Revista ECO•21

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Edição 241
Degradação socioambiental e climática nas megacidades
Alberto Teixeira da Silva
Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP. Professor Associado da Universidade Federal do Pará
 
O modelo de desenvolvimento urbano-industrial hegemônico no Planeta tem desencadeado, sobretudo nas últimas décadas, profundas assimetrias de poder, desigualdades socioambientais e espalhado medo e insegurança em grandes metrópoles mundiais. Como sentenciou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “as cidades se transformaram em depósitos de problemas causados pela globalização”. Esta problemática tem se orientado pelo domínio da racionalidade instrumental, onde as sociedades passam a ser guiadas pela economia de acumulação de bens que direciona uma visão de felicidade baseada no progresso material sem limites.
Os múltiplos tentáculos da globalização que incide sobre os espaços urbanos, capitaneada por um estilo de modernização neoliberal avassaladora, sob a égide de padrões de produção e consumo insustentáveis, criam sérios desafios para a gestão das cidades que buscam administrar suas agendas domésticas e harmoniza-las com diferentes demandas. Contudo, são as grandes e megacidades, palcos par excellence dos impactos perversos do crescimento econômico excludente, além dos extremos climáticos (ondas de calor, secas, chuvas, etc.) cada vez mais frequentes, gerando, em consequência, problemas crônicos de transporte, habitação e mobilidade.
A recente publicação do filme secreto intitulado “Megacidades: o Futuro Urbano, a Emergente Complexidade” (Megacities: Urban Future, the Emerging Complexity) utilizado pela Universidade de Operações Especiais Conjuntas (JSOU) do Pentágono, destaca o futuro sombrio e devastador dos centros urbanos já nos próximos 15 anos. Este vídeo exibido pelo https://theintercept.com/, mostra os sinais visíveis de impactos sistêmicos que fazem parte do contexto turbulento das megacidades (acirramento das desigualdades sociais, pobreza, redes criminosas, infraestruturas precárias, etc.).
Segundo o relatório “Cidades do Mundo”, divulgado em Maio de 2016 pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), o atual modelo de urbanização global é insustentável. Todavia, as regiões periféricas são as que convivem com situações mais dramáticas e estão sendo mais afetadas pelo quadro de marginalidade e riscos a que estão expostas, além de possuir baixa capacidade de responder aos dramas cotidianos da contaminação atmosférica e ausência de políticas públicas básicas. São necessários mais investimentos e formatos de governança cooperativa, além da democratização do acesso aos espaços e equipamentos urbanos.
A urbanização indomável nas últimas décadas tem provocado fluxos migratórios intensos para as cidades, com aumento populacional significativo nas regiões metropolitanas de grandes centros urbanos. Basta dizer que desde 2008, 54% da população mundial vive em cidades, e a tendência é que este percentual cresça de forma vertiginosa. Se em 1995 tínhamos 14 megacidades no mundo, hoje esse número pulou para 29, em sua grande maioria localizada em países subdesenvolvidos ou emergentes. América Latina, África e Ásia devem atrair contingentes populacionais que vão germinar e impactar outras megacidades que serão criadas até 2030.
Dentro da geopolítica mundial, as grandes cidades estão se tornando terrenos caóticos de problemáticas que evoluem para condições de degradação socioambiental, mas também são reconhecidas como locomotivas das mudanças estruturais que desencadeiam políticas públicas para o reordenamento urbano e o bem-estar dos cidadãos. Neste sentido, as cidades buscam reinventar-se, a partir das proposições e exigências de novos paradigmas de inclusão social e territorial, reestabelecendo formatos de planejamento público que abrigue diferentes segmentos vulneráveis e garanta direitos de cidadania com a mobilidade urbana.
A América Latina é a região mais urbanizada e desigual do mundo e extremamente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, tendo 73% de suas populações vivendo em áreas costeiras, contingente populacional que será fortemente afetado pela elevação do nível do mar. Assim como outras megacidades espalhadas nos diversos continentes, São Paulo, Cidade do México e Buenos Aires, sofrem severamente as consequências e danos provocados pelas das mudanças climáticas, considerando seu perfil de forte adensamento populacional, poluição atmosférica e emissões derivadas do consumo energético intensivo baseado nos combustíveis fósseis.
As megacidades cada vez mais populosas e atrativas, vão comandar e concentrar as principais atividades da economia neste século global, gerando oportunidades e progresso material para muitos, mas também condenando milhares de pessoas às injustiças sociais e ambientais, visto que as populações mais pobres e vulneráveis serão as mais indefesas e afetadas pelas tragédias e catástrofes ambientais e climáticas. Para tirar a ressaca da ilusão de felicidade diante desse modelo de desenvolvimento global doente, viver em megacidades em tempos sombrios de incertezas e riscos impõe também experimentar o ônus e os perigos desse “maravilhoso mundo tecnológico”. O futuro das megacidades vai se tornando angustiante neste cenário quase ingovernável do capitalismo global.
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