Revista ECO•21

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Edição 241
Montante do desinvestimento duplica
Nathalia Clark
Coordenadora de Comunicação da ONG 350.org Brasil e América Latina
 
O movimento global pelo desinvestimento dos combustíveis fósseis dobrou de tamanho desde setembro de 2015, de acordo com o Terceiro Relatório anual Global Fossil Fuel Divestment and Clean Energy Investment Movement, publicado pela Arabella Advisors. O Relatório, divulgado hoje (12/12/2016) pela rede Divest-Invest, foi elaborado exatamente um ano após a assinatura do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. Os compromissos globais com o desinvestimento já envolvem 688 instituições em 76 países e representam um total de US$ 5 trilhões de ativos sob gestão1. Anúncios notáveis incluem a Trinity College de Dublin, 16 universidades no Reino Unido, a Sociedade Islâmica da América do Norte e a Associação Americana de Saúde Pública, entre outras. “À medida que nos aproximamos do fim de 2016, o ano mais quente da história, o sucesso do movimento pelo desinvestimento se mostra inegável”, afirmou May Boeve, Diretora Executiva da 350.org. “Diante dos impactos climáticos cada vez mais fortes e de governos retrógrados e contrários às ações climáticas, como o governo Trump, é mais importante do que nunca que nossas instituições – principalmente em níveis locais – se posicionem e se libertem das empresas de combustíveis fósseis”.
O que começou como uma campanha nos campi universitários dos Estados Unidos se tornou um movimento global, permeando todos os setores da sociedade. Comprometimentos e campanhas pelo desinvestimento vêm de todos os tipos de instituições: de universidades e fundos de pensão até grupos religiosos e organizações de saúde, passando pelo setor de seguros e instituições culturais, entre outros.
Em todo o mundo, instituições culturais estão assumindo a liderança na transição para abandonar os combustíveis fósseis. O Museu Americano de História Natural, em Nova York, respondeu a uma campanha liderada por cientistas e ativistas que pedia que a instituição cortasse seus laços com os combustíveis fósseis. O museu reduziu a relação de seus fundos, que somam cerca de US$ 650 milhões, com ações ligadas ao carvão, petróleo e gás, e procura gestores de portfólio que levem em conta os riscos climáticos e priorizem energias renováveis.
Cinco dias antes do lançamento deste Relatório, ativistas ligados ao Divest Nobel divulgaram uma carta assinada por 17 recebedores do Prêmio Nobel em diversos lugares do mundo, inclusive o arcebispo Desmond Tutu, pedindo que a Fundação Nobel aja de acordo com o testamento de Alfred Nobel e desinvista dos combustíveis fósseis.
Porta-vozes da Divest-Invest destacaram a importância do desinvestimento e da ação climática nos níveis municipais e estaduais. Boeve anunciou que no dia 15 de Dezembro, ativistas ligados à Divest New York realizarão uma ação em uma reunião de um fundo de pensão na cidade de Nova York, pedindo aos diretores que desinvistam completamente dos combustíveis fósseis e reinvistam em uma economia local e sustentável.
No Brasil, em Outubro último, a Diocese de Umuarama, que engloba 45 paróquias e cerca de 490.000 habitantes, se tornou a primeira diocese – e a primeira instituição da América Latina – a desinvestir dos combustíveis fósseis. “Não podemos nos acomodar e continuar permitindo que interesses econômicos que buscam o lucro antes do bem-estar das pessoas, destruindo a biodiversidade e os ecossistemas, continuem ditando nosso modelo energético baseado nos combustíveis fósseis, quando temos tantas outras possibilidades de energias limpas e renováveis”, afirmou Dom Frei João Mamede Filho, Bispo da Diocese de Umuarama.
Diversos eventos para a imprensa aconteceram hoje no mundo todo para divulgar esse importante marco para o movimento pelo desinvestimento. Figuras notáveis, como o ex-vice-Presidente da Mobil, Lou Allstadt, a estudante Áine O’Gorman, que representa a Trinity College de Dublin, e Mark Campanale, da Carbon Tracker Initiative, participaram de uma videoconferência com a imprensa, em Londres e Nova York. Na Cidade do Cabo, ativistas realizaram uma coletiva de imprensa com a participação da Igreja Anglicana da África do Sul (entre outros), que recentemente assumiu o compromisso de desinvestir. Eventos coordenados também aconteceram em Tóquio, onde ativistas trabalharam com a Arabella Advisors para realizar uma sessão de estudo do Relatório com a imprensa. Na Austrália, grupos religiosos realizaram um seminário on-line destacando o imperativo moral do desinvestimento dos combustíveis fósseis.
Ao mesmo tempo em que o movimento celebra esse marco importantíssimo, ele reconhece a necessidade cada vez mais urgente de ações rápidas e ousadas para combater a crise climática. “O desinvestimento dos combustíveis fósseis se tornou um grande movimento de US$ 5 trilhões porque nossas instituições e a sociedade sabem que precisamos de uma guinada rápida e justa para abandonar a economia dos combustíveis fósseis”, afirmou Yossi Cadan, organizador sênior de campanhas pelo desinvestimento da 350.org. “Mas muitas instituições estão avançando muito devagar. É por isso que nós realizaremos ações no mundo todo em Maio de 2017, por meio de mobilizações globais, para ressaltar os impactos da indústria dos combustíveis fósseis e intensificar os pedidos para que governos e instituições desinvistam”. A Mobilização Global pelo Desinvestimento, por um mundo livre dos combustíveis fósseis, acontecerá entre 5 e 13 de Maio de 2017.

1 - A comunidade de instituições comprometidas com algum nível de desinvestimento dos combustíveis fósseis está contabilizada em total de ativos sob gestão. Normalmente, os grupos de investimento alinhados a alguma questão ambiental, social e de governança (ESG) são identificados como agregados de ativos totais sob gestão. Além disso, muitas instituições que se comprometeram a abandonar os investimentos em combustíveis fósseis não são transparentes em relação aos seus investimentos e não querem divulgar informações específicas sobre seus portfólios. Assim, não foi possível gerar um indicativo preciso do desinvestimento dos combustíveis fósseis.

Para ler o relatório da Arabella, acesse:
https://www.arabellaadvisors.com/wp-content/uploads/2016/12/Global_Divestment_Report_2016.pdf
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