Revista ECO•21

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Edição 244
A água está no início de todas as coisas
Papa Francisco
Discurso do Papa Francisco no Seminário "Direito Humano à Água" organizado pela Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano
 







Cumprimento a todos os presentes e agradeço a participação neste Encontro que aborda a problemática do direito humano à água e a exigência de políticas públicas que possam enfrentar esta realidade. É significativo que os senhores se unam para aportar seu saber e seus meios com o objetivo de dar uma resposta a esta necessidade e a esta problemática que vive o homem de hoje.
Como lemos no livro do Gênese, a água está no início de todas as coisas (cf. Gn 1,2); é “criatura útil, casta e humilde”, fonte da vida e da fecundidade (cf. São Francisco de Assis, Cântico das Criaturas). Por isso, a questão que vocês tratam não é marginal, mas fundamental e muito urgente. Fundamental, porque onde há água há vida, e então a sociedade pode surgir e avançar. E é urgente porque a nossa casa comum necessita proteção e, além disso, assumir que nem toda água é vida: somente a água segura e de qualidade. Continuando com o pensamento de São Francisco: a água “que serve com humildade”, a água “casta”, não contaminada.
Toda pessoa tem direito ao acesso à água potável e segura; este é um direito humano básico, e uma das questões nodais no mundo atual (cf. Enc. Laudato si’, 30; Enc. Caritas in veritate, 27). É doloroso quando na legislação de um país ou de um grupo de países não se considera a água como um direito humano. Mais doloroso ainda quando se apaga o que estava escrito e se nega este direito humano. É um problema que afeta a todos e faz que a nossa casa comum sofra tanta miséria e clame por soluções efetivas, realmente capazes de superar os egoísmos que impedem a realização deste direito vital para todos os seres humanos. É necessário outorgar a água à centralidade que merece no marco das políticas públicas. Nosso direito a água é também um dever para com a água. Do direito que temos a ela se desprende uma obrigação que vai unida e não pode se separar. É iniludível anunciar esse direito humano essencial e defendê-lo – como se faz – mas também atuar de forma concreta, assegurando um compromisso político e jurídico para com a água. Neste sentido, cada País deveria concretizar, tanto com instrumentos jurídicos, quanto indicados pelas Resoluções aprovadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas desde 2010 sobre o direito humano, a água potável e ao saneamento. Por outra parte, cada ator não-governamental tem que cumprir suas responsabilidades para com esse direito.
O direito à água é determinante para a sobrevivência das pessoas (cf. ibíd, 30) e decide o futuro da humanidade. É prioritário também educar as próximas gerações sobre a gravidade dessa realidade. A formação da consciência é uma tarefa árdua; precisa convicção e entrega. E eu me pergunto se no meio desta “terceira guerra mundial aos pedacinhos” que estamos vivendo, não estaremos a caminho de uma grande guerra mundial pela água.
Os dados que a ONU revela são pungentes e não podem nos deixar indiferentes: cada dia morrem mil crianças por causa de doenças relacionadas com a água; milhões de pessoas consomem água poluída. Estes dados são muito graves; se deve frear e inverter esta situação. Não é tarde, mas é urgente tomar consciência da necessidade da água e de seu valor essencial para o bem da humanidade.
O respeito à água é condição para o exercício dos demais direitos humanos (cf. ibíd., 30). Se acatarmos este direito como fundamental, estaremos colocando as bases para proteger os outros direitos. Mas, se pulamos este direito básico, como seremos capazes de velar e lutar pelos demais? Neste compromisso de dar à água o lugar que lhe corresponde, faz falta uma cultura do cuidado (cf. ibíd., 231) – parece uma coisa poética e, bem, a Criação é uma “poiesis”, esta cultura do cuidado que é criativa – e, além disso, fomentar uma cultura do encontro, na qual se unam numa causa comum todas as forças necessárias de cientistas, empresários, governantes e políticos. É preciso unir todas nossas vozes numa mesma causa; já não serão vozes individuais ou isoladas, mas o grito do irmão que clama através de nós, é o grito da terra que pede respeito e o compartilhar responsavelmente um bem, que é de todos. Nesta cultura do encontro, é imprescindível a ação de cada País como garantia do acesso universal à água segura e de qualidade.
Deus Criador não nos abandona neste trabalho para dar a todos e a cada acesso a água potável e segura. Mas, o trabalho é nosso, a responsabilidade é nossa. Desejo que suas convicções sejam fortalecidas nesse Seminário e, saiam daqui com a certeza de que seu trabalho é necessário e prioritário para que outras pessoas possam viver. É um ideal pelo qual vale a pena lutar e trabalhar. Com o nosso “pouco” estaremos contribuindo para que a nossa casa comum seja mais habitável e mais solidária, mais cuidada, onde ninguém seja descartado nem excluído, mas que todos disfrutemos dos bens necessários para viver e crescer com dignidade. E não esqueçamos os dados, os números da ONU. Não esqueçamos que cada dia mil crianças morrem por doenças ligadas à água.







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