fatores que favorecem o que se define rapidamente por praga ou epidemia.
Apesar de que talvez nem funcione, os interesses comerciais e a guerra de patentes sobre estas tecnologias são enormes e principalmente para suas aplicações na agricultura, mas tratando de evitar a rejeição que tiveram os transgênicos, seus promotores tomaram outros caminhos para lograr sua aceitação: as apresentam como técnicas para doenças ou conservação.
Por outro lado, a industrialização da biologia sintética apresenta toda outra série de temas. Colocar na Internet os mapas genômicos de muitas espécies vegetais, animais, microbianas, permite que as empresas e aqueles que tenham aceso às ferramentas adequadas, possam descarregar a informação genética e construir artificialmente princípios ativos e outros genes, para seu uso em nível industrial. Mas também para outros usos, inclusive usos hostis, como fabricar certos vírus e bactérias, que possam estragar colheitas, animais domésticos e até humanos. O tema é complexo e a alienação de governos é esperada: a maioria dos países do Norte, que possuem as ferramentas, as patentes e são sede das transnacionais, não querem nenhuma nova norma nem discussão, argumentam que dessa forma se promove a ciência porque todos podem aceder à informação. Este princípio, porém, seria bom se fosse aplicado a tudo. Eles não propõem acompanhar este suposto interesse público de uma proibição ao patenteamento, privatização e lucro de resultados que podem obter ao usar a informação. Pelo contrário, se parece muito com a biopirataria de sempre, mas, digitalizada e com um espectro de usos e impactos muito maiores.
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