Revista ECO•21

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Edição 241
Amizade de Castro e Cousteau salvou o oceano de Cuba
David E. Guggenheim
Presidente do Ocean Doctor em Washington, DC
 
O capitão observou com alguma consternação como um navio não identificado, cinza, sem identificação, vinha na direção do nosso navio ancorado a mais de 50 milhas da costa sul de Cuba. Alguns tripulantes especularam nervosamente sobre o barco que se aproximava, nunca antes visto por estas bandas. O barco ancorou ao nosso lado e duas figuras imponentes em uniformes militares verde-oliva desembarcaram. Um representante do Ministério do Interior estava ao lado de seu colega cujo uniforme, assim como o barco que o levou, não possuía identificação alguma. Com a arma no cinto, ele se virou para o capitão e pediu para falar com Robert F. Kennedy Jr.
Naquele momento, Kennedy, uma liderança ativista ambiental, presidente da Waterkeeper Alliance e filho do falecido Senador Robert Kennedy, estava 30 metros abaixo da superfície com o resto do nosso grupo, observando uma dúzia de tubarões traçando círculos em volta de nós. Nós estávamos carregando a bandeira do The Explorers Club, visitando e documentando ecossistemas de recifes de coral nunca antes explorados em águas do Sul de Cuba.
Depois de voltar para o barco, a missão dos nossos hóspedes foi revelada. Nós tínhamos sido visitados por um representante da guarda pessoal do presidente cubano Fidel Castro, que tinha uma carta do Comandante para Kennedy. Missão completa, eles posaram para uma foto e partiram na viagem de 100 km de volta à costa e mais 6 horas de carro de volta à Havana. Eles tinham viajado uma boa distância para nos encontrar e entregar pessoalmente uma carta. Obviamente, estávamos muito curiosos quanto ao seu conteúdo.
Alguns dias antes, Kennedy Jr. e sua família haviam visitado Castro, que os acolheu calorosamente. Cerca de 52 anos antes, Robert Kennedy, servindo como Procurador Geral dos EUA, e seu irmão, o Presidente John Kennedy, estavam por um fio de uma guerra com Cuba e a União Soviética durante a Crise dos Mísseis. A silenciosa reunião Castro-Kennedy Jr. foi histórica. As relações entre Cuba e os EUA estavam aquecendo, embora o dramático anúncio da normalização das relações diplomáticas não ocorreria por mais seis meses.
Kennedy Jr. compartilhou a carta comigo, eram reflexões de Fidel sobre a reunião e amáveis palavras a Kennedy e sua família. Achei muito significativo seu interesse pelos oceanos: “Por muitos anos fui apaixonado e pratiquei pesca submarina sem a devida consciência sobre a beleza e o valor dos recifes de coral. Através disso conheci algumas das experiências de Cousteau, que se apaixonou de tal modo pelo mar que acabou se tornando um dos mais famosos defensores da vida e da importância dos mares. Hoje se sabe que o mar é uma das maiores e mais variadas fontes de alimentos ricos em proteínas. Esses fatores me ajudaram a entender a importância dos serviços que você tem prestado ao povo dos EUA e de outras nações do mundo na luta para proteger o meio ambiente”.
A influência de Cousteau em Castro foi um tema recorrentemente comentado por colegas cubanos durante meus muitos anos de trabalho em Cuba. Castro leu e foi influenciado por livros de Cousteau e, em 1985, quando Jacques visitou a ilha para fazer um documentário, os dois finalmente se encontraram e compartilharam uma amizade especial. Castro concedeu a Cousteau um raro privilégio durante suas visitas. Cousteau e sua equipe se tornaram os primeiros não-cubanos, desde 1962, a entrar na base naval dos EUA em Guantánamo, onde fez pesquisas sobre a flora e fauna submarinas. Castro passou grande parte do tempo com Cousteau, jantando com ele a bordo do Calypso, seu navio de pesquisas hidrográficas.
No final dos anos noventa, a bordo de outro navio de pesquisa visitando os Estados Unidos, Castro refletiu sobre sua amizade com Cousteau e disse: “Você sabe, ele amava explorar águas cubanas por causa da nossa proteção”. No documentário “Cuba: Waters of Destiny”, Cousteau está claramente envolvido com o que ele observa em Cuba: “Meu primeiro mergulho nas águas cubanas serve como um momento de verdade... em torno de mim, peixes grandes entre florescentes corais, os recifes mais ricos do que qualquer outro que eu já vi em anos”, uma lembrança impressionante que até 30 anos atrás, o desenrolar dos ecossistemas de recifes de coral no Caribe estava bem encaminhado.
Hoje se estima que o Caribe tenha perdido metade de sua cobertura de recifes de coral. Poupado em parte por uma história que levou Cuba a se desenvolver de modo profundamente diferente do que o resto do Caribe, juntamente com leis ambientais de nível mundial, muitos dos ecossistemas de recifes de coral de Cuba foram poupados da morte que se observa em todo o Caribe.
Antes de permitir que o Calypso se afastasse das águas cubanas, Castro desafiou Cousteau, perguntando por que ele não tinha um cientista cubano a bordo. Consequentemente, Cousteau depois acolheu o Dr. Gaspar Gonzalez Sansón, ex-vice-Diretor do Centro de Pesquisa Marinha da Universidade de Havana, para trabalhar como cientista convidado a bordo do Calypso na Nova Zelândia. Anos mais tarde, o Dr. Gonzalez se tornaria o nosso co-pesquisador principal durante uma década de expedições ao longo da costa Noroeste de Cuba e nos alegrou com contos hilariantes de um cubano entre os franceses a bordo do Calypso.

Castro e Cousteau na RIO-92

A amizade de Cousteau e Castro continuou reforçada pela solidariedade ambiental na Cúpula da Terra no Rio em 1992, onde Castro fez um discurso nitidamente redigido e estranhamente breve, implorando ao mundo desenvolvido que “parem de transferir ao Terceiro Mundo os estilos de vida e hábitos de consumo que arruínam o meio ambiente e tornam a vida humana mais racional”.
No início de 1998, menos de seis meses após Cousteau falecer, Castro lembrou com carinho um encontro lúdico com Jacques na RIO-92: “Eles têm todos os Chefes de Estado alinhados para uma foto de capa no Rio, e eu puxei Cousteau ao meu lado e disse: Capitão, venha sair na foto conosco, porque a maioria das pessoas aqui não sabem nada sobre meio ambiente. E ele veio e saiu na foto com todos nós.”
Em julho de 1997, Cuba promulgou a Lei do Meio Ambiente, um conjunto verdadeiramente impressionante de leis e regulamentos destinados a reverter o dano ambiental das décadas anteriores e traçar um caminho de sustentabilidade. Em uma década, Cuba proibiu a prática da pesca predatória de arrasto. Hoje, a ilha quase alcançou o seu objetivo de proteger 25% das suas águas costeiras em áreas marinhas protegidas, uma das maiores percentagens do mundo. (Em comparação, a média global é atualmente de 2 a 3%). Muitos cubanos atribuem a essa Lei o compromisso com a preservação e a ética ambiental de Fidel, que o Comandante Castro, em parte, atribuía a Cousteau.
Com a morte de Castro, e um possível retrocesso nas relações com Cuba pelo Governo Trump, há uma crescente inquietação sobre o futuro incerto de Cuba. Enfrentando uma profunda crise econômica e necessitando crescer sob uma pressão sem precedentes, especialmente em resposta aos planos que levarão o turismo a triplicar até 2030, Cuba será posta à prova nos anos vindouros. Por agora, a ilha continua a ser uma joia verde, intocada no Caribe. É um lugar onde a política ainda é informada pela ciência e pela verdade, e as decisões regidas por suas leis.
Em 2014, fazia tempo desde que Fidel Castro havia usado uma máscara de mergulho e explorado pessoalmente as águas de Cuba, mas era claro que sua paixão e curiosidade pelo o mar era tão forte como nunca.
Em sua carta, Castro fez um pedido simples, mas urgente a Kennedy Jr: “Hoje, peço-lhe, se você tem alguns minutos, me fale sobre a impressão geral de que você teve da parte submarina...” Várias semanas depois, Kennedy garantiu ao Comandante que, por enquanto, os ecossistemas marinhos de Cuba ainda eram saudáveis e espetaculares.
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