Revista ECO•21

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Edição 247
Entrevista com Luiz Fernando Vianna
Elisa Homem de Mello
Jornalista
 
Carismático e sorridente, o engenheiro e ex-Presidente da Companhia Paranaense de Energia (COPEL) tornou-se, no último dia 23 de Março, o 10º Diretor Geral brasileiro a comandar a usina hidrelétrica Itaipu Binacional . Do alto de seus quase 2 metros de altura, em entrevista especial, Vianna contou sobre os desafios que deverá ter à frente da hidrelétrica, como a renovação do Anexo C do Tratado da Itaipu, que estabelece as regras para a comercialização da energia, e os programas socioambientais desenvolvidos na região.

É possível dizer que sua relação com o setor energético é estável e duradoura?

Mais que muitos casamentos (risos). Entrei na COPEL em Julho 1978, como estagiário. Esta é minha terceira usina. Em 2004, fui para Brasília como Presidente da Associação dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (APINE), que congrega 62% das geradoras de energia do país, dentre elas a COPEL e conta ainda com sócios no exterior. Saí em 2014, quando o Beto (Governador do Paraná, Beto Richa / PSDB), me convidou para assumir a Presidência da COPEL Holding, onde fique até Março de 2017. No passado dia 23 (de Março), comecei na Itaipu. O bom é que não fiquei nenhum dia sem emprego (risos). Aqui (na Itaipu) sou o primeiro engenheiro eletricista.

Como anda a relação entre a hidrelétrica e a gestão sustentável?

A Itaipu está engajada em atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, estabelecidos durante a COP-21 e dos quais o Brasil é signatário, especialmente os ODS 6 e 7, relativos à água e energia. Em Abril, firmamos um acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (UNDESA) para tratar destas duas metas. Passaremos a contar com um escritório da UNDESA em Nova York e, aos moldes do que deverá ocorrer com a margem direita do Rio Paraná, ou seja, o lado paraguaio, o Brasil espera que a UNESCO também reconheça a margem brasileira como Reserva Mundial de Biodiversidade. Queremos continuar avançando na característica forte que a Itaipu tem hoje, a geração sustentável de energia e, para isso, trabalharemos ao máximo para que os impactos ambientais sejam mitigados. Durante o encontro, a UNDESA apresentou o esboço da iniciativa global denominada “Sustainable Water and Energy Solutions”, que irá atuar com uma abordagem integrada sobre os ODS 6 e 7, que tratam de “Água limpa e saneamento” e “Energia limpa e acessível”, respectivamente, e compõem a Agenda 2030 da ONU.

De que forma a Medida Provisória 735/2016, que altera regras no setor elétrico, afeta a Itaipu?

Na fase atual, a MP do setor elétrico não atrapalha o setor energético. Num processo destes existem associações que defendem diferentes interesses, inclusive comerciais (quem compra e quem vende). Um exemplo é a MP 144, de 2003, e que virou Lei em 2008... foi um processo participativo. Agora será igual. A MP 735 não afeta a Itaipu, que é regida pelo Tratado da Itaipu, mas, qualquer mudança deve ser discutida com o sócio paraguaio. A parte Eletrobrás pode mudar. A tarifa da Itaipu hoje é de R$ 175,00/MWh, a tarifa de mercado é de R$ 187,00/MWh.

O que irá mudar com o Anexo C do Tratado, em 2023?

A revisão do Anexo C, prevista para 2023, não vai acabar com os royalties da Itaipu. Os royalties estão previstos no Tratado da Itaipu, assinado em 1973 e aprovado pelos Congressos de ambos os países. Com isso, mesmo após 2023, a Itaipu seguirá compensando financeiramente os dois países pela utilização do potencial hidráulico do Rio Paraná. Os royalties da Itaipu começaram a ser pagos com o início da comercialização de energia gerada pela usina, em Março de 1985. O pagamento é calculado em função da energia gerada no mês e repartido igualitariamente entre Brasil e Paraguai. Cada país tem sua própria legislação que regulamenta a distribuição e utilização interna deste recurso. O que pode mudar, dependendo dos governos brasileiro e paraguaio, é a forma de calcular o valor do repasse. Os prefeitos dos municípios lindeiros não precisam se preocupar. Desde 1985, os 16 municípios afetados pela formação do reservatório já receberam US$ 1,83 bilhão. Os Governos do Paraná e Mato Grosso do Sul receberam outro US$ 1,82 bilhão e os órgãos da União ficaram com pouco mais de US$ 479 milhões. Esta questão dos royalties continua depois de 2023, quando ocorrerá o término do pagamento da dívida e a revisão do Tratado... os royalties continuam. A tarifa pode ser com base no custo, no caso da Itaipu é igual aos custos da usina. Daí segue leilão, e quem oferecer melhor preço, vem. Mas até 2023 nada muda. Se não houver revisão do Tratado, nada muda.

Com a mudança de gestão, como anda o Programa Cultivando Água Boa (CAB)?

Pretendemos nos manter firmes no CAB, a boa noticia é que o programa vai entrar na Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (AMOP). Atualmente são 54 municípios. O Presidente da AMOP reconhece que a Itaipu se tornou uma grande parceira dos municípios, principalmente por causa do Cultivando Água Boa, que já alcançou resultados extraordinários e só foram possíveis graças ao compromisso dos municípios parceiros.

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Itaipu inaugura planta de biometano


Responsável pelo abastecimento de 17% da energia elétrica consumida no Brasil e 76% da demanda paraguaia, a Hidrelétrica de Itaipu que, recentemente, estabeleceu novo recorde mundial de produção energética, com a marca de 103 milhões de megawatts-hora (MW/h), inaugurou, no último dia 2 de junho, a primeira planta de produção de biogás do Brasil.
O modelo, que passará por mais 20 meses de testes e poderá ser replicado em todo o país com grandes vantagens ambientais e econômicas, utiliza como matéria prima mais de 300 litros de esgoto produzidos diariamente, restos orgânicos de restaurantes (600 kg/dia) e poda de grama (mais de uma tonelada/dia).
Diante do cenário contemporâneo de uma nova relação capital-trabalho que vem se impondo, por um lado associada às pressões por maior responsabilidade social corporativa, e por outro, relacionada às questões ambientais, que envolvem além de eventos socioeconômicos e socioambientais, transformações decorrentes de fenômenos como mudanças climáticas, faz-se necessário repensar processos de gestão empresarial que levem em consideração princípios do desenvolvimento sustentável. Uma das soluções que visa a reestruturação do modelo produtivo é a Economia Circular, já que propõe, em linhas gerais, a reinserção dos materiais no ciclo produtivo, visando minimizar a deposição no ambiente e consequentemente evitando a geração de impactos ambientais negativos. Estudos apontam a biomassa como sendo o 4º material mais frequente em fechamento de ciclo e, em suas diversas formas, são as principais fontes para se obter biogás, produzido pela quebra biológica da matéria orgânica na ausência de oxigênio.
“Esta planta foi construída justamente considerando o contexto da Economia Circular”, afirma Marcelo Alves de Sousa, Gerente de Relações Institucionais do Centro Internacional de Energias Renováveis-Biogás (CIBiogás). “Os resíduos de podas, por exemplo, eram depositados no meio ambiente, o que também gerava emissão de GEE, resultante do transporte para estes aterros sanitários”. O CIBiogás, localizado no Parque Tecnológico Itaipu (PTI), em Foz do Iguaçu, além de ser uma instituição autônoma, conta com mais de 15 instituições parceiras, dentre elas a Universidade de Viena, referência europeia no tema de energias renováveis. Após vários estudos realizados em parcerias com a Áustria e a Alemanha, o conhecimento foi adaptado e trazido ao Brasil, “pois seria inviável propormos um sistema de biodigestão de 300 mil euros, cujo biodigestor fosse feito em concreto e muito ferro, nada disso caberia no bolso e na eficiência de nosso país”, explica Rodrigo Regis, presidente do CIBiogás, o por que da adaptação tropical. O biodigestor da nova planta da Itaipu é foi feito com fibra de vidro e possui a mesma eficiência do biodigestor alemão, segundo os técnicos, além de se alimentar da energia fotovoltaica.
Estima-se que a planta de biometano, localizada no Mirante do Vertedouro da Central Hidrelétrica, deverá produzir 4 mil m3 de biometano por mês, suficiente para atender, por exemplo, 60 carros da frota total de 250 veículos da Itaipu. O custo do biometano deverá ser de R$ 3,31/km, caso a planta atinja seu potencial máximo de 9 mil m3 de produção. Em comparação, este combustível deverá custar até R$ 0,26/km, isto é, R$ 0,10 mais barato que o custo do etanol. O investimento realizado foi de R$ 2,1 milhões. Outro subproduto é o biofertilizante e sua produção será suficiente para adubar mais de 200 hectares de áreas verdes da empresa. “Com isso conseguimos fazer com que todo este esquema da Itaipu se mantenha circular. Nossa proposta é chegar a 100% de fechamento deste “looping”, falta muito pouco”, segundo Marcelo, que complementa explicando que este tipo de iniciativa não pode ser vista apenas do âmbito econômico, “é preciso que haja uma visão ecossistêmica, sobretudo do ponto de vista ambiental”.

Replicando

O desenvolvimento desta planta faz parte da estratégia de gestão em dois âmbitos: energético e de saneamento, já que o biogás é a única fonte de energia renovável que transforma passivo ambiental em ativo energético. Ao tratar a biomassa resultante, o meio ambiente é saneado. “Queremos levar isso para a agroindústria, grande produtora de resíduos, principalmente quando há animais confinado e onde o tratamento da biomassa torna-se necessário para a licença de aumento no número do rebanho, ou seja, saneamos o meio ambiente e o agricultar consegue sua licença”, explica Marcelo. Na teoria, o processo conhecido como “ganha-ganha” (win to win) trata-se de um dos conceitos base da economia circular.
Por trás do planejamento estratégico da Itaipu está ainda a ampliação, em menor ou maior escala, da nova gestão ambiental encontrada pela Itaipu, seja em escolas, municípios lindeiros e outras regiões onde a quantidade de resíduos é imensa. Segundo o Banco de Informações de Geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), em todo o Brasil existem 15 plantas produzindo biogás para geração de eletricidade com uma potência instalada de quase 118 MW. Só em São Paulo, onde o Programa Paulista de Biogás prevê a obrigatoriedade de injeção de percentual mínimo de biometano no gás natural comercializado, a capacidade de produção energética chega a 70 MW, ou seja, 60% da potência total do país atualmente.
“Os órgãos reguladores estão atentos e, certamente, com a expansão econômica, o biogás será cada vez mais uma opção. O Estado de São Paulo é extremamente importante para estas alternativas”, afirma Paulo Schmidt, Superintendente de Energias Renováveis da Itaipu.

Notas

Economia Circular

O modelo de produção predominante desde o fenômeno da industrialização é linear e pressupõe a depleção contínua de recursos naturais, além de se caracterizar pelo descarte acelerado e precoce dos bens consumidos. Assim, com o aumento da produção e do consumo, ocorre o aumento da extração de recursos naturais e da deposição de resíduos, provenientes do processo produtivo e também do pós- consumo.
Estima-se que a quantidade de área necessária para suprir todos os bens e serviços ecológicos usados pela população mundial ultrapassa em 50% a biocapacidade do Planeta, ou seja, embora haja marcantes discrepâncias regionais, atualmente a população mundial necessita de 1,5 Planeta para atender às suas necessidades. E as prospecções feitas no relatório “What a Waste: A Global Review of Solid Waste Management” (publicado pelo Banco Mundial em 2012) preveem que até 2025, a geração de resíduos possa chegar a 2,2 bilhões de toneladas por ano. Tendo em vista que as destinações atuais não são capazes de solucionar satisfatoriamente os problemas ambientais relacionados aos resíduos sólidos, existe a necessidade de encontrar não apenas alternativas de disposição final, mas opções que considerem o problema dos resíduos de forma sistêmica e que englobem o modelo produtivo como um todo.
O fim da sociedade do descarte, seria a renúncia do padrão atual e a transição para a abordagem “outputs tornando-se seus inputs”. O fechamento das cadeias produtivas ganha crescente importância na medida em que, mesmo com o aumento de ecoeficiência, a disponibilidade de muitos recursos não-renováveis, como metais e combustíveis fósseis, não é suficiente para atender à atual demanda humana e, além disso, a capacidade regenerativa de recursos renováveis, como florestas e água, é inferior às taxas de extração desses recursos. A Economia Circular permeia todas as atividades produtivas. Assim, produtos, serviços e processos industriais são projetados e concebidos de forma que permitam um ciclo de vida mais longo com a possibilidade de serem reparados, atualizados ou restaurados.
(Fonte: Anais Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente. Dezembro 2016)

Biogás e Biometano

O biogás é uma mistura de gases composta principalmente por metano e dióxido de carbono, obtida normalmente através do tratamento de resíduos domésticos, agropecuários e industriais, por meio de processo de biodegradação anaeróbia, ou seja, na ausência de oxigênio. Já o biometano é resultado do processo de purificação do biogás e tem características similares ao do gás natural.
(Fonte: CIBiogás)







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