Revista ECO•21

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Edição 243
Planeta doente, Terra cansada
Marcus Eduardo de Oliveira
Economista e ativista ambiental
 
A dinâmica específica do modo de produção capitalista, em sua íntima relação com a economia, centrada numa visão egoísta (pois privilegia a acumulação individual) e antropocêntrica, (pois coloca o homem como senhor de tudo, inclusive sobrepujando as leis da natureza), produziu um tipo de crescimento econômico dilapidador dos sistemas ecológicos da Terra e da biodiversidade, e agressor em potencial dos principais serviços ecossistêmicos (água limpa, ar puro, regulação do clima, polinização das flores, semeação do solo, fotossíntese etc.).
O que poderia ser um crescimento agregador, não fosse à voracidade mercadológica, consubstanciou-se num tipo de economia que, via sistema de preços, transformou absolutamente tudo em mercadoria (até mesmo o tráfico de pessoas e de órgãos humanos).
A tentativa de consolidar esse “modo de produzir” resultou um intenso foco de tensão entre o sistema econômico e o sistema ecológico. Não obstante, para validar a ordem que emana do mercado de consumo, sempre recomendando políticas de crescimento econômico exponencial, a preocupação em preservar o meio ambiente e a biota foi jogada para escanteio, relegada, pois, a condição de insignificância.
Tudo isso resultou no quadro atual: um Planeta doente, uma Terra cansada, uma economia socialmente desequilibrada, um retrato ecológico expresso na morte de espécies (uma espécie desaparece por dia), uma economia dilapidada do ponto de vista social com taxas de pobreza e miséria cada vez mais crônicas e aberrantes. Se a tentativa – via crescimento econômico – era “melhorar” o mundo, o resultado foi a piora acentuada do espaço que habitamos dada a “convivência” com lixo radioativo, chuva ácida, poluição urbana, maré vermelha, excesso de dióxido de carbono (a cada minuto, 10 mil toneladas são lançadas na atmosfera) e outros dissabores mais produzidos pela expansão da atividade econômica.
Assim, o homem-econômico, para ter sua sede de consumo saciada, estreitou relações com a natureza e se entregou abertamente ao torpe e avassalador modo de consumo vigente nas economias avançadas. Com isso, ainda não se deu conta que, ao “alimentar” esse superconsumo abastecido por uma superprodução de mercadorias artificiais (na maioria das vezes fúteis), somente contribui para arrebentar um pouco mais com os elementares serviços ecossistêmicos que, além de garantir a vida humana, ainda dá suporte à própria economia.
Por isso, Ban Ki-moon, então Secretário-Geral da ONU, disse durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (em 2011), que esse modelo aí que acabamos de descrever é um verdadeiro “pacto de suicídio global”. De fato, estamos todos propensos a esse “suicídio global” uma vez que, dentro da espaçonave Terra, como bem lembrou McLuhan, “somos todos pilotos e passageiros ao mesmo tempo, já que estamos inseridos na natureza”. Leonardo Boff, a esse respeito, assevera que “no Universo e na natureza, em todas as circunstâncias, tudo tem a ver com tudo, afinal, somos todos feitos do mesmo pó cósmico que se originou com a explosão das grandes estrelas vermelhas”.
Da terra tiramos nosso sustento e à terra devolvemos dejetos do processo produtivo (resíduo, poluição, matéria dissipada). É assim que age o sistema econômico: usa e explora os limitados recursos naturais (input) e devolve lixo (output) à natureza. Logo, quanto mais crescimento (econômico), mais intensa é a agressão (ecológica). E assim aumenta-se a tensão entre essas correntes, a econômica e a ecológica.
Esse processo é tão agressivo que, de acordo com estudos recentes, 60% dos serviços ecossistêmicos estão degradados. Por isso crescer economicamente é sinônimo de poluir assoberbadamente.
Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão de ser do processo produtivo) significa “destruir”. Lamentavelmente, as economias modernas têm aperfeiçoado os mecanismos dessa “destruição”, esgotando em várias frentes o patrimônio natural (biomassa das florestas, solo arável, disponibilidade de água etc.).
Na Carta da Terra, um dos mais importantes e sérios documentos elaborados pela inteligência humana, lê-se que “os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando”.
No visor do “relógio econômico”, os ponteiros marcam um crescimento destruidor da natureza. O momento, portanto, exige uma só saída: abandonar definitivamente esse modelo econômico que transformou tudo em mercadoria, antes que a bomba-relógio acabe conosco.







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