Revista ECO•21

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Edição 244
Uso de águas residuais é prática antiga no Semiárido
Verônica Pragana
Jornalista da Articulação no Semiárido Brasileiro - Asacom
 
As famílias agricultoras do Semiárido brasileiro têm muito a ensinar sobre o tema escolhido pela ONU para o Dia Mundial da Água deste ano: “Águas Residuais” - ou água servida, no jeito de falar das agricultoras e agricultores da Paraíba. Atualmente, 80% das águas utilizadas são descartadas na natureza. Se fossem reaproveitadas, a necessidade pela água potável diminuiria, assim como seria reduzido também o volume de esgoto lançado nos rios, lagos, mares.
Naturais de uma região com um regime de chuva irregular e cada vez mais afetada pelas mudanças climáticas, as famílias agricultoras precisam da água não só para beber e para o uso doméstico. A água é fundamental para cultivarem seu alimento, que também nutre outras tantas famílias suas freguesas nas feiras ou na própria comunidade. Com acesso regrado ao recurso essencial à vida, as famílias agricultoras sabem muito bem usar várias vezes a mesma água, sem desperdiçar nenhuma gota.
“Na região, as pessoas já trazem culturalmente esta prática pela dificuldade de acesso à água. Quando elas passam a ter acesso à água, através das cisternas, elas qualificam ainda mais esta prática devido à autonomia que ganham no uso do recurso”, comenta marcos Jacinto, da coordenação executiva da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) pelo Estado do Ceará.
Da necessidade, surgiram formas criativas e de fácil aplicação para o reaproveitamento de cada gota d´água que chega às propriedades das famílias rurais do Semiárido. Uma delas, conhecida como caminho das águas, é cavar valas no terreno dos quintais das casas para que o líquido que escorre das pias e tanques alcance as raízes das fruteiras. “Sempre aproveitei a água que a gente usa em casa. Mesmo com a chegada das cisternas, eu tenho cuidado pra não destruir a água. Porque eu já sofri com falta de água e a água era ruim, mas criava as verduras!”, contou a agricultora Eunice Dantas, conhecida como dona Nicinha, no boletim O Candeeiro, um instrumento de sistematização e comunicação popular que a ASA utiliza para contar as histórias de vida dos agricultores e agricultoras.
Com um pouco mais de estrutura, as valas no chão são substituídas por canos e duas caixas filtram a água antes de ser despejada nas plantas. Essa tecnologia, conhecida como bioágua, é muito difundida no Rio Grande e Pernambuco, por exemplo. A primeira caixa tem camadas intercaladas de brita grossa e fina com areia que retiram os resíduos da água. E a segunda, recebe a água filtrada, antes de gotejar nas plantas. É assim na propriedade de seu Antônio e dona Marlene Magalhães, do Sitio Carnaubinha, em Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, há 6 anos.
“Antes, a água do banho e da pia corria para o terreiro. No tempo das chuvas, criava lodo que fazia desgosto. Hoje, essa água está molhando as plantas que tinha que ser aguada por outra água. Se nós vamos escovar os dentes, a água termina nas plantas. Não desperdiçamos nenhum copo de água”, conta seu Antônio. Essa água, na verdade, é que está salvando os pés de fruta que alimentam a família. Mesmo assim, algumas mangueiras e goiabeiras sucumbiram à pior seca do século que, desde 2013, tem secado o açude perto da casa deles. Segundo seu Antônio, essa é a primeira vez que ele vê o açude sem água.
Outra tecnologia de aproveitamento de água é o banheiro redondo, disseminado em vários territórios do Semiárido por organizações sociais como a Diaconia, que atua no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, e no Oeste do Rio Grande do Norte. O banheiro redondo é projetado para o reuso das águas da pia e do chuveiro, que são direcionadas para dois tanques de decantação e daí para o pomar. “Depois da água (reutilizada) até minha alimentação melhorou. Comecei a plantar e vender aqui na comunidade”, contou dona Berenice Miranda, que mora na comunidade Água Branca, no município de Umarizal, no Rio Grande do Norte.
No Ceará, no município de Iguatu, outra tecnologia foi desenvolvida a partir da inspiração do sistema de bioágua. Batizada pelas organizações da ASA no Ceará como Sistema de Tratamento e Reuso de Águas Cinzas, esta tecnologia foi entregue a 25 famílias através de uma parceria entre o Instituto Elo Amigo e a Fundação Banco do Brasil. Trata-se de um filtro biológico formado, de baixo para cima, de seixos, brita, areia, pó de serragem e húmus com minhoca, a água sai purificada a ponto de poder irrigar alimentos que são comidos crus. "Como as famílias sempre estão usando água dentro de casa, todo dia tem água para passar pelo tratamento biológico", destaca Marcos Jacinto, ressaltando mais uma qualidade no reuso da água: a rapidez que a água fica disponível para voltar ao agroecossistema familiar.







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