Revista ECO•21

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Edição 87
Lixo ou rejeitos reaproveitáveis?
Antonio Carlos Teixeira
Jornalista, editor da revista Cadernos de Seguro, pós-graduando em Ciências Ambientais pela UFRJ
 
Lixo. Fomos acostumados a associar esta palavra à sujeira, imundice, restos. Derivada do latim lix (cinza), o lixo tecnicamente é conhecido como “Resíduo Sólido Urbano” (RSU). Se até o começo da Revolução Industrial o lixo era composto basicamente de restos e sobras de alimentos, a partir dessa era passou a ser identificado, também, por todo e qualquer material descartado e rejeitado pela sociedade.
O desenvolvimento para o conforto e o bem-estar humanos produzido a partir da Revolução Industrial levou à intensificação do material descartado, ocasionando um aumento da quantidade de resíduos gerados e não utilizados pelo Homem, muitos deles provocando a contaminação do meio ambiente e trazendo riscos à saúde humana, basicamente nas áreas urbanas.
Pior. O crescimento das áreas urbanas não levou em consideração a necessidade de adequação de locais específicos para depósito e tratamento dos resíduos sólidos. No Brasil de hoje, por exemplo, estima-se que a produção anual de lixo esteja em torno de 44 milhões de toneladas, sendo que a maior parte dos resíduos recolhidos nos centros urbanos é simplesmente jogada sem qualquer cuidado em depósitos existentes nas periferias das cidades. De acordo com o IBGE, 74% dos municípios brasileiros depositam lixo hospitalar a céu aberto e apenas 57% separam os dejetos nos hospitais.
A miséria socioeconômica brasileira faz com que o lixo acabe se transformando numa fonte de sustento para milhares de pessoas, adultos e crianças, homens e mulheres. Segundo a UNICEF, 45 mil crianças e adolescentes brasileiros vivem da garimpagem do lixo. São filhos de famílias muito pobres que ajudam os pais a catar embalagens plásticas, papéis, latinhas de alumínio, a separar vidros e restos de comida. Os meninos e meninas de todas as idades ganham míseros R$ 1 a R$ 6 diários, mas que ajudam a aumentar a renda de suas famílias.
Essa triste constatação torna-se ainda pior pelo fato de que, ainda segundo a UNICEF, em alguns “lixões”, mais de 30% das crianças em idade escolar nunca pisaram nas salas de aula. Em Olinda (PE), sofrem preconceito e discriminação e são conhecidas como “crianças do lixo”. As crianças de Olinda e de Campo Grande (MS) já chegaram a representar 50% da mão-de-obra nos “lixões”. Na capital sul-mato-grossense, dados oficiais apontam que 33,3% dos trabalhadores do “lixão” local têm menos de 12 anos. 
Uma das iniciativas louváveis - e que vai de encontro a essa vergonhosa situação - é o Projeto “Amigos do Lixo”, implantado na cidade de Guaratinguetá (SP). Os voluntários que criaram esse projeto se viram preocupados com as precárias condições de vida dos catadores de lixo e com a preservação do meio ambiente.
Antes estigmatizados como “catadores” que perambulavam pelas ruas da cidade e pelo lixão do município em busca de sustento em condições desumanas, essas pessoas são atualmente conhecidas como agentes ambientais. Foi preciso apenas capacitá-los profissionalmente e conscientizá-los a respeito da preservação ambiental. Resultado: os agentes ambientais estão agora organizados, capacitados, identificados e uniformizados, trabalhando sob o sistema de cooperativa.
Das três opções tecnológicas básicas para a disposição adequada de RSU (aterros sanitários, reciclagem/compostagem e incineração), destacamos a importância das unidades de reciclagem e compostagem. São alternativas importantes todas as vezes que se verificarem a existência de mercados para absorção de materiais recicláveis produzidos.
A falta de novas áreas para a implantação de aterros sanitários (ou “lixões”, ou aterros controlados) é um fator que tem contribuído para a implementação de sistemas de compostagem. Estudos apontam que as técnicas utilizadas pela compostagem são capazes de reduzir à metade a massa de lixo processada e, num prazo de 60 a 90 dias, levar à obtenção de um composto orgânico para utilização na agricultura sem causar danos ao meio ambiente.
Já está mais do que claro que, definitivamente, lixo “não é lixo”. Em nosso País, por exemplo, estima-se que técnicas como a reciclagem pode fazer com que as 44 milhões de toneladas anuais estimadas de lixo produzam pelo menos 30% da energia gerada na Hidrelétrica Binacional de Itaipu.
Luciano Basto Oliveira cita algumas “rotas para aproveitamento energético do lixo”: a utilização do seu poder calorífico por meio da queima direta ou da gaseificação; o aproveitamento calorífico do biogás ou GDL; ou a produção de um combustível sólido a partir dos restos alimentares, “a celulignina, para ser queimada em caldeiras e mover turbinas a vapor ou um combustor externo e mover turbina a gás - sendo possível o aproveitamento do ciclo combinado”.
Mais: a reciclagem desses resíduos sólidos geraria um invejável incremento de R$ 10 bilhões na economia e criaria um milhão de empregos, além, é claro, de proporcionar o reaproveitamento de produtos para a fabricação de novos utensílios, o que representa economia de matéria prima e de energia.
Este exercício de pensamento nos leva a defender a opinião de Francisco Luiz Rodrigues e Vilma Maria Gravinatto de que o conceito que temos de “lixo” pode ser evoluído para “coisas que podem ser úteis e aproveitáveis pelo Homem”. Mas lixo também é arte. Que o diga Víctor Delfín, um artista que usa sucata e resíduos diversos, para “construir”, na linguagem da escultura, uma variada gama de obras extraordinárias.







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