Revista ECO•21

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Edição 85
1892: Missão Cruls, o nascimento de Brasília
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
Astrônomo e escritor
 
Numa expedição inédita partindo do Rio de Janeiro tendo como destino final Brasília, entre 11 e 27 de Novembro último, sete pesquisadores brasileiros reproduziram os passos da famosa Missão Cruls que determinou há 111 anos, em 1892, o lugar exato onde seria instalada a futura Capital Federal do Brasil.
A nova “Missão Cruls”, uma expedição que não teve um caráter exclusivamente científico como a original, esteve composta pelos seguintes cientistas: Jarbas S. Marques, historiador do Instituto Histórico e Geográfico do DF; Gilberto Pessanha, engenheiro cartógrafo; Fabian Borghetti, botânico, José Roberto Pujol, zoólogo; Roberto de Melo Dusi médico sanitarista, os três professores na Universidade de Brasília; Regina Célia Haddad, geóloga da Universidade Federal de Uberlândia e, Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, astrônomo, autor deste artigo. A missão foi coordenada por Pedro Jorge de Castro, professor da Universidade de Brasília, que idealizou a expedição.
Todo o percurso foi documentado pelo cineasta Miguel Freire, da Universidade Federal Fluminense; junto com André Muniz Leão, fotógrafo do ICESP de Brasília; Luiz Fernando C. Silva, arquivista do Arquivo Público do DF. Além do pessoal de apoio, a nova expedição incluiu jornalistas do Correio Braziliense, da Radiobrás e da Rede Globo. A “Missão” foi escoltada pela Polícia Rodoviária Federal, do Rio de Janeiro até Brasília.
Das 23 cidades visitadas no percurso, em 14 delas, além de exposições das fotos da Comissão, se realizou uma série de palestras abordando o histórico Relatório Cruls, recentemente reeditado pelo Senado Federal. Didaticamente, mostraram a um público, principalmente discente, o acerto das posições geográficas estabelecidas por meios astronômicos no final do Século XIX, assim como também foram reestudadas as riquezas botânicas, zoológicas, hidrográficas e humanas do Planalto Central.
O objetivo principal desta iniciativa foi o de revitalizar entre a população, especialmente junto aos estudantes, a importância da Comissão Cruls. No trajeto, a expedição seguiu o mesmo caminho, desta vez utilizando veículos motorizados em vez de animais de montaria e carga, tal como o fizeram os expedicionários de Luiz Cruls, observando os mesmos aspectos registrados pela Comissão de 1892, documentação que permitiu elaborar um estudo comparativo das mudanças que ocorreram na região, desde aquela época até os dias atuais. Constatou-se uma grave degradação das cidades e do meio ambiente. Apesar do razoável conforto das rodovias, verificou-se de forma particular o abandono das estradas de ferro, meio de transporte cuja construção Cruls considerava de fundamental importância, já então, para integrar a região Central do País às cidades do litoral.

A primeira Missão Cruls

Em 12 de Maio de 1892, por ocasião de abertura da Segunda Sessão Ordinária da Primeira Legislatura, o Marechal Floriano Peixoto considerou inadiável dar cumprimento ao artigo terceiro da Constituição de 1891, a primeira da República, que determinava imperiosamente a mudança da capital da União. Com o objetivo de tornar realidade a determinação presidencial, o Congresso Nacional consignou, na Lei de Orçamento em vigor na ocasião, os recursos necessários à exploração da região da futura capital. Em conseqüência, o Ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias, para chefiar a Comissão Exploradora do Planalto Central escolheu o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls, na época também professor da Escola Superior Militar e Diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Cruls, para constituir a Comissão Exploradora, escolheu seus membros entre os servidores do Observatório Astronômico e os engenheiros militares, muitos deles seus ex-alunos na Escola Superior de Guerra.
Composta de 22 homens, 206 caixotes e fardos (cerca de 10 toneladas), a Comissão chefiada por Cruls, no dia 9 de Junho de 1892, saiu de trem do Rio de Janeiro até Uberaba (MG), onde terminava a estrada de ferro da Companhia Mogiana.
A partir deste ponto, os membros da Comissão seguiram em lombo de burro até ao Planalto Central. Convém assinalar que os 206 caixotes e fardos referidos compunham, além das barracas, armas, mantimentos, uma grande quantidade de instrumentos científicos, tais como 2 círculos meridianos, teodolitos, sextantes, micrômetro de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópios, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneróides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação e uma pequena oficina de aparelhos mecânicos destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente.
Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de Junho, em razão de todos os preparativos necessários para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas na orientação das trilhas a serem percorridas. Depois de deixar Uberaba a caminho de Mestre d’Armas (hoje Pirenópolis), a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios (Ipameri) e Bonfim (Bonfinópolis), chegando em 1º de Agosto ao seu destino.
Em Pirenópolis, a 12 de Agosto, Cruls dividiu o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o Planalto a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma - chefiada por Cruls - seguiu diretamente para Formosa, aonde chegou a 23 de Agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas, chegou a Formosa em 14 de Setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário.
Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares, quer pela passagem de Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura, quer por diferenças de altura entre os dois astros.
Em cada acampamento se faziam visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.
Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição de 1891: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.
Uma delas seria adotar uma forma irregular para a área do futuro Distrito Federal, na qual se tomariam, como referência, os limites dos sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seria, seguindo o exemplo dos EUA, onde os limites dos Estados da sua Federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Cruls imaginou que se fosse adotado o critério estadunidense, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos. Para isso inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais etc.
O sucesso desta missão motivou uma segunda Comissão do Estudo da Nova Capital, em 1894, pouco conhecida apesar dos lagos de Brasília terem sido preconizados pelo botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, que participou desta segunda expedição, interrompida por motivos de economia.
Durante essas duas missões, os astrônomos, geógrafos e naturalistas que as compunham descobriram acidentes geográficos da maior importância ambiental, como as águas quentes de Caldas Novas, o Salto de Itiquira - uma das mais altas cachoeiras do País - e as nascentes de Águas Emendadas, berço de três das maiores bacias brasileiras: Amazônica, Platina e São Francisco. Foi escalado o Pico dos Pirineus - considerado, na época, o pico mais alto do território brasileiro, pois se acreditava que a sua altura fosse de 3.000 metros. Depois de ascender aos Pirineus, em 8 de Agosto, utilizando barômetros aneróides, Cruls determinou a pressão da atmosfera o que lhe permitiu concluir que o maior do três picos se encontrava a altura de 1.385 metros.
A importância, o rigor científico e o amor à natureza que orientaram Luiz Cruls e seus companheiros nas suas pesquisas sobre a fauna, a flora e o solo, durante as duas Comissões exploradoras às regiões do Planalto Central brasileiro, fazem destes relatos documentos ecológicos da maior importância para a nossa história.
Ao medirem a altitude, o fluxo dos rios, a umidade do ar e a intensidade das chuvas, esses cientistas elaboraram, um século antes, o procedimento que a Constituição brasileira de 1988 tornou obrigatório: a realização de estudos de impacto ambiental antes de qualquer construção importante. Com efeito, os informes das duas expedições ao Planalto Central, publicados em 1893 e 1896 respectivamente, constituem os dois primeiros Relatórios de Impacto ao Meio Ambiente - RIMA realizados no Brasil. O conjunto formado pelos 4 Marcos deixados no Planalto Central por Luiz Cruls e sua equipe, pode ser considerado um autêntico monumento à força de vontade do Homem.

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Luiz Cruls

Astrônomo brasileiro de origem belga, nascido em Diest, a 21/1/1848. Em 1874, durante a viagem para o Brasil, conheceu Joaquim Nabuco, que o introduziu na sociedade carioca e logo depois era recebido pelo Imperador. No mesmo ano trabalhou na Comissão Geodésica do Município Neutro e, em 1878 foi nomeado primeiro astrônomo do Observatório Astronômico. Desempenhou inúmeras comissões, dentre elas a de exploração do Planalto Central, que escolheu a localização de Brasília, em 1892. Foi criador da Revista do Observatório, primeiro periódico de ciências do Brasil. Chefe da missão encarregada de explorar as nascentes do Rio Javari, de importância fundamental para o Acre. Publicou inúmeras notas científicas, algumas na Academia de Ciências de Paris, e deixou as seguintes obras principais: Passagem de Vênus pelo Disco Solar em 1882 (1886); Comissão Exploradora do Planalto Central (1893); O clima do Rio de Janeiro (1894); Atlas Celeste contendo o aspecto do céu para cada mês na latitude do Rio de Janeiro (1896); O fim do Mundo (1899) e Relatório da Comissão de limites entre o Brasil e a Bolívia (1902). Pai do escritor Gastão Cruls. Faleceu em Paris a 21 de Junho de 1908.







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