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Edição 245
Mobilidade de baixo carbono é fundamental para deter o aquecimento global
Paula Tanscheit
Jornalista do WRI-Brasil Cidades Sustentáveis
 
As emissões de carbono globais relacionadas à energia podem ser reduzidas em 70% até 2050, afirma um novo relatório desenvolvido pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) e pela Agência Internacional de Energia (IEA). Para isso, os países comprometidos com o Acordo de Paris precisam reforçar e acelerar os objetivos com que se comprometeram. Esse número só será possível a partir de investimentos em tecnologias de baixo-carbono para a geração de energia, transporte, construções e indústria. Em escala global, apenas o setor de transporte é responsável 20% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) relacionadas à energia, compostas quase inteiramente de CO2 da combustão de óleo. Trata-se, portanto, de um setor crucial no combate ao aquecimento global.
Segundo informações do relatório, as emissões do setor aumentaram mais de 30% desde 2000, em grande parte como consequência de um aumento na frota de veículos em 300 milhões neste período. Mais da metade do aumento nas emissões de CO2 é proveniente do grupo de países que integram o G20 (as maiores economias mundiais), mais China e Índia, onde a crescente demanda por mobilidade para as classes médias em expansão resultou em 130 milhões de veículos adicionados à frota automotiva.
O aumento das emissões de CO2 relacionadas aos transportes acompanha quase exatamente o aumento da procura de energia nos transportes, dada a forte dependência do setor de combustíveis derivados do petróleo. Em outras palavras: cada aumento percentual da demanda de energia nos transportes provoca um aumento proporcional das emissões.
Por outro lado, a intensidade das emissões de CO2 dos novos automóveis vendidos na Europa, por exemplo, diminuiu quase 30% desde 2000, com a taxa de melhoria acelerando após 2009, quando foi introduzida a primeira norma de emissões. O resultado europeu comprova a eficácia e a importância de ajustes nas normas adotadas em cada país. A própria oferta de petróleo de menor custo pode dificultar fortemente o desenvolvimento de tecnologias e alternativas eficientes ao uso dos derivados de petróleo no setor de transportes.
Em algumas cidades, a mudança de hábito em relação aos meios de transporte já resultou em quedas significativas no número de carros privados em uso. Em Paris, por exemplo, a introdução dos programas Vélib’ e Autolib’, que disponibilizam bicicletas compartilhadas e carros elétricos, respectivamente, e a implantação de mais corredores de ônibus e ciclovias, contribuíram para uma redução de 25% no uso do automóvel individual.
No Brasil, os transportes são responsáveis por 46% das emissões de GEE no setor de energia. Desde que o Acordo de Paris entrou em vigor, em 4 de Novembro de 2016, o país assumiu o compromisso de implementar ações para o cumprimento das metas estabelecidas em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), documento que comunica internacionalmente as medidas que serão tomadas aqui para lidar com as mudanças climáticas e como o Brasil se direcionará para um futuro de baixo carbono.
Para isso, o país trabalha atualmente na elaboração de uma Estratégia Nacional de Implementação e Financiamento da NDC e lançou um documento-base para os debates que serão organizados este ano pelo Ministério do Meio Ambiente. O Programa Mobilidade Urbana de Baixo Carbono em Grandes Cidades, idealizado pelo Ministério das Cidades, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), aparece no documento-base como instrumento de suporte do governo federal à atuação municipal na mobilidade urbana, cumprindo importante papel para a implementação dos princípios, diretrizes e objetivos tanto da Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU) quanto da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC).
Para que as metas do Acordo de Paris tenham 66% de chance de serem cumpridas, são necessárias medidas excepcionais. Considerando o uso de energia global em geração de energia, transporte, construções e indústria, o relatório estima que o orçamento global de carbono entre 2015 e 2100 precisa ficar em 880 giga toneladas (Gt). Atualmente, as NDCs vinculadas ao Acordo de Paris sugerem que o setor de energia vai emitir cerca de 1.260 Gt até 2050 – mais de 60% acima do orçamento projetado. Para mudar essa perspectiva, o estudo projeta uma transição energética de “escopo, profundidade e velocidade excepcionais”, considerando que as emissões relacionadas à energia chegarão ao pico antes de 2020 e depois precisariam cair 70%. A geração de combustíveis fósseis precisaria ser reduzia pela metade até 2050, enquanto as fontes de baixo carbono teriam que triplicar globalmente para representar 70% da demanda de energia em 2050.
As agências responsáveis pelo relatório descrevem, então, um cenário de 66% de probabilidade de o mundo atingir os objetivos do Acordo de Paris, como uma maneira de contribuir para a meta que visa manter o aumento da temperatura abaixo de 2°C até o fim do século. Os transportes representam atualmente 27% da demanda final de energia e quase 40% do uso direto de combustíveis fósseis em setores de uso final. Considerando esse cenário, as novas políticas a serem desenvolvidas no setor de transportes deveriam contemplar cinco pontos principais:
• Economia de combustível rigorosa e normas de emissões.
• Suporte a veículos elétricos e à infraestrutura de que necessitam para operar, incluindo linhas de catenária (de alimentação elétrica) para caminhões.
• Maior tributação dos combustíveis à base de petróleo.
• Qualificar os processos de planejamento urbano e aumentar a oferta de transporte coletivo de baixo carbono.
• Padrões internacionais de eficiência de combustível para a aviação e navegação e incentivos para biocombustíveis.
De acordo com os cálculos das agências, seria necessário um investimento total de mais de 120 trilhões de dólares relacionado à energia até 2050 para ser alcançado o cenário de 66%. Cerca de metade desse investimento teria de ser destinado à oferta de tecnologias, incluindo combustíveis limpos, biocombustíveis e eletricidade (geração, transmissão e distribuição). A outra metade seria alocada na procura de tecnologias de baixo carbono, incluindo o investimento em tecnologias mais eficientes para o consumo consciente de energia e materiais nos setores de utilização final.
O investimento calculado para tecnologias de redução de emissões diretas nos setores de uso final é de 26 trilhões de dólares. O setor de transportes (principalmente o investimento adicional em veículos elétricos para a substituição de veículos convencionais) representaria 65% deste total acumulado: a frota de automóveis elétricos precisaria crescer cerca de 50% por ano nos próximos 15 anos para alcançar as metas do cenário de 66%.

Mudança de tecnologia e comportamento

Aliado a um esforço em curto prazo para reduzir o consumo de combustível dos veículos convencionais, os principais meios para descarbonizar o transporte no cenário de 66% são a eletrificação (incluindo veículos de passageiros e de cargas) e um avanço substancial no uso de biocombustíveis na aviação e na navegação. Em 2050, cerca de 60% de todos os combustíveis no setor dos transportes teriam de ser de baixo carbono – uma mudança significativa ante os 3% atuais.
Um planejamento urbano eficiente também pode contribuir para a redução da demanda crescente de energia ao facilitar uma “mobilidade inteligente”, afirma o estudo.
A coordenação previa entre os urbanistas e os planejadores de trânsito é importante, nomeadamente quando se prevê o desenvolvimento de um sistema de transporte, mas também porque ajuda a garantir a disponibilidade de espaços dedicados aos pedestres e às redes de transporte coletivo. A mobilidade inteligente vai além do uso das tecnologias de informação e comunicação para otimizar os fluxos de tráfego. A conscientização também é vital, uma vez que o transporte inteligente depende de trocar conhecimentos e boas práticas.
O compartilhamento de viagens e as caronas, que hoje já aparecem como promessas para amenizar os congestionamentos nas grandes cidades, são considerados no estudo, porém serão mais profundamente analisados nas futuras projeções das instituições. O relatório ressalta, ainda, que o uso de serviços de transporte disruptivos precisa ser introduzido nos hábitos da população e que são necessários esforços mais profundos para a mudança de comportamento das pessoas.
Muito além das novas tecnologias e recursos, a população precisa deixar de recorrer apenas ao transporte individual e motorizado para qualquer deslocamento e passar a optar pelo transporte coletivo, bicicleta ou caminhada. Essa mudança é parte fundamental da construção de cidades inteligentes. Ao incentivar mudanças culturais, o planejamento urbano e da mobilidade pode ser um dos pilares para a redução das emissões originadas no transporte a partir, por exemplo, de uma rede de ciclovias densa e conectada, da oferta de transporte coletivo de qualidade e baixo carbono e da disponibilização de infraestrutura para os modos elétricos.







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