Revista ECO•21

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Edição 241
Produzir, consumir, viver e imaginar o tempo
Samyra Crespo
Ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins MAST/RJ. Desde 2013 é uma das principais articuladoras da Rede Brasileira de Mulheres Líderes pela Sustentabilidade. Também coordenou as 5 edições da pesquisa nacional “ O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (MMA, 1992 a 2012).
 
Desde o lançamento desta nova pesquisa em Novembro deste ano, que estamos desenvolvendo no âmbito da Rede de Mulheres Brasileiras Líderes pela Sustentabilidade, com o apoio do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), uma pergunta tem sido recorrente: o que tem a ver esta questão – novos padrões de produção e consumo do tempo – com a sustentabilidade. Nas linhas abaixo tentarei fazer as conexões que considero relevantes, bem como conquistar a curiosidade dos leitores da ECO•21 para que acompanhem o desenrolar deste fascinante estudo.
Uma questão de fundo está presente em todo debate sobre a sustentabilidade: a urgência de se empreender ações de transformação de nossa sociedade (tida como insustentável) e o tempo do ciclo da natureza, da história natural da Terra, e das espécies – da nossa evolução. Há um conflito quase hermenêutico entre o curto prazo (no máximo 100 anos) em que um ser humano habita o Planeta e o longo prazo, que representamos na figura das futuras gerações, na figura das civilizações e culturas numa linha de tempo humano que não ultrapassa, se recuarmos, a 10 mil anos.
O ser humano nunca gozou de tanta longevidade, como nas últimas duas décadas, ainda que esta não se distribua por igual no Planeta. Mas o fato é que os quase 80% de pessoas que existem no mundo, e que estão concentrados em cidades poderão viver cerca de 80 a 100 anos.
Contudo e apesar de parecer que ganhamos tempo, nunca se viveu tão agudamente a “angústia do tempo”: a sensação de que ele é um recurso escasso, mal utilizado e que a pressão sobre nossas vidas, exercida por variados fatores ligados ao estilo de vida urbano e à sociabilidade que lhe corresponde, nos oprime (nos faz ficar doentes) ou nos lesa (roubando um tempo precioso) que poderíamos dedicar aos estudos, à família, às ações cívicas, às causas humanitárias, etc. No limite, o tempo da natureza não parece combinar com o tempo da cultura humana, e a lentidão na tomada de decisão com relação ao fenômeno das mudanças climáticas vai criando uma sombra sobre o futuro e uma ansiedade que se espraia no presente. Temos mais tempo em nossas vidas, mas temos pressa. Nos falta tempo. Paradoxo, não?
Mas olhemos com alguma perspectiva histórica como esta problemática – a do tempo – vem sendo tratada. No mundo do trabalho, a questão do tempo foi resolvida com a adoção do modo de produção fordista, sobretudo na primeira metade do Século 20, solução resumida na expressão “time is money”. A “eficiência na utilização do tempo” transformou-se em uma questão econômica de crucial importância para determinar custos e “produtividade”. Em nossos dias, quando empresas atuam globalmente, e em diferentes fusos horários, a questão do tempo tornou-se essencial para o gerenciamento dos negócios. Diferentes escolas de “administração do tempo” foram então surgindo para, na ótica capitalista, otimizar o tempo. A palavra de ordem entre executivos, “decision” e “policy-makers” passa a ser “a gestão do tempo”. Toda uma literatura com este enfoque passa a influenciar mundo das corporações.
No contraponto desta abordagem estão as explorações teóricas de Paul Lafargue com o seu provocativo manifesto “O Direito à Preguiça”, do filósofo Domenico Di Masi, e mais recentemente da escritora e ativista feminista Rosiska Darcy de Oliveira. Lafargue se insurge contra a venda da força de trabalho que em sua opinião não é senão a venda do “tempo” de lazer, do ócio necessário à filosofia e ao bem viver. Di Masi vai além e defende o “ócio criativo”, sem o qual uma sociedade tende a ficar medíocre e estéril. Rosiska Darcy prega a necessidade de uma “reengenharia do tempo”, uma readequação do uso do tempo mediante o reconhecimento de que ele é um dos recursos mais valiosos, e de que o mundo mudou radicalmente com o ingresso massivo das mulheres no mercado de trabalho. Para ela, as alterações no padrão de constituição das famílias, a adoção do estilo de vida urbana e a “realidade das mulheres” que trabalham não foram acompanhadas de um redesenho nos espaços, funções e equipamentos culturais, impondo às mulheres uma sobrecarga brutal especialmente no que diz respeito à discrepância de tarefas e expectativas frente ao tempo real de que dispõe cada indivíduo em sua vida cotidiana. Inserir o “feminino” no tempo, tal como é pensado e vivido nesses dias de “modernidade avançada”, onde proliferam as soluções tecnológicas, eis um desafio lançado pela autora. Temos que colocar no coletivo este debate que aparece hoje como um dilema do indivíduo, diz a autora.
Nessa segunda escola, a gestão do tempo se transforma numa gestão da qualidade do tempo vivido. Cantado em poesia e verso, e citado em nossas diatribes cotidianas, o tempo na perspectiva de nossa pesquisa é um recurso escasso, não pode ser utilizado de maneira predatória e definitivamente é o fator que pode ou não agregar maior ou menor qualidade de vida.
A relação desta problemática com a “agenda da sustentabilidade” se dá em vários níveis e é estreita a conexão com os vários labels que identificam os nichos de atuação do que há de mais palpitante em termos de novas formulações, novas visões de futuro. Podemos citar os movimentos das “sustainable cities”, “sustainable economy”, “sustainable life-style”, e “sustainable consumption”, entre os que mais nos instigam a pensar a problemática do tempo na ótica da sustentabilidade. As chamadas novas tendências contra-culturais evidenciam cada vez mais esta relação: o “slow-food”, “slow-cities” “go for better quality of life” vão cimentando a tese de que é preciso frear a velocidade que imprimimos à nossa jornada cotidiana, e fazer escolhas mais conscientes de como desejamos alocar nosso tempo. Nesta chave de leitura, o tempo é um bem raro, escasso, e quando mal utilizado ou desperdiçado nos priva de bem-estar; nos priva de vida.
A relação com a saúde também é fácil de estabelecer: os médicos e terapeutas são unânimes em afirmar que fatores ambientais interferem na saúde e que a pressão do tempo (dead-lines no trabalho, na escola, etc.) é cada vez mais causadora de stress, estando associada às doenças somáticas do século – a ansiedade e a depressão. Os engarrafamentos, as filas intermináveis, a violência, e uma série de outros fatores contribuem decisivamente para uma série de males somáticos.
Nos últimos anos, as cidades vêm tentando traduzir em políticas públicas as aspirações por uma melhor qualidade de vida urbana, o que tem resultado em desenhos inovadores de espaços e equipamentos urbanos. A questão da mobilidade e das “facilities” estão na ordem do dia, bem como a de como proporcionar experiências significativas de lazer e de convívio social.
Nosso esforço neste estudo será direcionado a mapear os repertórios com que atores chaves que atuam na transformação da sociedade e que promovem a agenda da sustentabilidade, tratam a produção e o consumo do tempo. De natureza qualitativa a pesquisa tem o objetivo de recolher as noções dominantes sobre “tempo produtivo”, “tempo poupado ou roubado pela tecnologia e pela ausência de facilities”, “tempo para o ócio e lazer”, “tempo para os cuidados com idosos, crianças e doentes”, “o tempo para as ações de cidadania e solidariedade”, entre outros tópicos de interesse. A finalidade é promover escolhas mais conscientes de como alocar o nosso tempo e de como transformar a nossa sociedade promovendo os valores e práticas da sustentabilidade. Os primeiros resultados da pesquisa serão divulgados em Março do próximo ano, mas toda uma estratégia de engajamento de influenciadores e formadores de opinião está sendo desenvolvida e divulgada pelo nosso Facebook: www.facebook.com/redemulheressustentabilidade.
Convidamos os leitores a acompanhar e contribuir.
Site da Rede de Mulheres: www.redemulhersustentabilidade.org.br
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