Revista ECO•21

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Edição 248
Uma visão da Amazônia pelas lentes do Google
Elisa Homem de Mello
Jornalista
 
Depois de oferecer a visualização de imagens de todo o Planeta, do futuro, do mar, da Lua e até de Marte, o Google está de olho no desmatamento da Amazônia.

No último dia 11 de Julho, Rebecca Moore, Diretora do Google Earth, do Google Earth Outreach e do projeto de mapeamentos computadorizados Google Earth Engine, celebrou o lançamento da plataforma que mapeia 11 locais espalhados pela Amazônia e espera se transformar em um espaço de conteúdo dentro dos canais da empresa.
É importante colocar que desmatamento e degradação não é a mesma coisa. Enquanto o primeiro é detectado via satélite, o segundo é um vilão discreto.
Os distúrbios a que as florestas tropicais estão expostas são amplamente conhecidos e têm silenciosamente consumido a Amazônia há anos. Os inimigos numero um (dois, três...) são a extração predatória de madeira, o fogo, a caça de espécies de animais, o contrabando ilegal de mudas e a fragmentação da floresta para dar lugar a cultivos agrícolas.
Mas, para muitos, tudo o que ocorre na maior floresta tropical do Planeta pode parecer muito distante. Para a maioria das pessoas, a Amazônia é uma terra misteriosa e distante, com vegetação impenetrável, rios majestosos e comunidades indígenas. Será que é só isso mesmo? Será que estas pessoas não percebem que todos temos uma conexão com a Amazônia, seja pelo ar que respiramos, a água que irriga os alimentos que consumimos, os ingredientes que usamos na medicina ou ainda as alterações climáticas sentidas ao redor do mundo?
O Google Earth, por meio da plataforma de histórias interativas Voyager, e em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) trouxe a todas as pessoas uma experiência imersiva sobre a Amazônia, contemplando todos os desafios e as ameaças que esse ecossistema e, por consequência, todo o Planeta sofrem.
Segundo André Villas-Bôas, indigenista e Secretário Executivo do ISA, a linha de base do Instituto sempre foram os estudos realizados pelo antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro. Em 1970, o ISA criou informes sobre os índios em plena ditadura militar, que na época, atravessava os territórios para a criação de estradas, como a Transamazônica, que ainda hoje segue sendo um pesadelo inacabado para os olhos do mundo. Colocar a Amazônia no mapa, naquela década, mostrou não apenas que o local não era vazio, como tornou possível fazer com que os povos reafirmassem suas identidades.
Até 1969, a tribo do povo Paiter Suruí, por exemplo, não havia tido nenhuma espécie de contato com a civilização do homem branco. Em 2007, como que alinhado às ideias de Darcy Ribeiro e prevendo que a construção de uma ferramenta tecnológica aliada ao diálogo traria conscientização para o entendimento de que somos todos iguais, o chefe Almir, desta tribo de Rondônia, entrou em contato com o Google para pedir que sua civilização fosse colocada no mapa. “Era como se a nossa história não existisse”. Foi quando aprendeu com Rebecca Moore como colocar no mapa sua tribo. Para Almir, entender de tecnologia de forma responsável é contribuir para com o futuro do mundo: “para mim, essa parceria trouxe aprendizado e tecnologia e isso é o mesmo que tornar um sonho em realidade. Nós índios lutamos pela Floresta porque sem ambos, ambos não existem”.
No entanto, nos primeiros anos do Século 20, metade da população havia desaparecido. As terras indígenas representam quase 14% de todo o território do País, num total de 550 territórios, 150 línguas diferentes e mais de 250 povos, com uma população de 850 mil pessoas. Dar visibilidade a toda essa cultura é a melhor forma de proteger estes povos.

Série ou pacote? - A Amazônia que existe dentro de cada um de nós

Na visão do cineasta brasileiro, Fernando Meireles, produtor de algumas destas histórias, a Série, “... ou Pacote, não sei bem ao certo como defini-las”, brinca Meirelles um ativista das causas ambientais, trata de uma jornada profunda contada por meio de vídeo, mapas, áudio e realidade virtual em 360°, disponível atualmente para desktops e dispositivos móveis Androids, além de acesso no navegador Chrome em g.co/EuSouAmazonia.
As histórias são divididas em: Água (sobre a produção da floresta e sua relação com a chuva em outras partes do País); Alimento (sobre os produtos da floresta, como castanha-do-pará e o açaí); Raiz (sobre a cultura dos Yawanawá, que quase se perdeu e se recuperou com o empoderamento feminino e economia sustentável); Inovação (sobre o povo Paiter Suruí, que descobriu com a tecnologia uma forma de monitorar sua terra e conseguiu sobreviver); Liberdade (sobre quilombolas que encontraram na Amazônia um lar após fugirem da escravidão); Resistência (sobre o povo Tembé, na sua luta pelo direito à terra); Resiliência (sobre as ameaças que desmatamento, agrotóxicos e mudanças climáticas trazem ao Xingu); Aventura (sobre uma trilha de 36 km com os Yanomami até o Pico da Neblina); e Conhecimento (sobre como o povo Cinta Larga usa projetos de educação para conseguir proteção de seu território).
Em termos de orçamento, a Google afirma ter uma boa receita oriunda de publicidade, para o que Moore corrobora: “nem tudo o que fazemos precisa dar lucro". Certamente, o que valerá aqui não será os milhões de dólares investidos, mas sim as milhões de histórias que serão contadas.







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