Revista ECO•21

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Edição 247
Cidades e Soluções, exemplos e otimismo por André Trigueiro
Samyra Crespo
Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Atualmente, é pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ.
 
As cidades existem desde épocas remotas e sempre representaram pináculos de movimentos culturais, de exercício do poder político e da emergência da classe que as definiram na modernidade: a burguesia. Delas derivam a noção de ‘polis’ como também de cidadão, título ao qual nós citadinos não renunciamos ainda hoje.
Mais recentemente, descobrimos que as cidades também reúnem com as suas virtudes todos os vícios, entre eles o de se caracterizarem como vorazes consumidoras de energia, produtoras de rejeitos, resíduos, sem falar no fato de que “reproduzem” sem nenhum glamour a desigualdade e a injustiça na repartição de bens e benefícios.
O rural há muito vem perdendo espaço na imaginação e na vida real. O êxodo contínuo de pessoas para as cidades em todo o mundo não para, e em poucas décadas teremos 75% da população mundial vivendo em centros urbanos. As razões são diversas e não são alvo desta resenha, mas é fato que afora a versão romântica do mundo rural (que circulou prodigamente no Século 19), fica cada vez mais evidente que a labuta humana ali é dura, à mercê das intempéries e ‘caprichos’ da natureza, além de competir com as máquinas e tecnologias que desempregam em massa. A tal da revolução verde desenvolvimentista nasceu para alimentar milhões, mas seus efeitos colaterais perversos se fazem sentir com intensidade em nossos dias. Hoje o desafio é alimentar bilhões e a aposta é agricultura de baixo carbono.
Reconhecer o centralismo das cidades no desenvolvimento de novos padrões de consumo, e da produção de uma qualidade de vida mais conforme às preocupações ambientais do nosso tempo, tem sido o principal mérito do programa televisivo “Cidades e Soluções”, cujo livro aqui comentado, é filhote – o que é assumido com clareza pelo jornalista André Trigueiro, que vê nele contudo uma utilidade diferente. O programa não se acha resumido no livro, e este não é uma somatória do mesmo. Segundo Trigueiro, seria quase impossível resumir 10 anos da carreira bem sucedida e premiada do programa semanal exibido no GloboNews. O livro veio à luz neste mês de Junho, no qual se celebra no mundo todos os avanços ambientais, editado pela Leya/Casa da Palavra.
Vamos ao que ambos, programa e livro têm em comum. Primeiro, o otimismo e a militância entusiástica de seu autor, presente na televisão, nas redes sociais e nas grandes audiências que recebem suas palestras em eventos Brasil afora. Em segundo, o mesmo estilo leve, didático, sem ser superficial de um empreendimento que deseja alcançar o grande público sem cansá-lo com tecnicismos e excesso de informação.
A seleção dos “cases” no livro também obedece ao espírito do programa: inovação, atualidade, replicabilidade. Mostrar que o desenvolvimento sustentável é possível, viável, e vem sendo praticado. Vitrine dos bons exemplos. Enquanto livro que combina uma boa seleção de casos exemplares, informação que cativa e temas pertinentes (energia, saneamento, resíduos, biodiversidade, água, etc.) é útil ao estudante, aos gestores, secretários de meio ambiente dos estados e municípios e até para o leitor simplesmente interessado.
Escorregadelas podem ser apontadas sob um olhar mais crítico, como as entrevistas, poucas e dispensáveis apesar da importância das figuras como Vandana Shiva e Pavan Sukhdev. São insossas e não trazem o melhor da contribuição desses protagonistas ao debate. Também se pode sublinhar um certo afã opinativo que faz o autor ser porta-voz da ideia de que o desmatamento (assunto atualíssimo) aumentou 75% devido ao novo Código Florestal, o que é amplamente discutível. Também fico pensando se os números, alguns bons, outros nem tanto, não serão rapidamente superados, imprimindo uma obsolescência precoce à obra, mas este é um risco previsível e quase impossível de ser evitado uma vez que a agenda ambiental é dinâmica mesmo, e que temas como o das energias renováveis vão crescendo exponencialmente de importância em todo o mundo. Ainda bem.
Ao terminar a leitura do livro, que recomendo, uma frase dançou na minha mente: eis um legado de esperança. Ler a realidade em nossos dias com lentes positivas, edificadoras, é alentador. Ainda mais quando os cenários dominantes, na literatura que tenta engajar o público nas questões ambientais são tão catastrofistas.
“Cidades e Soluções”, o livro, cumpre o que promete: nos deixa inspirados e com vontade de colocar a mão na massa, de ser parte de esse “mundo novo” que já tem cheiro e cor, que está mais perto e tangível do que imaginávamos há apenas uma década.







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