Revista ECO•21

Av. N. Sra. Copacabana 2 - Gr. 301 - Rio de Janeiro - RJ
CEP 22010-122 - Tels.: (21) 2275-1490 / 2275-1499

 


. Edição em PDF
Edição 244
Geoengenharia. Por que não?
Suzana Kahn
Coordenadora-Executiva do Fundo Verde da UFRJ e Professora da COPPE/UFRJ
 
Não é concebível que uma linha de investigação científica seja objeto de preconceito, como acontece quando se trata de geoengenharia, que nada mais é do que uma ciência aplicada que altera os padrões climáticos. Não se pode desconsiderá-la como uma possível solução para o enfrentamento do aquecimento global.
Os últimos relatórios científicos deixam claro que as mudanças climáticas em curso estão acontecendo muito mais rapidamente do que o previsto. Um aquecimento médio da temperatura do Planeta de 1,5°C é quase inevitável nas próximas décadas e, para que o mundo não ultrapasse os 2°C de aquecimento no fim deste Século, considerado o limite razoavelmente seguro, será necessário não só um corte drástico nas emissões, mas também um aumento significativo na remoção de dióxido de carbono da atmosfera. No entanto, evita-se tratar do tema não apenas por desconhecimento das possíveis consequências sobre os ecossistemas globais, mas também por poder sinalizar uma manutenção do status quo.
A mesma situação ocorreu no passado, quando não se admitia uma discussão sobre adaptação climática por entender-se que um esforço nessa direção poderia significar menor atenção às ações de redução das emissões. No entanto, diante do fato de que já estamos para atingir nos próximos anos o limite de 1,5°C previsto para o fim do Século, fica evidente a necessidade de se avaliar quais alternativas que apresentam o menor risco de ruptura dos padrões climáticos que conhecemos. O que seria mais prudente? Uma maior elevação da temperatura da Terra ou o emprego da geoengenharia? Reconhece-se que as duas opções apresentam consequências de difícil previsão.
Várias técnicas de geoengenharia estão sendo pesquisadas, entre elas, a de absorção de plâncton, injeção de dióxido de carbono em depósitos subterrâneos para estocagem e engenharia genética de culturas com cor mais clara para refletir a luz solar de volta ao espaço. Nesse sentido, a urbanização crescente pode ser encarada como uma relevante interferência do homem no balanço de energia da Terra, uma vez que esta modificação da refletividade do Planeta faz com que mais calor seja retido, aumentando a temperatura média da superfície terrestre. Medidas como novos materiais para pavimentos e construções urbanas já teriam uma contribuição positiva. Sendo assim, a geoengenharia cobre tecnologias com diferentes graus de risco.
Para a tomada de qualquer decisão, não há espaço para preconceitos, pois há de se investigar, identificar melhor os riscos e avaliar como minimizá-los. A influência humana nos padrões climáticos já ocorre há tempos, seja por causa das emissões de gases que as atividades humanas provocam, alterando a composição de nossa atmosfera, seja por causa da alteração da refletividade da Terra, cuja origem são crescentes urbanização e desmatamento. Enfrentando riscos, portanto, já estamos há algum tempo.







Archipiélago



IPEMA

© Tricontinental Editora