Revista ECO•21

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Edição 244
O sistema de gestão das águas inserido em seu organismo
Maurício Andrés Ribeiro
Escritor e ambientalista
 
O organismo humano compõe-se de vários sistemas, tais como o sistema nervoso central, o respiratório, o digestivo, o ósseo, o urinário, o reprodutor, cada um deles composto por seus respectivos órgãos e relacionado com os demais. Entre eles está o sistema circulatório, que se compõe de vários órgãos (o coração, as artérias, veias, capilares etc.).
O sistema hídrico num território ou numa bacia hidrográfica é análogo ao sistema circulatório num organismo humano. A rede hidrográfica se compõe de suas nascentes, riachos, ribeirões, rios e lagos. Uma diferença é que o sistema hídrico se compõe também de aquíferos e lençóis subterrâneos e da água na atmosfera e nos corpos dos seres vivos.
A saúde de um corpo humano pode ser avaliada a partir de informações do sistema circulatório. Um exame de sangue mede o nível de colesterol, de triglicérides, de ureia, de glicemia, de hemácias, entre outros indicadores. Os resultados do exame indicam onde e como se deve atuar para restaurar a saúde do organismo.
Analogamente, a saúde ambiental de um território (um país, uma bacia hidrográfica, um município) pode ser avaliada a partir do sistema hídrico. O exame da qualidade da água de um rio ou de um lago, sua DBO (demanda bioquímica de oxigênio), nitrogênio, fósforo, turbidez, pH - permite aferir a saúde ambiental.
Tão importante como conhecer a situação e a qualidade das águas é ter a capacidade de atuar sobre a parte do organismo que origina o problema.
A água é o elemento central na estruturação de um território regional. Diferentemente de segmentos da população, tais como movimentos sociais ou empreendedores econômicos, a água não conta com advogados ou lobistas que lhe deem voz e por isso muitas vezes é esquecida. Somente é lembrada quando se torna um problema ou uma crise, por escassez, má qualidade ou excesso.
O sistema de gestão de recursos hídricos se compõe de vários órgãos e instituições – conselhos, comitês de bacia, agências executivas etc. - e dispõe de instrumentos de gestão de recursos hídricos (outorga, cobrança, enquadramento, planos, informações). Entretanto tal sistema e seus instrumentos são limitados para dar conta da multiplicidade de questões relacionadas com as águas. Quando há falta de saneamento, uso inadequado do solo, aplicação de agrotóxicos na agricultura, lançamento de poluições industriais, rompimento de barragens de rejeitos de mineração a ação preventiva ou corretiva precisa ser tomada pelo sistema de gestão correspondente. Se esse sistema se revela hidroalienado e carece de hidroconsciência, tende a se omitir na ação adequada.
É preciso evoluir da visão focada apenas num dos sistemas - o de gestão das águas - para visão e prática focadas no organismo inteiro e nas relações entre os vários sistemas de gestão que o compõem. A articulação e integração com outros sistemas de gestão que incidem sobre o território é um dos principais meios pelos quais se pode melhorar a situação das águas e lidar com as crises hídricas. Para restaurar a saúde do território é necessário sair da zona de conforto do sistema de gestão de recursos hídricos e atuar fora dele.
É necessário hidratar os sistemas de gestão do território, de desenvolvimento regional, de agricultura, energia e os sistemas de gestão o ambiental, o do saneamento; hidratar as políticas, planos e programas setoriais; reforçar acordos de cooperação entre órgãos e entidades da administração pública; promover a hidroconsciência e dissolver a hidroalienação na sociedade, de modo que os atuais e futuros governantes, empresários, representantes em conselhos de recursos hídricos ou em comitês de bacias, tenham sido educados para atuar de modo hídricamente responsável em seus campos de atividade.

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Maurício Andrés Ribeiro é autor dos livros Ecologizar; Meio Ambiente & Evolução Humana; Tesouros da Índia; Ecologizando a cidade e o planeta.
www.ecologizar.com.br







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