Revista ECO•21

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Edição 241
Sina de Desmatar
Tasso Azevedo
Engenheiro florestal. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) e do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas). Foi Diretor Geral do Serviço Florestal Brasileiro, Diretor Executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima.
 
Desde 2004 o Brasil não via o desmatamento crescer na Amazônia por dois anos seguidos. Mas eis que, em 2015, o desmatamento saltou de cinco mil para 6,2 mil quilômetros quadrados, e os números preliminares indicam que em 2016 a taxa chegará a oito mil, um aumento de 60% em dois anos. Foram derrubados 250 metros quadrados por segundo (isso mesmo, por segundo!) ou, pensando em árvores, cerca de 900 delas por minuto.
Tendo como base os dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, as emissões pelo desmatamento na Amazônia em 2016 poderão superar sozinhas as emissões totais de todo o setor de energia, transporte e indústrias do Brasil em 2015.
É certo que houve grande queda do desmatamento desde o pico de 2004, quando bateu em 27,7 mil quilômetros quadrados. Uma série de políticas aplicadas nos anos seguintes derrubou as taxas a 11 mil em 2007. Nesse período, foram implementados o monitoramento mensal dos focos de desmatamento, operações extensivas de combate à exploração ilegal, a forte ampliação das áreas protegidas e da política de gestão de florestas públicas. Em 2008 sinais da reversão da tendência (a taxa chegou a 12,9 mil quilômetros quadrados) provocaram uma nova série de medidas, como o embargo de áreas desmatadas ilegalmente, a criação da lista suja de municípios que mais desmatam, as alterações na política de crédito agrícola, a responsabilização da cadeia produtiva pelo desmatamento e a criação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Seguiram-se quatro anos de queda, e em 2012 a taxa chegou a 4,5 mil quilômetros quadrados, o número mais baixo registrado na série histórica iniciada em 1988. Os anos seguintes foram de crescimento entre cinco e seis mil.
Apesar deste avanço, o Brasil continuou sendo o país que mais desmata no mundo. Em 2009, na preparação para a Conferência de Copenhague, lançou a meta de reduzir até 2020 o desmatamento em 80% da Amazônia e 40% do Cerrado com relação à média do período de 1996 a 2005. Para a Amazônia, isso significa chegar em 2020 com até 3,9 mil quilômetros quadrados de desmatamento. Em 2016 a taxa de desmatamento deve ser mais do que o dobro desta meta. Estamos nos distanciando dela, em vez de acelerar e buscar o mais rápido possível o desmatamento zero.
Nos últimos anos, as políticas de combate ao desmatamento e promoção da conservação foram afrouxadas, com a fragilização do Código Florestal, a paralisia na definição de novas áreas protegidas, o corte dos orçamentos da fiscalização e a redução da transparência dos sistemas de alerta do desmatamento. Agora a conta chegou.
É hora de reverter este quadro.
Os recentes sinais do governo através do Ministério do Meio Ambiente sobre a retomada da criação de áreas protegidas e destinação das terras públicas não destinadas, a implementação das concessões florestais, a volta dos alertas em tempo real do desmatamento (e não só na Amazônia) e a abertura dos dados do CAR e de todo o sistema de dados de licenciamento e transporte de madeira e pecuária são bons sinais. Mas precisam se concretizar, e rápido. Cada hectare de floresta perdido agrava os problemas climáticos e reduz nossa capacidade de adaptação. É urgente e é para agora!
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