Revista ECO•21

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Edição 241
A negação climática de Trump é uma das forças que apontam para a guerra
George Monbiot
Jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista. Colunista do The Guardian
 
Balance a varinha mágica e o problema se vai. Essas irritantes leis de poluição, cortes de carbono e planos de energia limpa: abanem eles para fora e a era de ouro do emprego operário voltará. Essa é a promessa de Donald Trump, na sua mensagem gravada no dia 21/11, na qual o presidente eleito disse que liberar o carvão e o fracking pode criar “muitos milhões de empregos bem pagos”. Ele vai acabar com tudo para que isso se torne verdade.
Mas não irá. Mesmo se destroçarmos o mundo em pedaços em busca do pleno emprego, não o encontraríamos. Ao invés, prejudicaríamos a prosperidade – e as vidas – de todas as pessoas. Mesmo os governos se rastejando aos pés do Ludismo corporativo (segundo Eric Hobsbawn, o ludismo era uma técnica de sindicalismo de operários no período que precedeu a revolução industrial), eles não trarão a economia da fumaça de volta.
Ninguém pode negar o problema que Trump diz estar abordando. As antigas áreas de mineração e industriais estão em crise ao redor do mundo rico. E não vimos nada ainda. Eu acabei de reler o estudo publicado pela Escola Martin de Oxford em 2013 sobre os impactos da informatização. O que salta aos olhos, é que os empregos nas cidades do cinturão da ferrugem e em cidades rurais que votaram em Trump estão em alto risco de automação, enquanto as profissões de muitos apoiadores de Clinton estão em baixo risco.
Os empregos que são mais prováveis de serem destruídos são na mineração, na matéria-prima, manufatura, transporte e logística, manuseio de carga, estocagem e varejo, construção (prédio pré-fabricados serão montados por robôs em indústrias), apoio administrativo, administração e telemarketing. Então o que sobrará nas áreas que votaram em Trump?
Empregos em fazendas, quase todos já se foram. Trabalhos em serviços e assistência, onde estavam as esperanças de alguns, serão ameaçados por uma onde de automação, enquanto os robôs – comerciais e domésticos – tomam conta.
Sim, terão empregos na economia verde: mais e melhores do que quaisquer outros que pudessem ser revividos na economia fóssil. Mas não serão suficientes para preencher os vácuos, e muitos estarão nos lugares errados para aqueles perdendo suas profissões.
Em menor risco está o trabalho que exija negociação, persuasão, originalidade e criatividade. Os empregos de gerência e negócios que exijam essas habilidades estão seguros da automação; bem como os de advogados, professores, pesquisadores, médicos, jornalistas e artistas. Os empregos que demandam maior obtenção educacional são os menos suscetíveis à automação. A divisão que separa os EUA somente irá se ampliar.
Mesmo essa análise desoladora não representa inteiramente as razões pelas quais empregos bons e abundantes não voltarão aos locais que mais necessitam deles. Como argumenta Paul Mason em PostCapitalism, os impactos da tecnologia da informação vão além da simples automação: é provável que destrua a base da economia de mercado, e a relação entre trabalhadores e salários.
E, como nota o escritor francês Paul Arbair no artigo mais interessante que li esse ano, além de um certo nível de complexidade, as economias se tornam mais difíceis de sustentar. Há um ponto no qual uma maior complexidade entrega retornos diminuídos; a sociedade então se impressiona com as demandas, e quebra. Ele argumenta que a crise política nos países ocidentais sugere que tenhamos chegado nesse ponto.
Trump também anunciou que em seu primeiro dia no cargo irá retirar os EUA da Parceria Trans-Pacífica (TPP). Ele está certo em fazê-lo, mas pelas razões erradas. Como a TTIP e a CETA, a TPP é um acordo de comércio falso cujo primeiro impacto é estender os direitos de propriedade corporativos à custa da competição e da democracia. Mas a retirada não irá, como ele diz, “trazer empregos e a indústria de volta ao país”. O trabalho no México e na China que Trump quer reivindicar irá evaporar bem antes de ser repatriado.
Quanto aos empregos de alta qualidade e bem pagos para a classe trabalhadora que ele prometeu, nunca são entregues de mão beijada do topo. Eles são garantidos através da organização do trabalho. Mas os sindicatos foram destroçados por Reagan, e a barganha coletiva foi suprimida desde então pela casualidade e fragmentação. Então como isso irá proceder? Pela bondade do coração de Trump? Bondade... Trump... Coração?
Mas não é só Trump. Clinton e Sanders também fizeram promessas impossíveis de trazer empregos de volta. Metade da plataforma de cada partido foi baseada em uma desilusão. As crises sociais, ambientais e econômicas que encaramos exigem uma completa reavaliação do modo que vivemos e trabalhamos. O fracasso dos partidos políticos tradicionais em produzir uma nova e persuasiva narrativa econômica, que não se baseia em sustentar níveis impossíveis de crescimento e gerar empregos ilusórios, fornece uma abertura incrível para os demagogos de todos os cantos.
Governos ao redor do mundo estão fazendo promessas que não podem cumprir. Na ausência de uma nova visão, seu fracasso em materializá-las significará apenas uma coisa: algo ou alguém deve ser culpado. Enquanto as pessoas se tornam mais raivosas e mais alienadas, a complexidade e a conectividade dos sistemas globais se tornam mais difíceis de lidar, as instituições como a UE colapsam e a mudança climática torna algumas partes do mundo inabitáveis, forçando centenas de milhões de pessoas para fora de seus lares, a rede de culpa se torna cada vez maior.
Eventualmente, a raiva que não pode ser abrandada por meio de políticas se voltará para outras nações. Tendo que encarar uma escolha entre duras verdades e mentiras fáceis, políticos e seus apoiadores na mídia descobrirão que a agressão estrangeira está entre as poucas opções para a sobrevivência política. Eu acredito agora que veremos uma guerra entre as grandes potências ainda nesse meu tempo de vida. Quem será envolvido, e porque, não é claro. Mas algo que parecia remoto agora parece provável.
Uma completa reavaliação da vida econômica é necessária não apenas para suprimir o risco existencial que a mudança climática apresenta (um risco marcado por uma anomalia de 2°C relatado no Oceano Ártico), mas também outras ameaças existenciais – incluindo guerra. Os governos de hoje, se são dirigidos por Trump ou Obama ou May ou Merkel, não tem coragem e imaginação até para abrir essa conversa. Resta aos outros conceberem uma visão mais plausível do que tentar voltar magicamente aos bons velhos dias. A tarefa para todos aqueles que amam esse mundo e temem por nossas crianças é imaginar um futuro diferente ao invés de outro passado.
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